Evento de Comunidades HIPs com a Montblanc
Redatora
Publicado em 23 de setembro de 2026 às 15h55.
Na noite de 21 de setembro, um grupo de alumnis da Saint Paul Escola de Negócios deixou o celular de lado por duas horas. No lugar dele, papel e caneta.
O encontro "Eternizar Memórias pela Escrita", evento organizado pelas Comunidades dos HIPs e promovido pela escola em parceria com a Montblanc, foi conduzido pelo calígrafo, artista visual e escritor Fabio Maca.
A dinâmica usou imagens como ponto de partida. Cada participante observava uma cena, identificava o que ela despertava e transformava essa lembrança em texto escrito à mão, com canetas da marca alemã, fundada em Hamburgo em 1906. A ideia era que cada um saísse pronto para começar o próprio diário.
Maca chegou à caligrafia depois de 15 anos como redator publicitário. É autor de Tarja branca (Editora Nacional, 2021) e de Dois Avessos, escrito em parceria com o poeta Lucão. Defende uma caligrafia menos técnica e mais próxima da letra de cada pessoa.
No encontro, o tema foram os diários de viagem. "Sou um fã de diários e um fã de viagens, e junto as duas coisas para fazer um registro mais autêntico e mais pessoal do que uma foto", afirma. "Claro, a foto é importante, mas a linguagem escrita contém muito mais memória, muito mais afeto, muito mais história”, diz.
O método apresentado ao grupo se organiza em seis passos simples, pensados para que o hábito comece no mesmo dia, sem depender de habilidade artística.
A intuição do calígrafo tem respaldo em laboratório. Em 2024, pesquisadores da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia (NTNU) publicaram na revista Frontiers in Psychology um estudo com 36 universitários monitorados por eletroencefalografia de alta densidade enquanto escreviam à mão e digitavam.
"Quando se escreve à mão, os padrões de conectividade cerebral são muito mais elaborados do que ao digitar em um teclado", disse a professora Audrey van der Meer, autora do estudo. Segundo ela, esse tipo de conectividade é importante para a formação de memória e para a codificação de novas informações.
Uma pesquisa anterior, conduzida por Pam Mueller e Daniel Oppenheimer e publicada em 2014 na Psychological Science, apontou que estudantes que anotavam à mão tendiam a processar e resumir o conteúdo, enquanto os que usavam notebook copiavam as falas quase palavra por palavra.
Replicações posteriores encontraram efeitos mais modestos, mas o debate sobre o papel da caneta no aprendizado segue ativo.
Há ainda a dimensão emocional. Desde os anos 1980, o psicólogo James Pennebaker, da Universidade do Texas, estuda a chamada escrita expressiva, prática de colocar no papel experiências e sentimentos. Suas pesquisas associam o hábito a ganhos de bem-estar e à capacidade de organizar vivências.
Para quem ocupa cargos de decisão, a proposta vai além do lazer. A agenda de um executivo é feita de telas, reuniões em sequência e respostas rápidas. Parar para observar, lembrar e escrever exige um tipo de atenção que o cotidiano raramente oferece.
Foi isso que marcou a advogada Renata Paiva Angelini, alumini do ABP-W, Advanced Boardroom Program for Women, que atua na área corporativa. "Hoje a gente veio ter experiências muito mais de sentir: sobre escrita, sobre memória, sobre as conexões que a gente faz com a gente, com o que tem no diário, na letra que a gente entrega", disse.
"Muito mais voltada ao que a gente sente efetivamente naquele momento de presença. Foi indescritível”, completa.
A arquiteta Lorena Quiroga Siekierski, que frequenta os eventos da escola e também fez o ABP-W, destacou o contraste com a rotina.
"Foi uma experiência muito transformadora. Foi rápida, mas o Fabio conseguiu trazer uma profundidade da questão da escrita e da caligrafia e, mais do que isso, de como registrar emoções e momentos com uma leveza e uma beleza que a gente perde no dia a dia", conta.