Colaborador focado em ambiente saudável: reflexo da nova gestão de riscos da NR-1
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Publicado em 22 de abril de 2026 às 15h00.
Por Tiago Amor*
A partir de 26 de maio de 2026, a NR-1 passa a incluir de forma expressa os riscos psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO).
E isso coloca no centro da gestão temas que por muito tempo foram tratados como efeito colateral da rotina: sobrecarga, metas incompatíveis com a realidade, falhas de comunicação, falta de apoio, baixa autonomia e tarefas repetitivas.
O que antes era naturalizado como “parte do trabalho” passa a exigir método, prevenção e rastreabilidade, e também entra no radar da orientação oficial e da fiscalização trabalhista.
O próprio guia do Ministério do Trabalho e Emprego deixa claro que os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho decorrem de problemas na concepção, na organização e na gestão do trabalho.
Em outras palavras, não se trata apenas de olhar para sintomas individuais, mas de observar como o trabalho é distribuído, executado, acompanhado e cobrado dentro das empresas.
Essa distinção é essencial porque parte relevante do desgaste emocional no ambiente corporativo nasce menos de fatores subjetivos e mais de problemas operacionais concretos: retrabalho, urgências constantes, fluxos quebrados, excesso de aprovações manuais, falta de clareza sobre responsabilidades e comunicação fragmentada entre áreas.
Quando esses elementos se acumulam, eles produzem um ambiente de pressão permanente, sensação de perda de controle e esgotamento. E é justamente esse elo entre organização do trabalho e adoecimento que a nova ênfase da NR-1 torna impossível ignorar.
Os números ajudam a dimensionar a urgência do tema. A OMS e a OIT estimam que 12 bilhões de dias de trabalho sejam perdidos todos os anos por causa de depressão e ansiedade, com impacto de quase US$ 1 trilhão anuais em perda de produtividade.
Não se trata, portanto, apenas de uma pauta de bem-estar. É uma questão econômica, operacional e estratégica. Ambientes de trabalho desorganizados adoecem pessoas e reduzem a capacidade de entrega das empresas.
A resposta mais madura a esse cenário não está em mais supervisão e controle, relatórios paralelos ou novas rotinas burocráticas. A NR-1 exige um processo estruturado: identificar perigos, avaliar riscos, definir medidas preventivas, acompanhar sua eficácia e manter evidências desse processo ao longo do tempo.
É aqui que automação e orquestração de processos ganham relevância. Não porque a tecnologia resolva, sozinha, um tema tão complexo quanto à saúde mental no trabalho, mas porque ela pode solucionar parte importante das causas operacionais que alimentam esse desgaste.
A OIT vem destacando que a automação tende a complementar o trabalho humano mais do que simplesmente substituí-lo, e que digitalização e automação podem reduzir exposições nocivas, prevenir acidentes e melhorar condições de trabalho quando aplicadas com critério.
Em ambientes com excesso de tarefas repetitivas e baixo valor agregado, automatizar é também abrir espaço para mais clareza, previsibilidade e foco no que realmente exige inteligência humana.
Os resultados práticos disso já aparecem em operações reais. Na Sicoob Credicitrus, a automação reduziu em 60% o tempo de resposta aos associados. No Grupo Ser Educacional, a digitalização de processos gerou economia de mais de 15 mil horas de trabalho por ano.
E, na Jalles, atividades que antes levavam três dias passaram a ser concluídas em duas horas. São exemplos diferentes entre si, mas com um ponto em comum: quando a empresa elimina tarefas repetitivas e melhora a fluidez entre áreas, ela não apenas ganha eficiência, ela também diminui parte das pressões que desgastam pessoas todos os dias.
Esse é o ponto central. Empresas que enxergarem a NR-1 apenas como mais uma obrigação de compliance tenderão a responder com mais controle.
Mas empresas que entenderem a profundidade dessa mudança regulatória podem usá-la como alavanca para rever fluxos, eliminar tarefas repetitivas, integrar processos e criar uma rotina mais sustentável.
Afinal, trabalho digno não é apenas uma pauta de cuidado. É também uma escolha de gestão. E, cada vez mais, uma condição para produtividade consistente.
*Tiago Amor é CEO da Lecom, especialista em Gestão de Projetos na FGV e formado em Sistemas da Informação pela UNESP, onde também se especializou em Gestão Empresarial.