Dominando habilidades no campo da tecnologia (hackNY/Flickr)
Redatora
Publicado em 14 de julho de 2026 às 15h00.
O Brasil vive um paradoxo no mercado de tecnologia. Enquanto a inteligência artificial acelera projetos e amplia a demanda por profissionais especializados, 98% das médias e grandes empresas afirmam ter dificuldade para encontrar talentos qualificados.
A escassez não se limita ao domínio técnico: mais de um terço das organizações rejeita candidatos aptos para a função por falta de habilidades comportamentais.
Os dados fazem parte da pesquisa “Mercado de Trabalho Tech: Raio-X e Tendências”, realizada pela Ford em parceria com o Datafolha. O levantamento ouviu 250 líderes de Recursos Humanos e Tecnologia da Informação responsáveis por contratações em empresas de diferentes regiões e setores, como finanças, saúde, educação, varejo e serviços.
O resultado expõe um gargalo com efeitos diretos sobre os negócios. Quando uma vaga estratégica permanece aberta por meses, projetos atrasam, equipes ficam sobrecarregadas e a capacidade de inovar diminui.
O desafio das empresas, portanto, não está apenas em atrair mais currículos, mas em construir novas formas de identificar, desenvolver e contratar potencial.
Para 72% das empresas consultadas, a falta de conhecimento técnico está entre os maiores obstáculos para contratar. A ausência de experiência aparece logo depois, mencionada por 54% dos entrevistados.
Entre os cargos mais difíceis de preencher estão os de especialistas em inteligência artificial, citados por 35% das empresas, e engenheiros de software, por 31%. Segurança da Informação, com 30%, e Inteligência Artificial e Machine Learning, com 29%, lideram a lista dos conhecimentos mais escassos.
Essa combinação prolonga os processos seletivos. Apenas 14% das organizações conseguem concluir uma contratação em menos de um mês. Metade leva entre um e dois meses, enquanto 25% demora de dois a três meses. Para 11%, a busca ultrapassa quatro meses.
A dificuldade convive com uma demanda aquecida. Outra pesquisa divulgada em junho de 2026 indicou que 52% das empresas brasileiras pretendiam ampliar seus quadros no terceiro trimestre, com o setor de informação — que reúne tecnologia, comunicação e mídia — à frente das intenções de contratação.
A formação técnica, porém, não encerra o problema. Segundo o estudo da Ford e do Datafolha, 37% das empresas frequentemente ou sempre rejeitam profissionais tecnicamente aptos por falta de competências comportamentais.
Inteligência emocional é a habilidade mais difícil de encontrar, citada por 36% das organizações. Pensamento crítico e capacidade de resolver problemas aparecem em seguida, com 33%.
Os números indicam que saber programar, analisar dados ou operar novas ferramentas não garante uma contratação. As empresas também procuram profissionais capazes de trabalhar sob pressão, colaborar com diferentes áreas, lidar com mudanças e tomar decisões diante de problemas que não possuem respostas prontas.
Essa exigência tende a aumentar. Para os próximos dois anos, 50% dos entrevistados acreditam que as habilidades comportamentais serão ainda mais difíceis de encontrar do que as técnicas, mencionadas por 44%. A inteligência artificial, citada por 46%, deverá ser o principal motor de transformação do setor.
Quando quase todas as empresas disputam um grupo restrito de profissionais, insistir nos mesmos canais, critérios e perfis tende a aprofundar o problema. O LinkedIn já é a principal ferramenta de recrutamento para 60% das organizações ouvidas, o que mostra o peso das plataformas digitais na busca por talentos.
A concentração nesses ambientes, contudo, pode fazer com que empresas concorram repetidamente pelas mesmas pessoas. Para ampliar o alcance, organizações precisam olhar para universitários, recém-formados e profissionais em transição que ainda não acumulam anos de experiência, mas demonstram capacidade de aprender, executar e crescer.
O desafio é avaliar potencial sem reduzir a seleção ao histórico profissional. Projetos acadêmicos, atividades voluntárias, desafios de negócios e experiências extracurriculares podem revelar pensamento crítico, protagonismo, comunicação e habilidade para resolver problemas.
A diversidade também permanece como uma lacuna. O levantamento mostra que 93% das empresas têm dificuldade para encontrar candidatos de grupos sub-representados. O dado reforça a necessidade de construir canais de acesso mais amplos e processos capazes de reconhecer trajetórias que não seguem o padrão tradicional.
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