(Magnific/Reprodução)
Redatora
Publicado em 23 de setembro de 2026 às 15h12.
RESUMO | Dois terços dos conselheiros ouvidos pela Deloitte dizem que seus boards têm conhecimento limitado ou nulo em inteligência artificial. Nas empresas da Fortune 100, a menção a experiência em IA no perfil dos conselheiros subiu de 26% para 44% em um ano, segundo a EY. Para executivas que buscam o primeiro assento, dominar governança de IA pode ser o diferencial em um mercado de conselhos mais disputado.
A inteligência artificial chegou às reuniões de conselho antes de chegar ao repertório de quem senta à mesa. Em 2025, a Deloitte ouviu 695 conselheiros e executivos em 56 países. Dois terços (66%) disseram que seus boards têm "conhecimento ou experiência limitados ou nulos" em IA, segundo o levantamento Governance of AI.
O número já foi pior: na edição anterior da pesquisa, eram 79%. A distância continua grande, porque a tecnologia avança mais rápido do que os conselhos. Segundo a McKinsey, 88% das empresas já usam IA em pelo menos uma área do negócio.
Para executivas que se preparam para o primeiro assento, essa diferença pode abrir espaço. A IA virou um tema de governança, e quem sabe fazer as perguntas certas sobre ela é cada vez mais procurado.
Em apenas um ano, a tecnologia deixou de ser assunto de apresentações pontuais e virou tema recorrente do board. Na pesquisa da Deloitte, a parcela de conselhos que nunca discutiu IA caiu de 45% para 31%. Mesmo assim, só 17% tratam do tema em todas as reuniões.
A mudança também aparece nos documentos das maiores empresas americanas. A EY analisou os relatórios de 80 companhias da Fortune 100. Em 2025, 48% citaram a IA entre os riscos supervisionados pelo conselho, contra 16% no ano anterior. As empresas que atribuem a supervisão de IA a pelo menos um comitê passaram de 11% para 40%.
Nos Estados Unidos, a Associação Nacional de Conselheiros (NACD) chegou a conclusão parecida. Mais de 62% dos conselheiros ouvidos já reservam tempo da pauta para discutir IA. O principal obstáculo citado por eles é a incerteza sobre o retorno do investimento.
A mudança também chega a quem é escolhido para as cadeiras. No levantamento da EY, a menção a experiência em IA nas biografias e nas matrizes de competências dos conselheiros subiu de 26% para 44% em um ano.
Dentro do conselho, esse conhecimento não é exigido só de quem vem da tecnologia. As conselheiras precisam entender IA o bastante para avaliar três coisas: se a estratégia apresentada pela diretoria faz sentido, se os riscos foram medidos e se o investimento tem chance de retorno.
O MIT tem uma pesquisa sobre isso desde 2019. Naquele ano, o Centro de Pesquisa em Sistemas de Informação (CISR) mostrou que empresas com boards "digitalmente fluentes" (com pelo menos três conselheiros com experiência em tecnologia) tinham crescimento de receita 38% maior e retorno sobre ativos 34% superior ao de seus pares.
A atualização do estudo mostra por que o tema ficou urgente. Em 2024, o MIT repetiu a análise com 2.800 empresas de capital aberto e 72% já tinham boards digitalmente fluentes, contra 24% em 2019. Com isso, a vantagem de desempenho desapareceu. O conhecimento digital virou pré-requisito.
Os pesquisadores então subiram a régua e incluíram IA generativa, agentes de IA e outras tecnologias emergentes. Só 26% das empresas passam no novo critério, e são elas que agora superam os concorrentes.
O mercado de conselhos, por outro lado, está mais fechado. Segundo o Spencer Stuart Board Index, divulgado nesta semana, só 24% dos novos conselheiros das empresas do S&P 500 estão no primeiro assento. Um ano antes, eram 31%. Os boards têm preferido executivos com trajetória comprovada.
Quem quer entrar precisa chegar com algo que o conselho ainda não tem. A Deloitte mostra que 59% dos conselheiros tentam aprender IA por conta própria e que menos da metade dos boards (48%) oferece treinamento formal no tema. Uma candidata que já domina governança de dados e de IA preenche uma lacuna que o próprio conselho reconhece.
Com esse cenário, a Saint Paul incluiu no Advanced Boardroom Program for Women (ABP-W) módulos sobre organizações data-driven, inteligência artificial e os dilemas da transformação digital.
O programa é voltado a executivas C-level, diretoras e herdeiras e tem simulações de reuniões de conselho com casos reais. A nova turma começa em 24 de setembro, na unidade Jardins, em São Paulo.
A IA não vai substituir o julgamento de um conselho. Na próxima reunião, porém, alguém à mesa vai precisar saber o que perguntar sobre ela.
O ABP-W (Advanced Boardroom Program for Women) é o programa da Saint Paul que prepara conselheiras e futuras conselheiras para atuar em boards. A formação desenvolve competências técnicas e comportamentais, com atenção a novos modelos de negócios e tecnologias emergentes.
O programa é exclusivo para mulheres e voltado a executivas C-level, diretoras e herdeiras. O público inclui quem busca uma cadeira em conselho de administração e quem quer uma relação mais estratégica com o board da própria empresa.
Sim. A grade inclui os módulos "Organizações Data-Driven e Inteligência Artificial" e "Transformação digital e seus dilemas: competitividade, segurança e inovação". O programa também trata de governança corporativa, gestão integrada de riscos e ética organizacional com foco em proteção de dados.
São 300 horas de formação, com aulas mensais às sextas-feiras, das 8h às 18h. As aulas são presenciais na unidade Jardins, em São Paulo, com transmissão ao vivo online e acesso às gravações. A formação inclui simulações de reuniões de conselho com casos reais e um módulo internacional opcional na Smith School of Business, em Toronto.
A diretora do programa é Christiane Aché, fundadora e CEO da JUA Consultoria. Ela já atuou como conselheira de empresas, institutos e associações e foi diretora de Project & Export Finance da Alstom e da GE Renewables.
A seleção começa pela aplicação com currículo e LinkedIn, seguida de avaliação curricular pelo comitê acadêmico da Saint Paul. Depois vem uma entrevista individual com Christiane Aché, e o resultado sai por e-mail em até sete dias. É preciso ter ensino superior completo e inglês para compreensão oral, escrita e interação.