Carreira

As lições de carreira de André Agassi, ex-tenista que chegou ao número um do mundo

Em painel na NRA Show, o ex-tenista falou sobre burnout e liderança

Isabela Rovaroto
Isabela Rovaroto

Repórter de Negócios

Publicado em 17 de maio de 2026 às 19h45.

Chicago, EUA* — A NRA Show, maior feira de food service do mundo, costuma reunir executivos de restaurantes, redes globais e fornecedores da indústria. Mas um dos painéis mais concorridos desta edição, em Chicago, foi sobre carreira, pressão e propósito.

O convidado foi Andre Agassi, ex-número um do mundo e um dos nomes mais conhecidos da história do tênis. Dono de oito títulos de Grand Slam, Agassi construiu uma trajetória marcada por extremos: estrelato precoce, crises pessoais, queda para a posição 141 do ranking mundial e um retorno improvável ao topo do esporte.

A conversa chamou atenção ao tocar em temas cada vez mais presentes no mundo corporativo: burnout, cobrança por performance, construção de equipes, vulnerabilidade e busca por significado no trabalho. Em vez de repetir fórmulas de autoajuda comuns em eventos de liderança, Agassi expôs fragilidades.

“Vulnerabilidade é essencial para crescer”, afirma Agassi. “Você precisa ser objetivo sobre si mesmo. Entender seus pontos fortes, mas também reconhecer suas limitações.”

Hoje, aos 56 anos, o ex-tenista divide sua atuação entre negócios, projetos sociais e iniciativas ligadas à educação. Parte importante da sua energia está concentrada na rede de escolas charter criada por ele nos Estados Unidos, que hoje soma mais de 130 unidades em regiões de baixa renda. É esse trabalho, diz, que redefiniu sua relação com sucesso.

Quando sucesso e propósito não caminham juntos

Uma das falas mais fortes do painel aconteceu quando Agassi voltou a falar sobre algo que já havia revelado em sua autobiografia: durante anos, odiou o tênis.

A relação conflituosa começou cedo. Filho de um ex-boxeador iraniano, ele cresceu sob uma rotina intensa de treinamentos — segundo a autobiografia, o pai o fazia bater milhares de bolas por dia ainda criança.

“Eu passei a vida tentando vencer para sair do lugar onde eu estava”, diz.

O problema, segundo ele, é que o esporte assumiu um peso desproporcional dentro da família. O desempenho nas quadras passou a determinar humor, relações pessoais e até a percepção de valor dentro de casa.

Aos 13 anos, Agassi foi enviado para uma academia de tênis na Flórida. O ambiente, afirma, reforçou a lógica de que sua vida seria definida exclusivamente pelos resultados nas quadra.

Mesmo quando chegou ao topo do ranking mundial, aos 24 anos, a sensação de vazio permaneceu.
“Eu achei que ser número um resolveria tudo, mas não resolveu.”

A queda para o 141º lugar

A crise veio pouco depois. Problemas físicos, conflitos pessoais e falta de motivação fizeram Agassi despencar no ranking mundial até a 141ª posição.

Segundo ele, a surpresa foi maior para o público do que para si mesmo.

“Todo mundo ficou surpreso. Menos eu. Eu sabia exatamente o que estava acontecendo.”

Foi nesse período que aconteceu a principal virada da sua trajetória. Agassi diz que percebeu que nunca havia realmente escolhido o tênis por vontade própria. O esporte sempre foi uma imposição externa.

“Pela primeira vez, eu escolhi o tênis”, afirma.

Agassi contou que precisou reconstruir a carreira praticamente do zero. Voltou a jogar torneios menores, treinou longe dos holofotes e passou a olhar para o trabalho de outra maneira.

“Não era mais sobre provar algo para os outros. Era sobre descobrir se eu conseguia ser melhor do que no dia anterior.”

As melhores carreiras são construídas por equipes

Outro eixo importante da conversa foi liderança e formação de equipes.

Agassi passou boa parte do painel defendendo uma ideia pouco associada ao esporte individual: ninguém chega longe sozinho. Segundo ele, o principal desafio de profissionais de alta performance é encontrar pessoas que consigam preencher suas lacunas e ter humildade suficiente para ouvi-las.

“Vulnerabilidade é crucial para crescer”, afirma. “Precisa ter objetividade sobre quem você é.”

O ex-tenista também fez uma reflexão sobre liderança que encontrou eco entre executivos presentes na NRA.

“O pior erro é dar responsabilidade sem autoridade ou autoridade sem responsabilidade.”

A lógica, segundo ele, vale para qualquer organização. Equipes funcionam melhor quando existe clareza de papel, autonomia e accountability, responsabilização individual sobre resultados.

Alta performance nasce da repetição dos detalhes
Embora o painel acontecesse dentro da NRA Show, Agassi conseguiu conectar esporte e restaurantes de forma recorrente.

Ele afirmou admirar a obsessão operacional do setor de food service, especialmente em restaurantes de alto padrão. Segundo ele, excelência raramente nasce de momentos extraordinários. Nasce da repetição.

“Os melhores tratam todos os momentos com a mesma importância”, diz.

A fala surgiu enquanto comentava conversas que teve com chefs e operadores de restaurantes sobre consistência. Para Agassi, pressão costuma ser consequência de falta de preparação.

“Quando você domina os detalhes, para de enxergar momentos de pressão como algo diferente.”

O raciocínio lembra uma discussão cada vez mais presente em empresas de tecnologia, varejo e serviços: processos bem estruturados reduzem dependência de improviso e tornam operações mais resilientes.

Agassi também falou sobre sua obsessão por detalhes desde a época de jogador. Disse que treinava não apenas movimentos técnicos, mas também reações emocionais durante partidas importantes.

“Você precisa aprender a controlar sua cabeça, seu coração e suas emoções ao mesmo tempo.”
O propósito que redefiniu sua relação com o trabalho

A mudança fora das quadras

Durante o período mais difícil da carreira, Agassi começou a se envolver com projetos ligados à educação infantil em comunidades vulneráveis nos Estados Unidos.

A iniciativa cresceu e acabou se transformando em uma rede de escolas.

Segundo ele, foi a primeira vez que encontrou algo maior do que o próprio ego.

“Quando você começa a pensar nos outros, começa a desaparecer. E talvez esteja fazendo algo certo.”

A frase resume uma mudança importante no discurso de liderança dos últimos anos. Depois de décadas dominadas pela lógica da hiperperformance individual, executivos passaram a discutir propósito, impacto e legado com mais frequência.

Agassi diz que foi justamente essa mudança de perspectiva que prolongou sua carreira no tênis.
“Não era mais sobre dor. Era sobre amor.”

A frase arrancou aplausos no auditório da NRA. Mas o ponto principal da fala talvez seja outro: a carreira dele só ganhou sustentabilidade quando deixou de ser movida exclusivamente por resultado.

No fim do painel, Agassi resumiu a própria trajetória de forma simples. Alta performance, segundo ele, não nasce apenas de talento. Nasce da capacidade de enfrentar desconfortos, aceitar ajuda e reconstruir a própria identidade ao longo do caminho.

*A repórter viajou a convite da Galunion

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