O que você faria se tivesse a chance de furar a fila da vacina?

As pequenas corrupções continuam existindo na pandemia, como sempre existiram

Por Rodrigo Pinotti*

Por 400 reais é possível comprar um atestado médico falso na Praça da Sé, região central de São Paulo, andar alguns metros até o posto de saúde mais próximo e tomar a vacina contra a covid-19, mesmo que você não esteja em nenhum grupo de risco ou na faixa de idade para quem a imunização já está disponível. Já no Rio de Janeiro, a polícia prendeu dois médicos que vendiam atestados falsos de comorbidade por 20 reais cada um (a mão invisível do mercado ainda não teve tempo de regular o preço desse produto). Se fosse oferecida a você, leitor ou leitora, a chance de furar a fila e cortar em alguns meses a espera pela vacina, você o faria?

O atestado falso para a vacina de covid é primo da carteirinha de estudante forjada, do gatonet e do cigarrinho paraguaio que a vendinha da esquina vende sem recolher impostos. Também é irmão do ato de furar a fila (qualquer fila), embora com consequências imediatas bem mais graves. Está na família dos desvios de verba para o combate à pandemia.

É o famoso “jeitinho”, aquele impulso de agir à margem das regras estabelecidas, e que às vezes cresce e se torna sem controle. Estamos todos acostumados a ver isso acontecendo, mas damos pouca importância sem nos preocuparmos com as consequências.

Também não é uma exclusividade brasileira, como se convencionou pensar. Um experimento liderado pelo psicólogo Dan Airely [Ariely, Dan. The (Honest) Truth about Dishonest. HarperCollins Pulishers, 2012] propôs a milhares de pessoas que resolvessem 20 questões simples de matemática, mas em pouco tempo, ganhando 1 dólar por resposta correta.

Ao terminarem, os respondentes jogavam a folha de teste em um triturador de papel e eram apresentados a um gabarito. Mostrando as respostas certas, os pesquisadores então perguntavam o que os candidatos haviam respondido. O truque é que o triturador de papel havia sido modificado para não destruir as respostas, e os pesquisadores puderam fazer a comparação.

Descobriram que cerca de 70% dos participantes mentiram. No entanto, apenas 20 participantes mentiram muito, dizendo que haviam acertado as 20 respostas. Esses deram aos pesquisadores um prejuízo de 400 dólares. Cerca de 28.000 pessoas mentiram pouco, roubando apenas em algumas respostas. Estes custaram 50.000 dólares. As pequenas corrupções custam muito. Em uma pandemia, quando há vidas em jogo, podem custar muito mais.

O experimento provou que mentira e a trapaça são naturais ao ser humano. Em maior ou menor grau, todos fazemos eu tenho na conta algumas paradas indevidas em vagas preferenciais de farmácia, porque “vai ser rapidinho”, entre outros delitos “menores” (mas não comprei atestado falso para tomar vacina, e penso que ninguém deve fazê-lo).

O melhor antídoto para isso é a reflexão: quando paramos para pensar de forma honesta, nos lembramos dos valores que deixamos para trás, não sentimos orgulho e aumentamos a chance de não repetir o erro no futuro. Esta é a definição de ética na prática.

Claudio Abramo, uma lenda das redações, disse certa vez: “Sou jornalista, mas gosto mesmo é de marcenaria. Gosto de fazer móveis, cadeiras, e minha ética como marceneiro é igual à minha ética como jornalista. Não tenho duas.” [Abramo, Claudio e vários autores (org.). A Regra do Jogo. Cia das Letras, 1988]

A ética do marceneiro também é a ética do sapateiro, do economista, do médico ou a falta dela, no caso daquele preso assinando atestados falsos. A ética e a correção moral são feitas apenas por nós mesmos, em uma luta diária contra nossos próprios instintos.

*Rodrigo Pinotti é sócio-diretor da FSB Comunicação

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