Do Banco Central ao Gympass, formação de funcionários é lição pós-pandemia

Empresas têm se movimentado para investir pesado na formação e requalificação de funcionários, o que já foi apontado como fundamental pelo Fórum Econômico Mundial
Priscila Siqueira, CEO do Gympass no Brasil: feedbacks dos clientes para avançar em novos negócios (Leandro Fonseca/Exame)
Priscila Siqueira, CEO do Gympass no Brasil: feedbacks dos clientes para avançar em novos negócios (Leandro Fonseca/Exame)
Por Victor Sena, Luísa Granato

Publicado em 19/09/2021 às 07:00.

Última atualização em 24/09/2021 às 11:20.

Com a chegada do último trimestre e perspectivas positivas para o controle da pandemia, a sensação começa a ser de virada de página no mundo dos negócios, principalmente para os que foram afetados negativamente.

Depois de quase dois anos em crise humanitária de saúde, diversas lições ficaram. Dois dos exemplos mais fortes foram quanto à gestão de pessoas à distância, remotamente, e quanto à saúde mental, tema que ganhou força nas organizações. Outro, porém, que é uma lição das boas lideranças para o pós-pandemia é a formação dos profissionais.

Empresas entenderam que não dá para colocar nas costas do funcionário, sozinho, os custos, responsabilidades e direções de seu aprendizado profissional.

O tema é tão forte que foi o termo lifelong learning (aprendizado ao longo da vida) foi indicado como pelo Fórum Econômico Mundial como uma habilidade para esta década.

Na edição deste mês da EXAME, listamos empresas que se destacaram em tomar atitudes concretos para formar profissionais.

Nos últimos meses, um anúncio que impactou os players de educação superior na cidade de São Paulo foi o anúncio da entrada do Banco BTG Bactual (do mesmo grupo que controla a EXAME) neste setor. O banco está construindo uma faculdade de tecnologia próxima à Universidade de São Paulo (USP).

Mas dentro da banco há também uma "universidade". O BTG criou em 2013 uma universidade corporativa online que já formou mais de 500 funcionários em 180 horas de aulas sobre temas do dia a dia do mercado financeiro, como o passo a passo para a abertura de capital de uma empresa, o chamado IPO, ou os cuidados típicos de um processo de fusão e aquisição. Os professores são os próprios sócios do banco.

Até então feito em salas do banco, em São Paulo, o curso foi digitalizado na pandemia. Com isso, ganhou escala. Só em 2021, mais de 300 alunos deverão receber seus diplomas.

O retorno do investimento pode ser medido pelo engajamento da turma. Em oito anos, perto de 100% dos alunos seguiram trabalhando no banco. Agora o próximo passo é criar conteúdo para funcionários já diplomados.

Outro "banco" que tem colhido bons resultados com apostas na formação de funcionários é o Banco Central do Brasil.

Na instituição, a fórmula para engajar os servidores em um cursos de inglês que dessem resultados combinou duas estratégias: o ensino remoto e um conteúdo dos que trouxesse tópicos específicos como condução de reuniões, apresentações e termos jurídicos e financeiros. Assim, a capacitação de idiomas do BC para seus funcionários têm obtido resultados positivos.

83% dos servidores que responderam à pesquisa do Banco Central sobre a capacitação disseram que houve melhora em seu desempenho como resultado da participação no curso.

Os servidores também dão exemplos de como o aprendizado do inglês impactou a melhora da produtividade. Eles utilizaram a nova língua principalmente para leitura, participação em reuniões e em eventos.

Os cursos de línguas que a instituição oferece fazem parte da Universidade Banco Central, que tem treinamentos para atender às necessidades de aprendizagem dos servidores.

Entre os cursos oferecidos pelo programa, existem aqueles mais técnicos – como política monetária e supervisão de instituições financeiras – e outras mais transversais, como línguas estrangeiras e de habilidades comportamentais. Os cursos de idiomas costumam ser oferecidos às áreas que o Banco Central percebe que mais têm lacunas de conhecimento das áreas ofertadas.

Outros dados do Banco Central também mostram que para 55% dos funcionários a utilização do inglês tem sido muito alta no dia a dia, enquanto 32% aplicam de forma moderada. Apenas 2% disseram que não tem utilizado a nova língua.

Dentro desta postura de incentivar o aprendizado de funcionários, o termo upskilling tem sido recorrente. Ele nada mais do que é a atualização. E ninguém melhor do que as empresas para mapear seus gaps e direcionar quais talentos precisam ser aperfeiçoados.

A diferença disso para a boa e velha reciclagem profissional é o fato de o upskill ter como foco as habilidades de empregos do futuro. Vide o exemplo da varejista Amazon, que em julho de 2019 anunciou 700 milhões de dólares para treinar 100.000 funcionários nos Estados Unidos sobre como interagir com robôs, criar algoritmos, e por aí vai.

O que antes da pandemia era um papo de futurista virou algo urgente para muitas empresas que, do dia para a noite, precisaram repensar o negócio do zero. Vide o caso da plataforma de serviços de bem-estar Gympass.

Criada em 2012 como um aplicativo para empresas custearem parte da mensalidade de academias de ginástica aos funcionários, o modelo de negócios desabou no começo do ano passado, com academias fechadas pelo risco de contágio e empresas cortando despesas para segurar o tranco da crise.

Em abril de 2020, na pior fase da pandemia, a administradora paulistana Priscila Siqueira foi promovida de vice-presidente de vendas a CEO do Gympass no Brasil com a missão de fazer o negócio sobreviver.

A saída foi fazer um upskilling às pressas considerando as três pontas: clientes, academias e funcionários. Dentro de casa, funcionários aprenderam a identificar as demandas de bem-estar essenciais na pandemia. Atualmente, o Gympass oferta mais de 60 serviços, como professores de ioga, psicólogos, nutricionistas e consultores para quem deseja parar de fumar.

Na ponta das academias, o time do Gympass passou a ensinar professores de educação física a dar aulas online sem correr o risco de ficar sem receber de alunos à distância — o time de TI estudou a fundo códigos para permitir esse tipo de pagamento dentro do app. Na dos clientes, foi preciso capacitar os funcionários do Gympass para servirem de consultores de bem-estar e, assim, tentar convencer as empresas de que a proposta de valor estava mais relevante do que nunca. Agora a empresa pode até dar dicas sobre como organizar o trabalho híbrido.

“Em abril do ano passado o produto estava no ar. Com muito feedback, os problemas foram se ajustando e temos muito a agradecer aos clientes”, diz Siqueira. Em 2020, o Gympass fechou 1.009 contratos no mundo — hoje são 3.000.

Em julho deste ano, um aporte de 220 milhões de dólares, liderado pelo japonês SoftBank, avaliou o Gympass em 2,2 bilhões de dólares. “A pandemia trouxe para a gente essa visão mais integral. E aí o tema do bem-estar passou a ser parte também integral de qualquer liderança”, diz Siqueira.