Carreira

Antes de começar um novo ciclo de carreira, aprenda a encerrar o anterior

Disponibilidade imediata pode impressionar numa entrevista, mas também revelar como o profissional lida com compromissos e o fim de um ciclo

Como aproveitar bem os últimos dias do ano? (Thinkstock/tadamichi)

Como aproveitar bem os últimos dias do ano? (Thinkstock/tadamichi)

Da Redação
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Redação Exame

Publicado em 8 de julho de 2026 às 11h17.

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Por Rogério Chér*

Existe uma pergunta em entrevistas de emprego que parece burocrática, quase automática.

“Se aprovarmos você nesse processo, quando poderia começar?”

Existe uma resposta que muita gente acredita ser perfeita:

“De imediato.”

Quando escuto isso de alguém que está desempregado, em transição de carreira ou encerrando legitimamente um ciclo profissional, a resposta soa ótima. Ela transmite prontidão, disponibilidade, vontade de trabalhar. É exatamente o que se espera ouvir.

Mas o cenário muda quando essa resposta vem de alguém que está empregado, recebendo salário de outra organização, conduzindo projetos, liderando pessoas e ainda ocupando uma cadeira que depende da sua responsabilidade.

Nessas horas, isso me incomoda. Não pela mudança em si. Mudar faz parte da vida profissional. Crescer também. Buscar novos desafios é legítimo e saudável. O desconforto nasce da maneira como algumas pessoas parecem tratar os próprios vínculos profissionais como descartáveis.

Sempre que um candidato me diz que pode começar “amanhã”, uma pergunta bate na minha cabeça: foi assim também que ele decidiu encerrar sua história anterior antes de estar onde trabalha hoje?

Superficialidade nos vínculos

Talvez muita gente nunca tenha parado para pensar nisso, mas a resposta sobre disponibilidade imediata pode comunicar algo diferente do entusiasmo que o candidato gostaria de transmitir.

Pode passar a sensação de superficialidade nos vínculos. Pode sugerir fragilidade no compromisso, revelar uma lógica utilitarista de carreira. Pode indicar alguém que troca relações rapidamente sem elaborar fechamentos minimamente responsáveis.

E veja: quase nunca estou diante de alguém antiético, desonesto ou mal-intencionado. Na maioria das vezes, trata-se apenas de empolgação e desatenção imatura. A pessoa gostou da vaga, da cultura, da liderança, do desafio e da perspectiva de crescimento.

Movida pela ansiedade positiva da mudança, tenta demonstrar máximo interesse oferecendo disponibilidade total e imediata.

Só que, paradoxalmente, isso pode produzir o efeito contrário.

Maturidade profissional não aparece apenas na maneira como alguém começa histórias. Aparece, principalmente, na forma como alguém termina histórias. E nós somos muito ruins em términos.

Terminamos relações afetivas de maneira precária. Terminamos amizades ou sociedades de maneira precária. Terminamos ciclos de carreira de modo inadequado.

A vida inteira fomos treinados para conquistar, avançar, acelerar, crescer, performar e acumular realizações. Quase ninguém nos ensinou a encerrar ciclos com dignidade. Você teve essa aula na faculdade? Eu não!

Sinceramente, não me lembro de ensinamentos sobre como fazer términos. E fazer términos é uma competência. Talvez uma das competências emocionais mais negligenciadas da vida adulta.

Existe uma ilusão contemporânea de que a carreira se resume a uma sequência de começos. Mas ciclos saudáveis começam justamente pelos fechamentos bem feitos.

A gente começa terminando!

Sempre achei curioso observar profissionais tratando mudanças de emprego como quem troca de aplicativo no celular. Surge uma oportunidade mais interessante e tudo aquilo que existia antes parece perder instantaneamente qualquer valor emocional ou moral.

Só que empresas não são compostas apenas de contratos. São compostas de pessoas. Pessoas que confiaram, ensinaram, investiram, deram oportunidades, dividiram pressão, estiveram presentes em momentos difíceis. Gente que apostou no crescimento daquele profissional.

Existe algo muito elegante em alguém que diz numa entrevista:

“Estou muito motivado com essa oportunidade. Mas preciso de algumas semanas para concluir corretamente meu ciclo atual, organizar minhas entregas e realizar uma transição responsável.”

Isso não enfraquece um candidato. Isso fortalece.

Líderes experientes percebem imediatamente a diferença entre alguém apenas seduzido pela novidade e alguém capaz de sustentar compromissos até o fim.

Existe, aliás, uma diferença importante entre brilho e confiabilidade. Brilho impressiona, mas confiabilidade tranquiliza.

E organizações saudáveis valorizam profundamente pessoas confiáveis.

Talvez o maior problema contemporâneo seja a lógica do descarte rápido. Tudo ficou fluido demais. Relações, promessas, vínculos, permanências e lealdades parecem cada vez mais frágeis.

Muita gente quer viver apenas a parte emocionante dos começos. Pouca gente quer assumir a responsabilidade emocional dos encerramentos.

Só que a maneira como alguém sai de um lugar costuma dizer muito mais sobre seu caráter do que a maneira como entra.

Talvez por isso a resposta mais madura para a pergunta “quando você pode começar?” não seja “amanhã”.

Talvez seja:

“Assim que eu encerrar corretamente o ciclo que ainda tenho a responsabilidade de honrar.”

*Rogério Chér é sócio fundador da Winx e da Devello

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