Marcio de Freitas: Política no Brasil é como jogar xadrez com pedras

A política brasileira atual tem se tornado um jogo de xadrez em que o vencedor é aquele que atira a maior pedra sobre o adversário, e o derruba

Por Márcio de Freitas*

A política brasileira atual parece ter se tornado um jogo de xadrez onde ganha quem atira a maior peça sobre o adversário, e o derruba. Literalmente. É por isso que o movimento do ex-presidente Michel Temer de sugerir uma carta reposicionando o presidente Jair Bolsonaro surpreendeu e mudou as expectativas dos vários atores institucionais e da mídia. Foi tudo feito à moda antiga.

Não que Temer tenha agradado a gregos e troianos. Pelo contrário. Quem já via o processo de impeachment escalar as manchetes ficou decepcionado. As vivandeiras do golpe guardaram os fuzis com ranger de dentes. Ambos preferem o tacape como arma de convencimento, e vão tentar usá-lo na primeira oportunidade. De um lado, e do outro idem. A conciliação e o diálogo têm sido embotados pelos usos cada vez mais agressivos dos gritos impositivos.

Há hoje uma incompreensão generalizada na política brasileira. Um radicalismo surdo, que se nega a ouvir ou entender o outro. Mesmo que não sejam adversários. Até aliados ou pessoas com perfis semelhantes adotam a intransigência como instrumento de doutrinação e ação política.

O processo político é normalmente baseado na competição entre partes. É inerente ao sistema. Absorver e administrar essa competição com mecanismos legais foi a grande obra dos artífices do Estado moderno, democrático. Jogar essa obra no lixo é um grande desperdício. Mas é isso que temos feito no Brasil. E contra ensinamentos centenários.

“Não devem existir párias em uma sociedade adulta e civilizada (…) As pessoas que, sem consulta prévia, se apoderam de poderes ilimitados sobre os destinos dos outros degradam os seus semelhantes”, pontuou John Stuart Mill, um profeta do liberalismo. Essa citação pode ser facilmente encontrada, até mesmo nos melhores esconderijos do México.

Ou vamos de Rousseau: “O corpo político, tal como o corpo do homem, começa a morrer desde o seu nascimento e traz em si mesmo causas de sua destruição. Mas um e outro podem ter uma constituição mais ou menos robusta e capaz de conservá-lo por mais ou menos tempo. A constituição do homem é obra da natureza, a do Estado, obra de arte”. Jogar o sistema atual todo no lixo, seja por vaidade, rancor ou ódio é suicídio coletivo.

Há uma gama de personagens que ignoram esses ensinamentos. Mas sempre há tempo para um pouco de História e leitura. E há personagens que preferem jogar xadrez com movimentos calculados. Ainda bem.

*Márcio de Freitas é analista político da FSB Comunicação

Este é um conteúdo da Bússola, parceria entre a FSB Comunicação e a Exame. O texto não reflete necessariamente a opinião da Exame.

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