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Recessão dos influenciadores? Não para quem aposta no terceiro setor

Francisco fundou a INDICA ao enxergar uma demanda que mais ninguém percebeu. Hoje, a agência dobra o faturamento anualmente

Francisco Figueiredo (Acervo Pessoal)

Francisco Figueiredo (Acervo Pessoal)

Aquiles Rodrigues
Aquiles Rodrigues

Repórter Bússola

Publicado em 10 de setembro de 2026 às 14h29.

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O Silvio Santos sabia que a internet roubaria a ideia dele? Atualmente em sua adolescência,o mercado de influência tornou-se um verdadeiro Topa Tudo por Dinheiro, valendo até martelar o próprio rosto – sim, um influenciador americano fez isso. 

Por aqui já faz um tempo que não vemos alguém mergulhar numa banheira de Nutella, mas as publis para as bets e lives pedindo dinheiro são dois dos sintomas que apontam para uma possível recessão dos influenciadores. 

Em resumo: a baixa barreira de entrada criou um ambiente extremamente competitivo, com poucos influenciadores consolidados ficando com quase todo o investimento. 

  • O Brasil tem 3,8 milhões de influenciadores – é o segundo no ranking mundial.
  • Este mercado movimenta mais de R$ 20 bilhões por ano.
  • 66% das empresas que já apostam na influência pretendem intensificar investimentos.

Porém, todavia, no entanto…

“O mercado de influência é um ambiente extremamente desigual. Você tem pouquíssimos influenciadores que estão ganhando muito dinheiro e muitos que tem mais de um milhão de seguidores mas não conseguem se sustentar”, conta Francisco Figueiredo, para quem este cenário não apresenta nenhuma ameaça. 

Criador de conteúdo e divulgador científico, o jovem de 22 anos fundou a agência INDICA em 2024, ao lado de outros 3 amigos influenciadores e sem captar investimentos.

A empresa alcançou seu primeiro milhão há duas semanas, dobrando de tamanho em um ano e projetando faturamento de R$ 1,4 milhões até o final de 2026.

Qual o segredo de Francisco para prosperar no ambiente caótico do marketing de influência? Atender à demanda do terceiro setor.

Como ele enxergou a oportunidade?

Carioca, filho de um agrônomo e uma jornalista, Francisco começou a carreira de influenciador com apenas 16 anos. O lar de pensamento progressista o inspirou a combater a desinformação de conteúdo sobre ciências no TikTok. 

Como muitos, ele começou durante a pandêmia de covid-19, mas não enxergava a criação de conteúdo como uma profissão. “Meu perfil de influência, e conteúdo, é complicado para as marcas. Então só fui enxergar as possibilidades quando fundei a agência e decidi operar dentro do mercado publicitário ao invés de prestar serviços a ele.”

Foi após uma viagem para o Acre, com outros 70 criadores em um programa voltado para pautas do meio ambiente, que ele descobriu uma alternativa ao caos do marketing de influência tradicional.

“Comecei a fazer mais conteúdo voltado pro assunto mudanças climáticas. Foi aí que entendi que tinha muito espaço para trabalhar com influenciadores junto das organizações sociais, do jornalismo independente, das fundações de filantropia e afins. Existia uma demanda para que essas figuras operassem dentro de mercado de influência, mas eles não tinham os contatos e os meios de chegar ao mercado”, conta. 

Francisco percebeu que existia uma lacuna que não só poderia ser preenchida, como também permitiria um diferencial competitivo.

O que tornou o modelo tão viável

“No mercado publicitário  tradicional, o influenciador transfere a reputação e a credibilidade dele para a marca. Isso é muito caro! Porque se associar a uma marca é algo delicado e o resultado sempre destoa de alguma forma do conteúdo padrão. Não é assim com a gente”.

E não é mesmo, pois o que não falta são influenciadores com conteúdo sério, de boa apuração, voltado para ciência ou assuntos de interesse público. Estes criadores de conteúdo digital não recebem tantas propostas do mercado tradicional. 

O que Francisco e seus sócios fizeram foi juntar a fome com a vontade de comer, provendo um meio de campo entre o terceiro setor, que precisa de presença nas redes sociais, e os criadores de conteúdo que precisam de contratos de publicidade. O preço dos influenciadores condiz com os clientes e as demandas dos clientes condizem com o conteúdo dos influenciadores.

“Muitas vezes, a única coisa que eu preciso é que esse influenciador fale de algo que ele já falaria naturalmente. Temos, por exemplo, uma parceria com a Secretaria de Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro, onde divulgamos as pesquisas de jovens universitários. Não é um ecossistema de publicidade onde divulgamos a secretaria, mas um programa de divulgação científica. Então temos uma aceitação muito grande dos influenciadores”.

Atualmente a INDICA está apostando, também, em editais, permitindo que influenciadores agenciados que não tem equipe ou expertise para a elaboração de projetos participem com suporte total. 

  • A agência trabalha dentro dos eixos Democracia, Ciência e Meio Ambiente. 
  • Ela soma mais de 80 milhões de seguidores entre seus mais de 200 agenciados 
  • Ela também atua globalmente, em mais de 10 países. 

“A tese se provou. Hoje em dia operamos completamente dentro desse meio e com bastante tranquilidade.” 

Mas ainda falta segurança no mercado 

Atender ao terceiro setor também resolve questões de insegurança que, no meio tradicional, são muito presentes. Para que o mercado não confirme suas suspeitas de recessão, este problema precisa ser solucionado e Francisco considera a regulamentação ação prioritária.

“Já vi contratos com pagamento em 170 dias úteis e cláusulas que obrigam o influenciador a devolver o pagamento se fizer algo que prejudique a marca em determinado tempo. É um mercado de muita insegurança pro influenciador e essa insegurança, inclusive,  aumenta muito os preços”.

Em janeiro deste ano a Lei nº 15.325 promoveu reconhecimento legal da profissão como profissional multimídia. A lei, no entanto, não cria regulamentação restritiva, portanto não é necessário diploma ou certificados para ser influenciador. 

A profissão ainda não possuí mecanismos de segurança que possam impedir cenários como os descritos por Francisco, mas a lei também não criou um cenário de restrição intensa nem gerou reserva de mercado.

“Acho que estamos muito distantes de algo como a China propôs — que você precise ser especialista numa área para falar dela. É claro que qualquer tipo de regulamentação gera restrições e essas restrições vão cair sobre os influenciadores. Mas o ambiente é tão inseguro que qualquer regulamentação será para melhor”.

E a regulamentação não seria benéfica apenas para os influenciadores, mas para as agências também. Quem lembra quando, no ano passado, uma planilha dos influenciadores viralizou, mostrando os bastidores do mercado? 

Ficou claro na época, que profissionalização é urgente no meio. O verniz de causalidade proporcionado pelas convenções das redes sociais por vezes esconde o fato de que influenciador e criador de conteúdo são profissões. A lei deixa isso mais claro, mas ainda há um longo caminho a ser percorrido.

O futuro da INDICA e do mercado de influência

Quando o Goldman Sachs previu que o mercado global de influência chegaria aos US$ 480 bilhões até 2027 ele ainda estava na infância. Agora em fase de amadurecimento, os influenciadores começam a entender princípios inegociáveis da profissão e a descobrir novas estratégias para sua atuação.

A INDICA prospera, em especial, pela sua estratégia voltada para a entrega de conteúdo de impacto social. A distância da lógica do lucro e das métricas tradicionais permite maior perenidade em uma operação mais sustentável.

Inteligência e geração de dados são prioridades para o ano que vem. Atualmente a agência planeja a publicação de um estudo científico sobre o poder de mercado das agências de marketing de influência no setor publicitário. Junto a isso, também uma pesquisa com influenciadores de ciências com mais de um milhão de seguidores. 

Todo o esforço colabora com o futuro do mercado de influência e o enfrentamento da recessão percebida. “Enxergo um caminho muito interessante para o futuro do mercado de influência. Este, seria se aproximar do que o jornalístico fez há décadas atrás, com a redução da informalidade, criação de mecanismos de defesa, fortalecimento do ecossistema filantrópico, tudo isso”. 

 

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