(Flavio Moret)
Redação Exame
Publicado em 18 de agosto de 2026 às 16h14.
Última atualização em 18 de agosto de 2026 às 17h42.
Trocar a cadeira do escritório pela carteira de aula não é rotina para quem dirige uma instituição do porte do Sebrae.
Foi o que fez dirigentes estaduais de Mato Grosso do Sul, Distrito Federal e Alagoas, além de membros da Associação Brasileira dos Sebraes Estaduais (Abase), em um curso Incompany promovido pela Saint Paul, em São Paulo.
O treinamento tinha um recorte específico: as novas tendências do empreendedorismo brasileiro, com foco no papel das mulheres à frente de negócios.
A programação combina aulas expositivas, com professores de São Paulo, e rodas de conversa entre os próprios dirigentes. Uma delas, ministrada por José Cláudio Securato, CEO da Saint Paul, partiu de um território um pouco óbvio para uma turma de gestores: como a linguagem e os símbolos moldam a forma como a sociedade construiu sentido, discutindo como semiótica e o que ele chamou de "inefável", tudo isso para só então chegar ao papel histórico da mulher.
Enquanto a turma anotava em cadernos e cadernos, o próprio ambiente da aula reforçava o argumento: dirigentes de diferentes estados, reunidos na mesma sala , debatendo dados que, segundo os professores, ainda não chegam com a força devida às mesas de decisão do país.
“Eu falei muito sobre o papel da mulher ao longo da história, quais são as perspectivas e limitações colocadas para a mulher na sociedade e como agora, no mundo contemporâneo, ele é um mundo feminino, um mundo que valoriza as características femininas”, diz Securato.
A leitura de que esse avanço também tem peso econômico apareceu em outras falas do encontro. Para Anacleto Ângelo, presidente da Abase, o país vive um momento de transformações que passa pelo uso intensivo de inteligência artificial e pelo reconhecimento do peso das mulheres na geração de riqueza.
“É um tempo de muitas transformações: uso intensivo de inteligência artificial, o respeito e o despertar para a grande contribuição para a economia, de negócios criados, liderados e sustentados pelo protagonismo feminino”, afirma Ângelo.
Para dar peso à discussão, o curso apresentou um material chamado "O Raio-X do Empreendedorismo Feminino no Brasil", com dados da PNAD Contínua, do IBGE, e do próprio Sebrae. As mulheres são 51,8% da população brasileira , mas ocupam apenas 34,3% da titularidade dos negócios no país, um descompasso que os organizadores chamaram de "paradoxo da representatividade".
O acesso a crédito segue o mesmo padrão: entre empreendedoras de renda média e baixa, a lacuna em relação aos homens do mesmo grupo chega a 18 pontos percentuais ; entre negócios de baixa renda, sobe para 19 pontos .
Ainda assim, 10,4 milhões de mulheres à frente de negócios no Brasil parecem não ser materiais como uma força que segue crescendo apesar das barreiras.
Para além dos números, o curso funcionou como um espaço de troca entre gestores de diferentes estados. Cassiana Abritta, secretária-geral da Abase, destacou a diversidade de formatos que o empreendedorismo feminino assume pelo país. “É muito interessante a forma como o empreendedorismo feminino se manifesta em diversos segmentos, dentro de setores diferenciados e da economia”, diz Cassiana.
Já Rose Rainha, superintendente do Sebrae no Distrito Federal, resumiu o objetivo prático do treinamento: usar o entendimento sobre o ambiente de negócios liderado por mulheres para fortalecer a própria instituição. “Homens e mulheres entendendo esse ambiente de negócio feminino, entendendo as oportunidades do empreendedorismo feminino, para a gente fazer um Sebrae ainda mais forte”, diz Rose.
Luiz Aurélio, diretor superintendente interino do Sebrae no Mato Grosso do Sul, resumiu o impacto do curso no dia a dia de quem participou. "Isso me revelou uma exigência de mudança no perfil de como a gente vê hoje o empreendedorismo feminino. Estou muito satisfeito em fazer o curso, com muitas ideias para poder implementar no meu dia a dia", afirma Aurélio.
O encontro também passou por uma segunda aula, sobre os fundamentos da chamada nova economia: ecossistemas de inovação, disrupção digital e a pressão por adaptação constante que esses movimentos impõem a empresas de qualquer setor.