Estude português com o discurso de Leandro Karnal durante a posse na Academia Paulista de Letras

"Achei um diamante em forma de texto", diz Diogo Arrais sobre o discurso de Leandro Karnal que se tornou imortal pela Academia Paulista de Letras
 (R. Trumpauskas/Divulgação)
(R. Trumpauskas/Divulgação)
Por Diogo Arrais, professor de português (@diogoarrais)Publicado em 16/06/2022 14:00 | Última atualização em 15/06/2022 18:55Tempo de Leitura: 3 min de leitura

Há nove anos, escrevo esta coluna. Aqui é um lugar que tenho como a extensão de uma sala de aula, o lugar mais sagrado para um professor. Por ser um espaço de educação e afeto, trato o leitor como amigo e aluno.

São raríssimas as vezes em que uso a primeira pessoa do verbo, por entender que o conteúdo tem os quês da impessoalidade. Porém, quando a emoção vai ao encontro deste sujeito (amante da Língua Portuguesa), é uma forma de dizer: achei um diamante em forma de texto.

No dia de 9 de junho de 2022, na Academia Paulista de Letras, tive a honra de ser um dos presentes à cerimônia de posse do, agora, imortal professor Leandro Karnal.

Lá estava eu, na plateia. Enquanto as sílabas e sentenças eram proferidas, em admirável fluidez, os ouvidos agradeciam perplexos diante de tantas citações elegantes, como:

Louvo meus mestres jesuítas, os quais deixaram um sulco fundo na minha alma. As aspirações inacianas reforçaram minha energia racional e retórica. Relembro a profecia de Daniel: aqueles que ensinam para a justiça brilharão como as estrelas do céu.”

Grande escritor, Karnal tem um enorme cuidado em buscar palavras com precisão no sentido: “aspirações que reforçam a energia racional e retórica.” Apaixonado por São Paulo, o discurso revela imensa criatividade em:

O sonho do jovem estudante Anchieta reúne um generoso estuário. Aqui os filhos do cacique Tibiriçá tomavam águas – então confiáveis – do Tamanduateí e do Tietê. Aos hídricos e sonoros topônimos indígenas sobrevieram fluxos do Tejo e do Tibre, algo do Reno, muito do Congo, ondas nipônicas, águas do Titicaca e, sempre, a presença generosa e produtiva dos imigrantes de todo país, especialmente dos nordestinos. O palimpsesto de Andrade é arte-processo que se enriquece com cada nova contribuição.”

O texto passa por fatos, por sua biografia, sem esquecer-se da análise apurada:

“A fama tem um pouco da fórmula da Teoria do Medalhão, de Machado de Assis. O sucesso pode ser uma gramática desafiadora.  A notoriedade ganha sua própria dinâmica e tende a negar oxigênio quando o incauto deslumbrado supõe estar nas alturas. As redes sociais são o Sol que queima a cera de todo Ícaro ousado.Desejo beber a ideia, lacaniana avant la lettre, de Rimbaud em carta a Georges Izambard: “Eu é um outro”. São Paulo gestou muitos sonhos que eu embalava em silêncio.”

É raríssimo encontrar textos perfeitos. O que vi e ouvi (tantas vezes!) levou me às lágrimas, já que a busca de um aficionado por palavras é vê-las em sintonia, como a mais pura música clássica.

À Academia Paulista de Letras agradecimentos plurais: o amor ao texto há de vencer, sempre!

Nota: o discurso completo está no site da Academia Paulista de Letras, na aba “publicaçãoes-discursos”.

Com carinho,

DIOGO ARRAIS

http://www.ARRAISCURSOS.com.br

YouTube: MesmaLíngua

Professor de Língua Portuguesa

Fundador do ARRAIS CURSOS