(RossHelen/Getty Images)
Redatora
Publicado em 9 de fevereiro de 2026 às 10h19.
Última atualização em 10 de fevereiro de 2026 às 13h34.
Em um mercado onde o pacote de benefícios ainda costuma caber em um cartão de vale-refeição e em um contrato de plano de saúde, uma farmacêutica mineira decidiu ampliar o vocabulário do cuidado corporativo.
Na MedQuímica, empresa do grupo indiano Lupin, aulas de yoga, rodas de conversa com psiquiatras, acesso ilimitado a psicólogos e encontros informais entre RH e chão de fábrica fazem parte da rotina — não como exceção, mas como prática institucional.
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) alertam que depressão e ansiedade causam perda de 12 bilhões de dias úteis anuais globalmente (US$ 1 trilhão em produtividade perdida). Por isso, as iniciativas não nasceram para apagar incêndios ou responder a uma crise específica. Elas fazem parte de uma estratégia mais ampla, que trata saúde mental não como benefício, mas como ativo organizacional e pilar de gestão.
O ponto de partida foi a escuta ativa. Em agosto de 2025, uma pesquisa interna sobre riscos psicossociais revelou indicadores acima de 70% em diferentes dimensões ligadas ao bem-estar. O dado, reforçou uma prática já em curso: medir, ajustar e investir.
Em janeiro de 2026, a companhia repetiu a pesquisa, desta vez certificada pelo Great Place to Work (GPTW), e recebeu pela primeira vez a certificação global, que é válida apenas quando todas as operações do grupo atingem os mínimos exigidos em cada país. No Brasil, o patamar é de 70%. O índice de orgulho em pertencer alcançou 85%, nível considerado “best in class”.
Escritório da Med Química em Minas Gerais. (Divulgação/MedQuimica)
A resposta da farmacêutica não se concentrou em ações pontuais. Um dos pilares é o treinamento de lideranças.
A orientação interna é clara: antes de falar sobre tarefas ou metas, líderes devem perguntar como o time está.
Na prática, isso se traduz em reuniões curtas e frequentes, adaptadas à realidade de cada área, e na criação de espaços para conversas individuais.
“Nem sempre a pessoa verbaliza que não está bem. O papel do líder é perceber e abrir a conversa”, relata Roberta Carlini, diretora de Pessoas & Futuro da MedQuímica.
A partir do novo ano fiscal, que começa em abril na empresa, a MedQuímica ampliará ainda mais a estrutura.
Psicólogos e nutricionistas passarão a atender presencialmente, sem custo para os funcionários. O plano de saúde já oferece sessões ilimitadas de psicoterapia, com reembolso integral quando necessário, além de acesso a plataformas de atendimento remoto.
Há também suporte emergencial para situações de crise, acionado diretamente no ambiente de trabalho.
“Não é um benefício isolado. É uma rede”, explica.
As aulas de Yoga, inicialmente vistas como uma aposta cultural ligada à origem indiana do grupo Lupin, tiveram adesão acima do esperado. As vagas se esgotaram rapidamente e colaboradores passaram a pedir novas edições.
Mais do que relaxamento físico, a prática criou momentos de convivência fora da lógica produtiva. “Ali ninguém fala de trabalho. É conexão, descontração e pausa mental. Parece simples, mas o impacto é grande”, relata a empresa.
Para Lara Bezerra, especialista em carreira e liderança, ex-CEO da Bayer e da Roche em diferentes países, o erro mais comum das empresas é tratar bem-estar como pacote de benefícios, sem revisar a forma de liderar.
“O burnout não é um problema individual. A Organização Mundial da Saúde define como resultado de uma má gestão do trabalho”, afirma.
Na avaliação da executiva, líderes têm papel central na prevenção do burnout porque influenciam diretamente a capacidade cognitiva, a criatividade e até a saúde física dos times.
“Quando as pessoas estão em modo de sobrevivência, o cérebro fecha. Não há inovação, nem boa tomada de decisão.”

Lara Bezerra, especialista em carreira e liderança, ex-CEO da Bayer e da Roche
Antes mesmo da pressão regulatória da NR-1, a MedQuímica já tratava saúde mental como parte da estratégia. Não como discurso, mas como prática incorporada à rotina, às lideranças e às decisões de investimento.
Em um cenário de aumento dos casos de burnout e de revisão das expectativas profissionais no pós-pandemia, o movimento da farmacêutica mineira sinaliza uma mudança mais profunda: cuidar das pessoas deixou de ser apenas uma pauta de RH e passou a ser um tema central de competitividade e sustentabilidade organizacional.