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Mercado ilegal financia atividades criminosas e movimenta US$ 210 bilhões

Tríplice fronteira é um dos mais complexos eixos da ilegalidade no mundo, segundo pesquisadores do projeto “hubs of illicit trade”
 (Bússola/Reprodução)
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BússolaPublicado em 17/06/2022 às 15:00.

O comércio ilícito e outras atividades criminosas associadas representam de 8% e 15% da economia mundial. Só na América Latina, o contrabando movimenta US$ 210 bilhões ao ano. No Brasil, segundo um estudo do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF), o setor mais vulnerável ao comércio ilegal é a indústria do tabaco, onde quase metade (48%) do mercado nacional é dominado por cigarros contrabandeados, principalmente do Paraguai, segundo o Ipec Inteligência. O cigarro ilícito é, ainda, um dos responsáveis pelo financiamento de outras atividades criminosas no mundo.

Os dados foram divulgados nesta terça-feira (14/06), no lançamento do projeto Centros de Comércio Ilícito (“hubs of illicit trade”), uma colaboração global de pesquisadores que reúnem informações sobre centros de negócios ilegais pelo mundo. A expectativa é criar uma base analítica sólida para esforços globais de políticas destinadas a combater atividades ilícitas no mundo, tais como o tráfico de drogas e de pessoas, além do comércio ilegal de cigarros e de armas.

“Nosso foco é a interseção de diferentes crimes e como eles se apoiam mutuamente”, declarou Louise Shelley, diretora do Centro de Terrorismo, Crime e Corrupção Transnacional (TraCCC). Professora universitária na George Mason University, nos Estados Unidos, ela é uma das principais especialistas no mundo na relação entre terrorismo, crime organizado, crime transnacional e corrupção, bem como em tráfico de seres humanos.

Ela afirma ser possível destacar algumas características que facilitam os chamados “portos seguros” do comércio ilícito pelo mundo, são eles: uma legislação conivente e permissiva; o registro de altos índices de corrupção no governo local e um histórico de conflitos. Os pesquisadores apontaram quatro desses centros: a tríplice fronteira na América do Sul (Brasil, Paraguai e Argentina); a América Central, especialmente a Guatemala; o Leste Europeu, com especial olhar para a região da Guerra da Rússia contra a Ucrânia; e Dubai.

Organizações terroristas

Não é de hoje que o Brasil enfrenta problemas na fiscalização do comércio ilegal na região fronteiriça entre Paraguai e Argentina que ficou muito conhecida, na década de 90, como a principal área de contrabando da América do Sul. A região que compreende as cidades de Foz do Iguaçu (Brasil), Ciudad del Este (Paraguai) e Porto Iguazu (Argentina) é apontada como principal ponto de favorecimento do nexo entre crime organizado e terrorismo internacional. O que começou com o comércio ilegal de produtos, como cigarros, logo se espalhou para outras atividades criminosas como tráfico de drogas e armas.

Segundo a pesquisadora Rashmi Singh, professora do programa de pós-graduação em Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG) e codiretora da rede colaborativa TraCCC, há estudos que comprovam o aumento do tráfico de drogas e vendas de armas ilegais nestas regiões, especialmente ligados às duas principais organizações criminosas no Brasil — Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital (PCC). “Há indícios, inclusive, de que o dinheiro do comércio ilegal da região financie atividades terroristas, incluindo o grupo islâmico Hezbollah.”

Singh explica que a geografia da região, formada pela confluência dos rios Paraná e Iguaçu, é um facilitador para o comércio ilegal. “É difícil a vigilância e a fiscalização fronteiriça entre esses rios, o que atrai a atividades ilícitas que usam os rios como rotas para o envio ilegal de mercadorias entre os países.”

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