Indústria de Defesa brasileira: foco em tecnologia e autonomia estratégica para as eleições de 2026 (Joa Souza/Shutterstock)
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Publicado em 14 de maio de 2026 às 17h00.
Por Sebastian Watenberg*
As eleições de 2026 tendem a recolocar no centro do debate público um tema historicamente tratado de forma periférica no Brasil, a relação entre soberania nacional, defesa e desenvolvimento econômico.
Em um ambiente internacional marcado pela competição tecnológica, pela reorganização das cadeias produtivas e pela crescente utilização de instrumentos econômicos como ferramentas de poder, a defesa deixa de ser um tema restrito ao campo militar e passa a ocupar posição estratégica na formulação de políticas de Estado.
A soberania, nesse contexto, deve ser compreendida como a capacidade efetiva de um país decidir seus rumos sem dependências críticas externas.
Isso implica não apenas proteger o território, mas também assegurar autonomia em tecnologias sensíveis, resiliência industrial e domínio sobre infraestruturas estratégicas.
Países que não controlam suas cadeias tecnológicas e produtivas tornam-se vulneráveis a pressões externas, restrições de acesso e descontinuidades operacionais em momentos de crise.
É nesse ponto que a Base Industrial de Defesa assume papel central.
Mais do que um conjunto de empresas fornecedoras das Forças Armadas, trata-se de um ecossistema que articula indústria, centros de pesquisa, universidades e governo em torno do desenvolvimento de capacidades críticas.
Experiências internacionais demonstram que investimentos em defesa geram efeitos de transbordamento relevantes, impulsionando inovação, formando capital humano qualificado e criando tecnologias de uso dual com aplicação em setores civis.
Para que esse potencial se concretize, os presidenciáveis precisarão apresentar propostas consistentes em três dimensões estruturantes.
A primeira é a previsibilidade orçamentária. Programas de defesa possuem ciclos longos de desenvolvimento e maturação, frequentemente superiores a uma década.
A ausência de estabilidade no financiamento compromete não apenas a entrega de capacidades militares, mas também a sustentabilidade da indústria nacional, que depende de escala e continuidade para investir em pesquisa e desenvolvimento.
A segunda dimensão diz respeito ao modelo de compras governamentais.
O Estado é o principal indutor da demanda no setor de defesa e, portanto, exerce papel determinante na configuração da indústria.
Políticas de aquisição que priorizem conteúdo local, transferência de tecnologia e desenvolvimento conjunto são fundamentais para evitar a simples importação de sistemas prontos, que pouco contribuem para a autonomia nacional.
Ao mesmo tempo, é necessário garantir eficiência, transparência e competitividade nos processos, de modo a equilibrar interesses estratégicos com boas práticas de gestão pública.
A terceira dimensão envolve a política industrial e tecnológica.
A defesa deve ser integrada a uma estratégia mais ampla de desenvolvimento, conectando-se a agendas como transformação digital, cibersegurança, inteligência artificial e novos materiais.
A convergência entre setores civis e militares é uma tendência global, e países que conseguem estruturar essa integração ampliam significativamente sua capacidade de inovação e inserção internacional.
Do ponto de vista do setor industrial, a expectativa é de que o próximo governo avance na consolidação de uma política de Estado para a defesa, reduzindo descontinuidades e alinhando instrumentos de financiamento, regulação e incentivo.
Isso inclui o fortalecimento de mecanismos de crédito e apoio à inovação, a manutenção de regimes tributários adequados à especificidade do setor e a ampliação de iniciativas voltadas à internacionalização das empresas brasileiras.
Além disso, espera-se maior coordenação entre política externa, comércio internacional e defesa.
A exportação de produtos e serviços de defesa não apenas amplia a escala da indústria, mas também reforça a presença internacional do país e aprofunda relações estratégicas com parceiros.
Nesse sentido, a diplomacia econômica torna-se um vetor relevante para a expansão da Base Industrial de Defesa.
O debate eleitoral oferece, portanto, uma oportunidade relevante para elevar o nível de discussão sobre o tema.
Mais do que respostas pontuais, o que se espera dos presidenciáveis é a apresentação de uma visão integrada de soberania, que reconheça a defesa como elemento indissociável do desenvolvimento nacional.
Em um cenário global cada vez mais competitivo, a capacidade do Brasil de articular indústria, tecnologia e estratégia será determinante para sua posição no mundo nas próximas décadas.
*Sebastian Watenberg, 44 anos, é consultor especialista em relações institucionais e governamentais, com atuação em âmbito nacional e internacional, nos setores de Defesa e Segurança.