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Márcio de Freitas: O veto do eleitor no segundo turno

Evitar o retorno do PT ou a continuidade de Bolsonaro é o que impele a propaganda e os movimentos dos grupos partidários neste outubro seco em Brasília

O mercado aposta mais no Jair de bolso, mas vê alternativa também num Lula domesticado (Dado Galdieri/Bloomberg)

O mercado aposta mais no Jair de bolso, mas vê alternativa também num Lula domesticado (Dado Galdieri/Bloomberg)

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Márcio de Freitas*

21 de outubro de 2022, 12h55

O voto virou veto no segundo turno da eleição. Não se trata mais de escolher o candidato dos sonhos para tornar palpável o país que se idealiza no futuro. Mas trata-se de evitar que se concretize um nome não desejado no comando do país. Evitar o retorno do PT ou a continuidade de Jair Bolsonaro é o que impele a propaganda e os movimentos dos grupos partidários neste outubro seco em Brasília, e ainda mais árido no horário político nacional.

Para se obter o veto desejado é necessário olhar para trás e despejar sobre o eleitor os defeitos do adversário; todos eles: os reais, os falados e mais alguns imaginados e principalmente os fantasiados na mitologia ancestral do medo, esse fator que fala fundo no inconsciente coletivo do ser humano. Fala-se mal a todo instante do concorrente, pintado como o diabo em carnes e cores berrantes. A desconstrução total é a arma para demolir qualquer imagem positiva, neutra e ainda aumentar os aspectos negativos conhecidos.

Ao final da campanha, o campo da destruição terá abrangido os últimos 20 ou 30 anos de história do país, do qual restará em pé somente alguma árvore calcinada pelo fogo do marketing eleitoral devastador. O tsunami mútuo de ódio terá varrido todos e tudo à sua passagem.

Dura a vida de quem se pensa no pós-eleição. O que erguer depois com os destroços de um país dividido? Há disposição para unir esforços nesse sentido? Ou a luta continuará, inimigo querido?

O mercado aposta mais no Jair de bolso, mas vê alternativa também num Lula domesticado. Os dois tentam se projetar sobre a paisagem desértica de ideias e projetos como salvadores da pátria. Impossível que saiam desses processos com o reconhecimento legítimo integral da outra metade que os rejeita, tal o volume de ódio despejado sobre o outro lado. O ódio a meio país será nossa herança?

Ambos ainda têm um desafio individual nesta etapa. Bolsonaro precisa convencer quem o vetou no primeiro turno e escolheu outro candidato a votar nele neste segundo turno, eleitores de Ciro Gomes e Simone Tebet que, bem ou mal (no caso de Ciro), declararam apoio ao petista. Ou quem não foi votar a comparecer e vetar Lula. Se conseguir os milhões necessários para igualar a parada e superar o petista, conquistará o direito de ficar no Palácio do Planalto por mais quatro anos.

Lula tem uma tarefa mais simples, mas não menos desafiadora. Tem que atrair quem não votou nele no primeiro turno para ir votar no segundo. São pessoas pobres que se abstiveram por falta de condições de votar (o dinheiro da passagem é valioso na vida dessa gente), e conseguir mostrar que os apoios de Simone e Ciro podem transferir os votos que lhe faltaram no primeiro turno.

Sobre a abstenção, a tendência é sempre aumentar no segundo turno - mesmo que pouco. Os petistas mapearam o país e verificaram que há onde garimpar bons veios desse eleitorado: a capital São Paulo teve quase dois milhões de eleitores que se abstiveram, e a tendência é vermelha. Se comparecerem, a maioria irá vetar Bolsonaro – esperam os lulistas.

Eleitores da Bahia são outros 2,5 milhões, e o PT tem a máquina do governo estadual para ajudar mais gente a chegar a ponto de veto a Bolsonaro. Há ainda Minas, ou havia… pois o governador Romeu Zema (Novo) usa velhos artifícios para crescer votos para Bolsonaro e vetar o retorno do PT.

O presidente Bolsonaro organiza os evangélicos num santo veto a Lula, que chegou a eles tardiamente na condição de missivista numa carta em que, tal como Saulo, se apresenta convertido em Paulo e jura fidelidade bíblica ao cristianismo protestante.

Num caos tão profano como o dessa eleição, só resta a esperança de que, após o pleito, haja muita penitência para os pecados cometidos em nome do laico Estado democrático de direito, com perdão civil para os inocentes e punição legal aos culpados.

*Márcio de Freitas é analista político da FSB Comunicação

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