NR-1 e líderes ( Dmytro Zinkevych/Shutterstock)
Redatora
Publicado em 18 de agosto de 2026 às 17h26.
Metade dos líderes ouvidos pelo Fórum Econômico Mundial para o Relatório de Riscos Globais 2026 espera um mundo turbulento ou tempestuoso nos próximos dois anos, salto de 14 pontos percentuais em relação ao ano anterior. Olhando dez anos à frente, o número sobe para 57% — apenas 1% acredita em um cenário de calmaria.
O levantamento ouviu mais de 11 mil executivos em 116 países, além de 1.300 especialistas de governos, academia e organismos internacionais, e chega a uma conclusão que o próprio relatório resume num termo: o mundo entrou numa "era da competição", marcada por fragmentação geopolítica e disputas econômicas que se sobrepõem em vez de se resolver.
Para quem ocupa cadeiras de decisão, o dado importa menos como previsão e mais como sintoma. O tipo de problema que chega às mesas de conselho hoje é estruturalmente diferente do que chegava há uma década, e a ferramenta usada para decidir nem sempre acompanhou essa mudança.
Parte da confusão começa numa distinção que a teoria da gestão vem repetindo há anos sem que a prática corporativa a tenha incorporado de fato: problemas complicados têm solução técnica, exigem know-how, mas são resolvíveis com o processo certo — problemas complexos não, uma vez que eles envolvem variáveis que interagem entre si de forma não linear, mudam de comportamento conforme são observados e raramente têm uma resposta única e replicável.
Consertar uma turbina de avião é complicado. Prever o efeito de uma nova tarifa comercial sobre a cadeia de fornecedores de uma empresa é complexo, porque depende de decisões de terceiros, câmbio, política e reação de mercado, variáveis que não obedecem a manual.
O Relatório de Riscos Globais 2026 lista justamente esse tipo de risco, como confronto geoeconômico, desinformação e instabilidade de dívida, no topo das preocupações de curto prazo, movendo posições de forma abrupta em relação ao ano anterior.
O erro mais comum de quem lidera em ambiente complexo é aplicar lógica de problema complicado a um cenário que não se comporta assim: buscar a resposta certa, seguir o playbook, esperar que o histórico se repita. Funciona até parar de funcionar, geralmente no pior momento possível.
O que ambientes complexos exigem não é mais dado, é mais repertório. Isso inclui a capacidade de tolerar ambiguidade sem paralisar, de testar hipóteses em pequena escala antes de comprometer recursos, e de reconhecer os primeiros sinais de mudança antes que virem manchete.
Nenhuma dessas competências aparece em planilha de KPI, o que ajuda a explicar por que tanto conselho de administração ainda é pego de surpresa por rupturas que, olhando em retrospecto, já davam sinais havia meses.
A resposta que vem ganhando espaço entre especialistas em governança não é concentrar mais poder de decisão no topo da hierarquia, e sim distribuí-lo. Em ambientes complexos, quem está mais perto da informação, um gerente regional, um time de produto, um conselheiro com repertório setorial diferente, frequentemente enxerga o sinal de mudança antes de quem está isolado no centro de comando.
Liderar deixa de ser sinônimo de controlar tudo e passa a significar construir confiança suficiente para decidir em rede.
Essa mudança de postura é justamente o que programas de formação voltados a CEOs, conselheiros e acionistas, como o SEER, da Saint Paul Escola de Negócios, vêm tentando endereçar: não ensinar mais uma metodologia, mas ampliar o repertório de quem já decide sob pressão, todos os dias, com informação incompleta.
Se o mundo mudou de natureza, a pergunta que resta não é mais qual é a resposta certa, mas quem está preparado para reconhecer que essa pergunta, por si só, já mudou.