Belmiro Gomes, CEO do Assaí: "Não conte apenas com os seus talentos. Esteja preparado para o inesperado” (Germano Lüders/Divulgação)
Repórter
Publicado em 22 de junho de 2026 às 17h00.
Última atualização em 22 de junho de 2026 às 17h34.
Antes de comandar uma empresa de R$ 84,7 bilhões, Belmiro Gomes já carregou sacos de algodão no interior do Paraná, vendeu sorvetes nas ruas, tentou ganhar a vida como engraxate e passou os dias correndo entre bancos e cartórios como office boy.
Nada disso fazia parte de um plano de carreira. Era uma questão de sobrevivência.
"Meu pai teve uma doença rara, e eu e a minha irmã tivemos que começar a trabalhar muito cedo", conta Belmiro que hoje é presidente do Assaí, em entrevista exclusiva ao De Frente com CEO, da EXAME.
Nascido em Santo André, em São Paulo, ele se mudou para Maringá aos 9 anos, depois que a doença do pai mudou completamente a vida da família. Foi ali que vieram os primeiros trabalhos.
Hoje, quatro décadas depois, Belmiro lidera uma companhia que emprega cerca de 90 mil pessoas e atende 40 milhões de clientes por mês. Mas a trajetória até a cadeira de CEO do Assaí passou por muito mais do que salas de reunião.
"Eu brinco que meu primeiro emprego me deu um carro e 20% de comissão. O problema é que eu precisava empurrar o carro de sorvete", diz, aos risos.
Em 1985, Belmiro conseguiu a primeira vaga registrada em carteira, como office boy.
Na época, a função era estratégica nas empresas. Era ele quem levava documentos aos bancos, pagava boletos e fazia serviços administrativos.
Mais tarde, trabalhou em uma rede de eletrodomésticos, em supermercados e descobriu uma nova paixão: tecnologia.
Quando a informática começava a chegar às empresas brasileiras, Belmiro aprendeu programação em Cobol e entrou no Atacadão em 1988 como programador.
A partir dali, passou por praticamente todas as áreas da companhia.
Foi digitador, trabalhou na área financeira, em vendas, compras, operação, chegou a gerente de loja e assumiu posições na diretoria.
"Nunca ache que sabe tudo. Sempre haverá algo novo para aprender."
Em 2007, o Atacadão foi vendido ao Carrefour. Belmiro permaneceu por mais três anos na companhia e, em 2010, recebeu o convite para assumir o Assaí. Na época, a empresa ainda dava prejuízo.
Em 2010, as perdas estavam próximas de R$ 70 milhões. Quando assumiu o comando, em fevereiro de 2011, a companhia faturava cerca de R$ 3 bilhões e tinha 6 mil funcionários.
Quinze anos depois, o cenário é outro.
O Assaí fatura R$ 84,7 bilhões, conta com aproximadamente 90 mil colaboradores e se tornou uma das maiores empresas do varejo brasileiro.
"O mundo não vai ser como a gente espera. A sobrevivência não é do mais forte nem do mais inteligente, mas de quem melhor se adapta às mudanças", afirma.
Ao ser questionado sobre quais características o ajudaram a sair dos trabalhos mais simples para a liderança de uma das maiores varejistas do país, Belmiro cita duas.
"A primeira delas é a resiliência. Eu não desistia no primeiro não, nem no segundo, nem no terceiro", afirma.
A segunda foi a curiosidade. "Sempre fui curioso por natureza", diz.
Mas, para ele, nenhuma habilidade foi tão importante quanto a capacidade de se conectar com as pessoas.
"A habilidade de comunicação e de falar com pessoas foi algo muito importante. E o fato de ter vindo de uma classe social mais baixa faz com que eu não perca essa capacidade de me conectar com as pessoas", afirma.
Em 2021, o Assaí decidiu fazer um grande investimento: comprar por R$ 7 bilhões 66 pontos do Extra. No entanto, o Assaí viu a Selic subir muito acima do cenário previsto (de 7% em 2021 para 15% em 2026).
Com esse cenário, o Assaí passou a conviver com uma conta de cerca de R$ 7 milhões por dia em despesas financeiras. Ao mesmo tempo, a companhia desacelerou investimentos para acelerar a redução da dívida e enfrentar um ambiente de consumo pressionado pelo endividamento das famílias.
Para Belmiro, o cenário reforça uma lição que carrega desde os tempos em que trabalhava como vendedor de sorvete e office boy: por mais que experiência e talento sejam importantes, o sucesso depende da capacidade de reagir aos imprevistos.
"Não conte apenas com os seus talentos. Esteja preparado para o inesperado. O mundo não vai ser como a gente espera. Se desistir no primeiro desafio, você não consegue se levantar para tentar novamente", afirma.
Ao longo da carreira, Belmiro colecionou uma filosofia simples.
"Aprender com quem já trilhou o caminho antes faz você ganhar tempo", diz."Nunca ache que sabe tudo. Sempre haverá algo novo para aprender", afirma.
E, diante das mudanças constantes do mercado, ele recorre a uma frase inspirada em Darwin.
"A sobrevivência não é do mais forte nem do mais inteligente, mas de quem melhor se adapta às mudanças", diz.
Hoje, com mais de 40 anos de carreira, o executivo ainda vê a trajetória pelo mesmo prisma que o acompanhou desde os tempos em que empurrava um carrinho de sorvete pelas ruas de Maringá.