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Opinião: resiliência redefine o paradigma do empresário brasileiro

Em um cenário de conflitos e fragmentação, a estabilidade deixou de ser a regra e o risco geopolítico virou fator real de caixa

Empresas brasileiras buscam resiliência operacional diante de novos riscos geopolíticos em 2026 (SrdjanPav/Getty Images)

Empresas brasileiras buscam resiliência operacional diante de novos riscos geopolíticos em 2026 (SrdjanPav/Getty Images)

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Publicado em 9 de março de 2026 às 15h00.

Por Sérvulo Mendonça*

O ambiente econômico global atravessa um período de transformação profunda. Tensões geopolíticas, disputas comerciais entre grandes potências e mudanças nas cadeias produtivas internacionais estão redesenhando o cenário em que empresas e governos operam.

Para quem empreende, isso significa lidar com um nível crescente de imprevisibilidade e pressão estratégica. Nesse contexto, algo que durante décadas foi tratado como premissa passou a se tornar cada vez mais raro: a estabilidade. A estabilidade deixou de ser pressuposto e passou a ser exceção.

A nova era da instabilidade global

O mundo atravessa hoje um ciclo simultâneo de tensões militares, disputas econômicas e fragmentações institucionais.

A guerra entre Rússia e Ucrânia redesenhou o equilíbrio europeu. O conflito envolvendo Israel e Irã amplia os riscos no Oriente Médio.

Ao mesmo tempo, a rivalidade estratégica entre Estados Unidos e China ultrapassa tarifas e alcança tecnologia, energia e cadeias de suprimento.

Não se trata apenas de confrontos armados. O que está em curso é uma reorganização estrutural do poder global, travada com instrumentos diversos: força militar, tecnologia, inteligência estratégica e poder econômico.

Em muitos momentos, esse embate ocorre também por meio de pressões indiretas e movimentos calculados.

Durante décadas, o ambiente empresarial foi moldado pela expansão contínua da globalização.

Cadeias produtivas integradas, mercados interdependentes e logística internacional relativamente estável permitiam um planejamento estratégico de longo prazo com algum grau de previsibilidade.

Da eficiência máxima à resiliência operacional

Esse cenário começa a mudar. Observa-se hoje um movimento de desglobalização seletiva, marcado por reindustrialização doméstica, protecionismo estratégico e restrições tecnológicas entre grandes potências.

Nesse novo contexto, o paradigma deixou de ser eficiência máxima e passou a ser resiliência. Países buscam maior autonomia produtiva e segurança energética.

Empresas, por sua vez, priorizam estabilidade no fornecimento e redução de vulnerabilidades nas cadeias produtivas.

O custo dessa transição é elevado e muitas vezes invisível. Ele aparece na forma de volatilidade, incerteza e maior dificuldade de planejamento estratégico.

O risco de geopolítica deixou de ser um tema restrito ao noticiário internacional.

Ele passou a influenciar diretamente crédito, inflação, custo de capital e decisões de investimento. Em outras palavras, tornou-se um fator real na rotina das empresas.

Mesmo longe das zonas de conflito, o empresário brasileiro sente esses efeitos.

Oscilações cambiais, pressões inflacionárias e mudanças nas dinâmicas do comércio internacional impactam contratos, planejamento financeiro e decisões de expansão.

Quando os custos aumentam e as receitas não acompanham na mesma velocidade, a margem se comprime, o caixa se tensiona e a inadimplência tende a crescer.

Instala-se um tipo de pressão silenciosa, que muitas vezes se acumula gradualmente até se tornar um problema estrutural.

Desafios internos: reforma tributária e pressão regulatória

Ao mesmo tempo, o ambiente doméstico apresenta seus próprios desafios. O Brasil atravessa um momento de transformação institucional e regulatória.

A implementação da reforma tributária, a ampliação da fiscalização digital e a integração massiva de dados fiscais elevam o nível de exigência técnica para as empresas.

A judicialização crescente de conflitos empresariais, a escassez de mão de obra qualificada e um ambiente político polarizado adicionam novas camadas de complexidade ao cenário de negócios.

Nesse contexto, a margem para informalidade estrutural diminui, enquanto a exigência por governança corporativa aumenta.

O empresário brasileiro passa a lidar simultaneamente com instabilidade global externa e pressão regulatória interna.

Este é um ambiente econômico em que prever cenários se torna cada vez mais difícil. Esse conjunto de fatores configura uma verdadeira prova de fogo para quem empreende no país.

No curto prazo, disciplina financeira deixa de ser apenas uma boa prática e passa a ser uma condição de sobrevivência.

Controle rigoroso de fluxo de caixa, revisão contratual, análise de exposição cambial e mapeamento de contingências tornam-se medidas indispensáveis.

Empresas que operam com fragilidade em controles internos ou planejamento financeiro tendem a sentir os impactos primeiro.

O papel do empresário brasileiro como agente de resistência

No médio prazo, a resposta exige reorganização estrutural.

Diversificação de fornecedores, revisão de estruturas societárias, fortalecimento de compliance, contabilidade estruturada e investimento em tecnologia de gestão passam a atuar como mecanismos de proteção.

A desglobalização não implica necessariamente retração econômica. Em muitos casos, significa adaptação estratégica a uma incerteza estrutural.

No longo prazo, períodos de crise costumam consolidar os agentes mais preparados.

Cadeias produtivas tendem à regionalização, energia e tecnologia ganham status de ativos estratégicos e a integridade corporativa passa a ser critério relevante para acesso a crédito e mercados.

Além disso, outros fatores começam a ganhar peso crescente no ambiente empresarial.

O risco fiscal associado à nova arquitetura da reforma tributária, o risco reputacional ampliado pela hiperexposição digital e a dificuldade crescente de retenção de talentos se tornam variáveis relevantes na gestão das empresas.

Medidas econômicas de viés populista também podem fragilizar a previsibilidade regulatória.

Ao mesmo tempo, tensões institucionais entre Supremo, Congresso e Executivo acabam impactando a percepção de segurança jurídica.

Nesse contexto, o empresário brasileiro não enfrenta apenas mercado e concorrência.

Ele opera em um ambiente sistêmico de instabilidade global, marcado por disputas políticas, expansão da carga fiscal e sensação crescente de compressão econômica.

Quando a arrecadação aumenta enquanto a percepção de retorno social permanece deteriorada, surge uma discussão legítima sobre os limites da tributação e a capacidade contributiva da sociedade.

O paradoxo do anti-herói contemporâneo

É nesse cenário que a figura do empresário se torna paradoxal.

Ele pode ser visto como vilão quando falha, quando concentra riqueza ou quando erra eticamente.

Mas também pode ser celebrado como agente de desenvolvimento quando gera empregos, investe, paga tributos e sustenta a engrenagem econômica.

Talvez, na realidade contemporânea, ele seja sobretudo um anti-herói.

Não o personagem idealizado das narrativas simplificadas, nem o antagonista fácil de certos discursos.

Mas o agente imperfeito que toma decisões sob pressão constante, assume riscos significativos e precisa lidar diariamente com uma alta complexidade.

Em tempos de instabilidade global e pressão interna, o empresário brasileiro não escolhe o cenário em que atua.

Escolhe apenas como atravessá-lo. E é nessa travessia que se revela, na prática, seu verdadeiro papel econômico e social.

*Sérvulo Mendonça é chairman da Holding SM, uma empresa de participações, negócios e gestão que apoia o crescimento sustentável de outras corporações de alto potencial, com mais de 20 anos de atuação profissional.

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