Renata Sigilião, diretora de RH da Pierre Fabre, farmacêutica francesa no Brasil
Jornalista
Publicado em 22 de julho de 2026 às 15h27.
A escada corporativa no Brasil costuma ficar mais estreita a cada degrau. As mulheres entram no mercado de trabalho em número parecido ao dos homens, mas, na hora de nomear diretores e gerentes, a proporção feminina não passa de 40% há mais de uma década, segundo boletim do Ministério do Trabalho e Emprego. No último degrau, o afunilamento vira gargalo: apenas 5,2% dos CEOs do país são mulheres, aponta levantamento do Evermonte Institute.
Mas esse gargalo não existe na Pierre Fabre. A farmacêutica francesa, com mais de 30 anos de operação no Brasil, tem um comitê executivo formado por 63% de mulheres, quase o dobro do topo do mercado nacional. Elas também são maioria no quadro geral: 62% dos cerca de 450 funcionários no país.
Um número desses não sobrevive sozinho: ele precisa de alguém que o defenda todos os dias. E é isso que faz Renata Sigilião, diretora de RH da farmacêutica, que assumiu o cargo há dois anos, pouco depois de voltar da própria licença-maternidade. “Nós não romantizamos [o equilíbrio entre carreira e maternidade], é sempre muito desafiador”, diz a executiva.
É talvez por isso que Sigilião trata a equidade não só como discurso, mas como parte da rotina. Duas vezes por ano, quando a empresa faz a revisão salarial e decide quem recebe aumento, ela compara duas proporções: quantas mulheres existem no quadro geral e quantas mulheres estão entre as pessoas reconhecidas naquele ciclo. Se 60% da empresa é formada por mulheres, mas menos de 60% dos aumentos vão para elas, o número acende um alerta.
O mesmo filtro reaparece antes da contratação, em um momento em que a decisão ainda nem chegou ao RH. Toda vaga aberta, conta a diretora, chega ao gestor responsável com uma lista de candidatos que inclui, obrigatoriamente, ao menos um homem e uma mulher. “Se eu mando pro gestor três homens, naturalmente ele vai escolher um homem”, resume Sigilião.
Esses dois filtros existem para evitar um problema recorrente: mulheres que voltam da licença-maternidade e, pouco tempo depois, perdem o emprego. Entre 2020 e 2025, mais de 383 mil mulheres foram demitidas sem justa causa no Brasil dentro dos dois anos seguintes ao fim da licença, segundo dados da Secretaria de Inspeção do Trabalho, do Ministério do Trabalho e Emprego.
É esse número que a Pierre Fabre acompanha de perto para não deixar acontecer. E os dados sugerem que está funcionando: hoje, mulheres têm mais tempo de casa do que homens em todas as unidades da empresa no Brasil.
Nem tudo, porém, é mecanismo. Sigilião reconhece que parte do resultado vem do próprio negócio: com marcas como Avène, Darrow e Ducray, a Pierre Fabre atende um público majoritariamente feminino, o que naturalmente atrai mulheres para dentro de casa também. Mas o motivo vai além disso.
“Isso não é uma iniciativa de RH, é uma prioridade de negócio. Sem a adesão da alta liderança, as iniciativas acabam sendo muito pontuais e se esvaziam com o tempo”, explica.
É por isso que o desafio agora, segundo ela, não é crescer, mas não deixar a régua descer, especialmente em um mercado no qual a maioria das empresas ainda tropeça no mesmo ponto em que a Pierre Fabre decidiu não tropeçar.