Carreira

Ele teve pais formados pelo EJA, hoje orienta brasileiros rumo a Harvard e Notre Dame

Finalista do Global Counsellor Awards 2026 e vencedor do prêmio da Universidade de Notre Dame, Lucas D'Nillo Sousa transforma autoconhecimento em aprovações internacionais

 ( Crédito Divulgação/Beacon School)

( Crédito Divulgação/Beacon School)

Publicado em 18 de agosto de 2026 às 18h00.

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Lucas D'Nillo Sousa cresceu em uma casa em que a faculdade não era um destino óbvio: seus pais concluíram o ensino superior pela Educação de Jovens e Adultos (EJA). Hoje ele é um dos nomes mais premiados entre os orientadores educacionais da América Latina.

Coordenador de University and Career Counseling da Beacon School, escola fundada em 2010 e referência em formação pelo currículo do International Baccalaureate (IB), da educação infantil ao ensino médio, Sousa foi finalista em duas categorias do Global Counsellor Awards 2026, promovido pela Times Higher Education, dentro de um universo de cerca de 300 orientadores latino-americanos. Também venceu o Golden Guide Award, da University of Notre Dame.

A trajetória do próprio orientador ajuda a explicar o método. Ele passou pela Universidade Federal de Brasília e pela UCLA, uma das principais universidades públicas dos Estados Unidos, trabalhou na ONU e hoje soma 18 anos de sala de aula e 15 como profissional pós-formado.

Do inglês de volta à educação

Antes de se firmar como orientador, Lucas passou por sete meses de busca profissional até decidir voltar a dar aulas de inglês. Foi esse retorno que reacendeu uma escolha que ele considera mais reencontro do que decisão.

"Caí na educação enquanto carreira por coincidência, mas, no fundo, era uma paixão autêntica que nunca havia saído de mim", diz Lucas.

Ele credita à mobilidade social parte do impulso inicial, mas afirma que a paixão pelo processo formativo em si sempre esteve presente.

A profissão de University and Career Counselor (UCC) ainda é pouco conhecida no Brasil. Cabe a esse profissional orientar estudantes em suas primeiras escolhas de carreira e de universidade, no país ou no exterior. Com o crescimento da educação bilíngue, mais escolas têm incorporado esse tipo de departamento, hoje concentrado majoritariamente na rede privada.

Autoconhecimento antes da escolha do curso

O método de Sousa parte de uma ficha de acompanhamento que investiga o perfil de cada estudante antes de qualquer conversa sobre universidades. A referência declarada é o trabalho de Maria Elci Spaccaquerche e os ensinamentos de Rodolfo Bohoslavsky sobre orientação profissional.

"Um estudante que se conhece mais, identifica características pessoais, valores importantes para si e padrões de comportamento consegue fazer escolhas com mais propriedade", afirma o orientador.

Para Sousa, o mais importante deixou de ser acertar a profissão certa logo na primeira escolha. "A escolha de um curso superior não define toda uma trajetória profissional. Devemos aprender a escolher para poder lidar com os contextos em transformação ao longo da vida", diz.

O que pesa além das notas

Entre os estudantes aprovados nas universidades mais concorridas do mundo, Sousa identifica um padrão que vai além do boletim escolar: paixão declarada pelo conhecimento e projetos de impacto social genuíno.

Ele cita o caso de uma aluna aprovada em Harvard depois de liderar a coleta de milhares de absorventes para mulheres em situação de pobreza menstrual. Outro estudante, aceito em LSE e Sciences Po, citou o filósofo Søren Kierkegaard em seu texto de candidatura. Segundo Sousa, mencionar a realidade brasileira também costuma pesar a favor do candidato, já que universidades estrangeiras valorizam quem pretende gerar impacto no próprio país.

Dois casos marcam a trajetória recente do orientador. Um aluno que não se via seguindo a carreira de cinema da família mudou de ideia ao longo do processo, foi aprovado na NYU e hoje produz documentários exibidos em festivais. Outro, filho de uma família que migrou do Nordeste para São Paulo, conquistou bolsa integral em Engenharia da Computação na Notre Dame, uma das chamadas "novas Ivies" segundo a Forbes.

Inteligência artificial entra na conversa de orientação

A discussão sobre como a inteligência artificial vai transformar profissões já chegou às salas de orientação. Sousa afirma que a escola criou um bot para que os estudantes verifiquem alucinações de informação, e que o uso da ferramenta em produções acadêmicas segue regras específicas, incluindo a obrigatoriedade de mencionar seu uso.

Ele cita projeções do Banco Mundial, da Organização Internacional do Trabalho e do U.S. Bureau of Labor Statistics para embasar as conversas com os alunos.

Um exemplo recorrente é a projeção de crescimento de 6% na empregabilidade de psicólogos nos Estados Unidos na próxima década, puxada pela demanda por habilidades socioemocionais e saúde mental, área considerada menos exposta à automação que profissões mais mecânicas.

Sete anos, centenas de histórias

Ao longo da carreira, Sousa já orientou centenas de estudantes rumo ao ensino superior, no Brasil e no exterior. No último ciclo, alunos sob sua orientação somaram aprovações em mais de 15 universidades em diferentes países.

"A beleza do nosso trabalho é mergulhar e entender a individualidade de cada indivíduo", diz. Ele cita desde estudantes que superaram dificuldades de aprendizagem até outros que publicaram artigos acadêmicos ainda no ensino médio, hoje espalhados por cidades como San Diego, Amsterdã e São Paulo.

Para o orientador, o reconhecimento internacional não muda a essência do trabalho diário. "A jornada da educação pode ser cansativa, mas o reconhecimento junto ao processo de impacto que temos na história de cada estudante nos motiva a continuar", afirma.

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