A população de Portugal vai eleger um novo presidente neste domingo, 18 (twinsterphoto/Getty Images)
Repórter
Publicado em 18 de janeiro de 2026 às 09h02.
Pela primeira vez desde a redemocratização, Portugal chega a uma eleição presidencial com cinco candidatos competitivos, todos com chances reais de vitória. Neste domingo, 18, a população portuguesa vai às urnas votar no próximo presidente, mas neste ano o cenário chama atenção: quatro candidaturas estão posicionadas à direita ou ao centro-direita, enquanto apenas uma representa o campo da esquerda — que hoje soma menos de 25% das intenções de voto.
Para Wilson Bicalho, advogado e CEO da Bicalho Consultoria Legal em Portugal, o movimento acompanha uma tendência já observada em outras democracias ocidentais.
“Em diversos países, cresce a busca por discursos que prometem maior controle, previsibilidade e eficiência do Estado, especialmente em contextos de pressão econômica, crise habitacional e insegurança social", afirma.
Bicalho pondera que não há uma relação automática entre vitória da direita e endurecimento das regras migratórias, mas reforça que o ambiente político interfere diretamente no funcionamento do sistema.
“A realidade é sempre mais complexa do que os rótulos políticos sugere, mas é inegável que o contexto político influencia o grau de abertura do sistema, o ritmo da máquina pública e o desenho regulatório que impacta migrantes, empresas e investidores estrangeiros.”
Atualmente, Portugal abriga uma das maiores comunidades brasileiras no exterior, com presença expressiva no mercado de trabalho, no ensino, no setor imobiliário, no empreendedorismo e nos serviços.
“Mudanças no equilíbrio político tendem a influenciar, ao longo do tempo, políticas migratórias, critérios de regularização, a velocidade dos processos administrativos e até a forma como o Estado se comunica com estrangeiros”, afirma o advogado.
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No campo prático — especialmente para quem pensa em carreira internacional — Bicalho destaca que o momento político também coincide com expectativas importantes sobre mudanças na legislação migratória.
“Há uma grande expectativa em torno do visto de procura de trabalho, que está em discussão há meses. O governo deve definir melhor o que considera trabalho qualificado.”
Segundo o advogado Bicalho, o conceito de qualificação não se limita à formação acadêmica.
“Qualificado não é só quem tem diploma universitário. Pode ser um carpinteiro, um pedreiro, um profissional técnico com experiência comprovada. Portugal precisa — e muito — de trabalhadores.”
Outro ponto de atenção é a criação de uma via verde para profissionais de tecnologia, especialmente nas áreas de tecnologia da informação e inteligência artificial.
“Portugal tem feito um movimento claro para se tornar um hub de tecnologia. A promessa é de vistos emitidos em até 15 ou 20 dias para profissionais com habilidades específicas nessas áreas.”Para Vinícius Vieira, professor de Relações Internacionais da FAAP e da FGV, o principal ponto de atenção está no avanço do líder do partido Chega, André Ventura, nas pesquisas eleitorais.
“As eleições em Portugal importam ao Brasil menos por questões econômicas e mais pela dinâmica da extrema-direita.”
Caso Ventura avance para o segundo turno contra um candidato do Partido Socialista, Portugal poderá reproduzir um cenário já conhecido dos brasileiros: a polarização entre centro-esquerda e extrema-direita.
“Mesmo com funções mais simbólicas, um presidente da extrema-direita poderia tentar tensionar o sistema e ampliar sua influência política", diz Vieira.
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Do ponto de vista econômico e diplomático, Vieira não prevê mudanças imediatas nas relações entre Brasil e Portugal, independentemente do resultado das urnas.
“As relações bilaterais são muito pautadas por investimentos. Não vejo impacto direto qualquer que seja o vencedor.”
Segundo o professor, o principal vetor da relação entre Brasil e Europa seguirá sendo o avanço — ou não — do acordo entre o Mercosul e a União Europeia.
Sobre essa possível relação Mercosul-União Europeia, o advogado Bicalho levanta um ponto sensível que envolve a política externa.
“Dois candidatos posicionados em extremos ideológicos opostos — um associado à extrema-direita e outro à esquerda — já se manifestaram publicamente contra o Mercosul e contra o acordo entre o bloco sul-americano e a União Europeia”, afirma.
Ainda que o presidente português não tenha poder formal para barrar tratados internacionais, Bicalho alerta para o peso simbólico dessas declarações.
“Em política externa, os sinais importam — e, muitas vezes, antecipam mais sobre o comportamento institucional do que as próprias competências formais do cargo.”
O maior impacto para o Brasil, segundo os especialistas, é simbólico e narrativo. Um desempenho acima do esperado de André Ventura, especialmente se ultrapassar a marca de 40% dos votos em um eventual segundo turno, pode servir de combustível político para movimentos de extrema-direita no Brasil.
“Portugal está prestes a fazer uma escolha importante”, afirma Wilson Bicalho. “E essa escolha, gostemos ou não, também diz respeito ao Brasil.”
Apesar da disputa equilibrada, Portugal deve eleger em breve o seu presidente. Caso nenhum candidato obtenha mais de 50% dos votos neste domingo, está previsto um segundo turno para o dia 8 de fevereiro.
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