De vendedora de salgados aos Conselhos de Administração, empreendedora negra contrariou estatísticas

Se auto definindo como a “profissional do improvável”, Jandaraci Araujo criou o programa Conselheiras 101 para incentivar a presença de mulheres negras nos conselhos de empresas
Jandaraci Araujo: fundadora do Conselheiras 101 participou do evento Women in Finance (Fin4She/Divulgação)
Jandaraci Araujo: fundadora do Conselheiras 101 participou do evento Women in Finance (Fin4She/Divulgação)
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Beatriz CorreiaPublicado em 20/11/2022 às 08:00.

A profissional do improvável”. É assim que Jandaraci Araújo resume e define a trajetória da sua carreira. A fundadora do Conselheiras 101 (programa de incentivo à presença de mulheres negras em conselhos de administração) começou a trabalhar como vendedora de salgados nos trens do Rio de Janeiro para sustentar as duas filhas, até que, por um mix de acontecimentos inesperados, vontade e sabedoria para aproveitar as oportunidades, chegou aos conselhos de administração de grandes empresas. 

Mulher, preta, nordestina, retirante ruralista e mãe solteira, Jandaraci contrariou todas as estatísticas e números desses grupos aos quais pertence e já fez carreira no mercado financeiro. “Eu sou uma pessoa totalmente outlier, construí uma trajetória fora do padrão. Com todas as estatísticas e números não contribuíram para que eu chegasse nem próximo de onde eu estou”, disse Jandaraci durante o Women In Finance, evento organizado e promovido pela Fin4She (que pode ser assistido na íntegra e gratuitamente neste link). 

Mas, apesar de inspiradora, essa não é uma história feliz, porque ressalta a desigualdade entre homens e mulheres, entre pretos e brancos, além do preconceito contra nordestinos. Um levantamento feito pela consultoria Gestão Kairós mostrou que mulheres negras ocupam apenas 3% dos cargos de lideranças nas empresas. Enquanto isso, o Brasil é composto por 28% delas, segundo o IBGE. 

Em entrevista à EXAME, Jandaraci explicou que a maior barreira que mulheres negras enfrentam no meio corporativo é o preconceito. “Mesmo que elas tenham a formação necessária para o cargo, sempre tem algo a mais. Acontece que ninguém nasce C-Level, precisa de oportunidade. E isso não é visto para mulheres negras. É muito comum criar barreiras e novos mecanismos sutis para impedir que essas profissionais estejam nessas posições”, afirma. 

Durante o Women In Finance, a executiva contou sobre os preconceitos que já sofreu em sua trajetória profissional. “Durante muito tempo, disseram que meu cabelo não era legal, que usar o meu turbante ou ser quem eu era não era correto. Disseram que eu tinha que mudar a minha forma de falar, tirar o meu sotaque e me vestir de forma diferente para chegar em algum lugar. Mas eu nunca consegui tirar a minha cor, e isso é uma barreira real hoje”, compartilha. 

Atualmente, Jandaraci Araújo é Conselheira Independente de Administração no Instituto Inhontim e Instituto Tomie Otahke, também faz parte do Conselho do Capitalismo Consciente Brasil.  É co-fundadora do Conselheiras 101. Também é professora de Finanças Corporativas de pós-graduação e escritora.  Em 2021, recebeu o Prêmio Líderes do Brasil, pelo Lide Global, e, recentemente, foi reconhecida como Top Voice Linkedin na pauta de Equidade de Gênero. 

Mas a sua trajetória começou vendendo salgados nos trens do Rio de Janeiro para sustentar as filhas e pagar os estudos. “Me matriculei na faculdade em que eu vendia doces e salgados na frente e defini uma meta de vendas diária para pagar a mensalidade e as contas”, conta Jandaraci. E foi durante as vendas que surgiu a primeira oportunidade. “Um cliente que sempre comprava salgados, um dia me perguntou por que eu estava vendendo salgados e depois me ofereceu um emprego”. 

Rede de apoio 

Jandaraci reconhece que conseguiu mudar a sua realidade com base em três fatores principais: oportunidade, educação e rede de apoio. A executiva contou que ao mudar para o Rio de Janeiro, morou em um quintal com várias famílias, e que o apoio recebido dali foi definitivo em sua trajetória. “As mulheres de lá se ajudavam tanto, elas foram fundamentais para eu conseguir continuar estudando, me formar e trabalhar”, explica. 

Hoje, ela reserva parte de seu tempo para ajudar outras mulheres que precisam. “Eu me dedico a ajudá-las porque um dia eu fui ajudada. Eu faço não é por dinheiro, nem por protagonismo, é por propósito”, afirma. 

O Conselheiras 101 é um dos exemplos de iniciativas tocadas por Araujo. O programa foi criado no meio da pandemia com a perspectiva de abrir espaços para mulheres negras nos conselhos de administração de empresas. 

No projeto, algumas executivas são selecionadas através de processo seletivo e análise de currículo para participar de uma mentoria de preparação para conselhos de administração. Depois disso, o Conselheiras 101 divulga essas profissionais para as empresas.

Para a conselheira, as empresas podem se unir a instituições que promovem a liderança feminina, com programas específicos para alavancagem de mulheres negras em lideranças. “Isso ajuda a criar um ecossistema de engajamento e empoderamento para dar visibilidade a essas mulheres e é uma forma de garantir uma maior equidade no mercado”, afirma.

Outra iniciativa de apoio às mulheres é a 4She, plataforma lançada pela Fin4She. No site, executivas, empreendedoras e profissionais de qualquer área podem se cadastrar em um banco de currículos acessado por grandes empresas; conferir vagas e oportunidade; acessar cursos e conteúdos que promovem o desenvolvimento pessoal e profissional das mulheres, além de participar da comunidade criada na plataforma. A 4She é gratuita e pode ser acessada neste link

A executiva também esclarece como cada pessoa pode contribuir para esse ecossistema. “Quando você insere mais uma mulher negra no mercado, você está dando a oportunidade para ela iniciar a sua carreira. A responsabilidade de todas as mulheres em posição de liderança é mapear o quanto a sua gestão é equitativa e o que você está fazendo para garantir a diversidade nesse time”, explica Jandaraci

“Ser a profissional do improvável é para fazer com que o caminho de outras fique mais fácil. E o lugar em que queremos estar somos nós que definimos, ninguém deve dizer onde temos que parar”, afirma. 

A líder executiva finaliza questionando: “Eu sempre pergunto para as pessoas ‘tirando o CNPJ, qual é o legado que o seu CPF vai deixar no mundo?’”.