Bússola

Um conteúdo Bússola

Opinião: planejamento sucessório ignorado hoje vira prejuízo amanhã

Com mudanças no ITCMD e recorde de testamentos, adiar a organização do patrimônio eleva a carga tributária e gera riscos jurídicos graves

Planejamento sucessório estratégico evita custos extras com ITCMD e garante a perenidade dos bens (Trevor Williams/Getty Images)

Planejamento sucessório estratégico evita custos extras com ITCMD e garante a perenidade dos bens (Trevor Williams/Getty Images)

Bússola
Bússola

Plataforma de conteúdo

Publicado em 8 de abril de 2026 às 17h00.

Última atualização em 10 de abril de 2026 às 13h48.

Por Liz Azevedo*

O Brasil entrou em um novo ciclo para a transmissão de patrimônio, e ele é mais caro e mais complexo.

Em 2025, o país registrou 38.740 testamentos, o maior número da série histórica, segundo o Colégio Notarial do Brasil – Conselho Federal.

Ao mesmo tempo, mudanças nas regras do ITCMD (Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação), impulsionadas pela reforma tributária, elevaram o custo e a complexidade da sucessão, com alíquotas progressivas e maior alcance sobre bens no exterior.

O custo de adiar o planejamento sucessório

O movimento revela uma mudança de comportamento, mas também escancara um descompasso: mais brasileiros passaram a se preocupar com o tema, porém muitos ainda adiam decisões, mesmo diante de um cenário mais oneroso.

Na prática, esse atraso cobra um preço. Empresas e famílias que deixam o planejamento sucessório para depois tendem a enfrentar menos alternativas, maior carga tributária e mais riscos no momento da transferência de patrimônio.

Em muitos casos, o tema só entra na agenda quando há um gatilho, como venda da empresa, reorganização societária ou eventos inesperados, quando já é mais difícil e caro estruturar soluções.

O desafio das empresas familiares e o mercado

O impacto vai além da esfera familiar e chega ao centro das decisões empresariais.

Empresas familiares, que respondem por cerca 65% do PIB nacional, segundo dados apresentados no Vision Tech Summit Agro 2025, são particularmente expostas.

Sem uma estrutura sucessória clara, aumentam os riscos de conflito, descontinuidade na gestão e perda de valor. Esse efeito já é percebido pelo mercado.

Governança, valuation e ativos no exterior

Bancos, fundos e investidores passaram a olhar com mais atenção para a organização societária e patrimonial das empresas.

Falhas nesse campo são interpretadas como risco, o que pode afetar o acesso a crédito, pressionar o valuation e até travar operações de fusões e aquisições.

Outro ponto de atenção é a internacionalização do patrimônio. A maior incidência do ITCMD sobre ativos no exterior adiciona uma camada de complexidade que exige planejamento mais sofisticado, e reduz o espaço para decisões de última hora.

Planejamento como alavanca estratégica

Nesse cenário, o planejamento sucessório deixa de ser uma medida patrimonial e passa a ser uma alavanca estratégica.

Mais do que definir herdeiros, trata-se de organizar ativos, reduzir ineficiências tributárias e garantir continuidade e governança.

O aumento no número de testamentos mostra que o tema entrou no radar. Mas, com as novas regras, a discussão muda de patamar, não é mais sobre “se” planejar, mas “quando”.

E, no atual ambiente, esperar pode significar uma decisão mais cara, e com menos controle.

*Liz Azevedo é especialista em Consultoria Jurídico-Societária, Patrimonial e em operações de M&A no Grupo BLB, onde lidera projetos estratégicos nessas frentes.

Acompanhe tudo sobre:SucessãoEmpresas familiares

Mais de Bússola

Consultoria aposta em branding com comunicação integrada para crescer 15%

O fim do link na bio: como o social commerce está mudando o varejo de moda

Vendas B2B: como trocar a briga de preço pela construção de valor

Opinião: o Brasil vive de endividamento coletivo