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Opinião: Haiti entre esperança no esporte e desafios estruturais

O Haiti, sua presença nos esportes e seus desafios internos

Bandeira do Haiti (Getty Images)

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Publicado em 20 de fevereiro de 2026 às 15h09.

Última atualização em 20 de fevereiro de 2026 às 15h26.

Por Patrick Sabatier*

As únicas boas notícias recentes sobre o Haiti estão relacionadas ao esporte, como a classificação do país para a Copa do Mundo masculina deste ano e o desempenho da seleção feminina de futebol. Sendo que a mais surpreendente de todas foi seguramente a presença de uma pequena delegação haitiana nos Jogos Olímpicos de Inverno! Enquanto isso, o país permanece sem presidente, sem Congresso, sem eleições.

O último dia 7 de fevereiro marcou o 40º aniversário da queda de Jean-Claude Duvalier, presidente vitalício, um ditador de pai para filho que governou o país por muito tempo graças aos infames e temidos "Tontons Macoutes". Desde então, o país, indo de mal a pior, vive um de seus períodos mais sombrios.

Desde que deixei o Haiti em 1981, a vida política local tem sido geralmente caracterizada por um coquetel explosivo de incompetência, corrupção, impunidade, tráfico e crime organizado. Virtualmente sem Estado, o país mergulhou na mais extrema pobreza e no caos.

Após o exílio do presidente Jean-Claude Duvalier, o país vivenciou uma série de governos militares interinos e eventuais eleições presidenciais. Muitos dos eleitos acabaram depostos por golpes militares, reinstalados pela administração americana, retirados do país por comandos das forças especiais dos EUA ou executados por mercenários colombianos. Após o assassinato, em 2021, do presidente Jovenel Moïse, um produtor de bananas que não conseguiu realizar milagres, o processo eleitoral permanece paralisado e não há governos administrando os assuntos cotidianos.

O Conselho Presidencial de Transição, estabelecido em 2024, deixou o poder em fevereiro de 2026 sem alarde, sem conquistas notáveis ​​e em meio a considerável confusão. O primeiro-ministro Alix Didier Fils-Aimé permanece no cargo.

Sua trajetória tem sido marcada por altos e baixos, tendo sido um dos 80 candidatos considerados para a posição em maio de 2024, mas não selecionado. Em seguida, como o escolhido não durou, foi nomeado primeiro-ministro, mas sofreu uma tentativa de remoção em janeiro de 2026 por membros do Conselho Presidencial de Transição. Com o suporte dos EUA, o primeiro-ministro permaneceu no cargo, mas sendo obrigado a seguir a agenda americana, que é difícil de compreender.

Eles querem eleições, que não ocorrem há 10 anos. Mas eleições em 10 dias, 10 meses ou mesmo 10 anos correm o risco de ser impossíveis ou inócuas, se nenhuma mudança estrutural for implementada.

O Haiti é um dos 15 países do mundo a usar armas em seu emblema nacional, mas, na realidade, o rei está nu e desarmado, diante de gangues e outras forças obscuras que controlam o país. Chegou-se ao ponto de o governo de transição haitiano decidir contratar Erik Prince, fundador da controversa empresa de segurança privada Blackwater, para combater os grupos armados que controlam a capital.

Mas é difícil compreender uma estratégia para apenas conter, em vez de eliminar, as gangues. Hoje o que se vê são ataques direcionados com drones para tentar matar líderes e soldados desses grupos ilegais. Tudo isso dá a impressão de que os EUA, por meio de um intermediário bem remunerado, estão criando uma espécie de caos organizado no Haiti, em lugar de buscar resolver a situação de uma forma definitiva.

Voltando aos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina 2026, o Comitê Olímpico Internacional censurou a imagem de Jean-Jacques Dessalines, herói da revolução, no belíssimo uniforme da equipe haitiana. O país decidiu então substitui-la por uma de um cavalo vermelho galopando sem cavaleiro! Só nos resta esperar então que surja um novo líder para o Haiti e que ele volte a montar no cavalo e assumir as rédeas desta nação.

*Patrick Sabatier é presidente de honra da Câmara de Comércio França-Brasil no Rio de Janeiro e passou parte de sua juventude no Haiti.

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