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Por Dandara Coêlho*

Palavra, palavra, palavra;

Mas se não Vibro de acordo, o que sai da minha boca,

Voz ou Vômito?

Com o furor causado pela estreia do filme Barbie, discussões sobre cores e feminismos têm dado o tema para muitos textos e tons por aí. Sem querer puxar o tapete do filme hollywoodiano, muito menos o da excelente direção de Greta Gerwig – atestando o meu enviesamento pessoal –, parto da premissa de que a boneca existe de fato no mundo material, e de que teve papel intrinsecamente relevante na formação de muitas crianças e adolescentes de inúmeras gerações, e converso, pois, sobre o que a busca da personagem de Margot Robbie para restabelecer o equilíbrio de sua rotina pode comunicar sobre a busca do feminismo por justiça.

A verborragia dos discursos sobre a ambivalência da existência daquela boneca fez-me pensar sobre um lugar ideal que a Barbie poderia ocupar no discurso feminista. Um filme da Barbie em 2023 não poderia não ser feminista, ok. De fato, o discurso politizado estava ali, certamente capturado pela mercantilização cultural, sim. Mas como seria a “Barbie Feminista” ideal? E eu entendo que esse assunto toca o campo do ideal do justo, em analogia ao trabalho alostático.

Homeostase é equilíbrio, estabilidade, e nós sempre temos de estar em certas zonas homeostáticas para sobreviver como organismos. Já alostase é o trabalho que fazemos no mundo (do lado de fora) para alcançar ou retornar à homeostase, por meio de mudanças fisiológicas ou de comportamento.

As maravilhosidades do mundo cor-de-rosa da Barbie Estereotipada não equalizam as situações injustas vivenciadas – mas não percebidas como tal – pelos demais bonecos daquele mundo, nem anulam as injustiças do mundo “real” do filme – como os sexismos recorrentemente destacados na película. Então, quando a Barbie se percebe em “desequilíbrio” em relação ao meio em que se encontrava, é aconselhada a ativamente buscar sua condição original, de Barbie “feliz e perfeita”, viajando para o mundo real para interagir com a humana de quem era boneca, o que também destaca que a satisfação das nossas necessidades homeostáticas emocionais depende do encontro com outros sujeitos.

Algo que começou com uma proposta de busca de algo, em realidade desenvolveu-se em outro tipo de trabalho à medida em que Margot percebia sentir algo, em relação a si e a outros. Nesse sentido, buscar é diferente de sentir. Ao se tomar consciência de si, ao mesmo tempo em que ali está outro existindo em alteridade, simplesmente não dá pra mirar em alguém, porque não é alvo, porque o que se atira sou eu mesma, que me lanço ao outro na medida em que o outro se lança a mim, na esperança de que, ao nos atravessarmos mutuamente, finalmente sobreviveremos. [Clarice estava meio certa: amar, ou mesmo sentir, é um it eterno – sendo o it tudo o que tento tocar e não consigo (apesar de quase na ponta dos dedos)].

Após crises existenciais decorrentes desses movimentos, Barbie percebe que a homeostase de seu mundo só seria restabelecida com gestos coletivos, sociais, e que a mudança era inevitável para sua continuidade. E ainda, que uma mudança interna, ainda que balizada em um ideal etéreo de sociedade justa, como muito busca o feminismo, por exemplo, precisa realizar novos ideais a serem almejados. Justiça precisa ser isso, um “tender a 1”, ao justo trabalho interno, dinâmico.

Justiça como virtude é teoria antiga, aristotélica. E nesse trabalho alostático, a verdadeira busca de justiça está em agir como alguém justo. Esse é o justo. O injusto, por sua vez, coloca-se como juiz; tem-se um juiz auto-percebido, cria-se um julgado que se aplica, impõe-se, e a injustiça já se instala, posto que justiça é tão-somente ideal.

O justo não vê o mundo em bom ou mau. Sentenciar-se como bom também é condenar-se; prende-se a ciclos eternamente desequilibrados, além de injustos consigo mesmo e com os outros.

Atos justos precisam ser eivados de qualquer julgamento, inclusive aqueles de si mesmo. Assim, entendo inicialmente que a busca alostática da personagem principal no filme pelo seu reequilíbrio pode ser associada a uma busca do movimento feminista por justiça que vai perdendo a capacidade de descobrir novas possibilidade de satisfação, em um processo de homeostase para essencialmente permanecer o mesmo.

Sem o trabalho ativo do encontro com outro fora de um lugar de julgamento e a partir de uma flexibilidade para se abrir às diferenças, não se alcançam novos equilíbrios e novas possibilidades de satisfação de nossas necessidades individuais e coletivas. Tornamo-nos rígidas julgadoras de todos e inclusive de nós mesmas, e a partir desse lugar a busca por justiça só tende a alcançar o lugar do injusto e de um novo desequilíbrio.

Idealmente, pois, sonhemos nossos sonhos de forma consciente e miremos justiça sendo justos como movimentos feministas. A partir desses trabalhos alostáticos, gera-se novos gestos sociais, mais vozes politizadas e daí, novos pontos (ideais) de equilíbrio para o coletivo. Isto porque são mecanismos alostáticos: a política, que nos aterra em relação a projetos maiores, faz realizar ideais e promove encontros de vozes, aliando o longo prazo às necessidades do corpo e da mente mais imediatistas; e a cultura, que facilita as chances de satisfação de nossas necessidades individuais a partir de memórias compartilhadas.

Fica a dica, então, que podemos, sim, consumir esse tipo de entretenimento, desde que entendendo conscientemente a satisfação que se está buscando, e ampliando o campo de discussão sobre o assunto e sobre nossas perspectivas como feministas, Afinal, se algo se expande sob nossa observação, nossas possibilidades expandem-se junto com aquele it.

*Dandara Coêlho é diretora de comunicação da Elas No Poder

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