Honrar vítimas da covid-19 pode ser o caminho para um futuro melhor

A solução das crises nacionais passa por assumir os problemas, aceitar as responsabilidades e buscar ajuda

Existem países que são modelos de superação em graves crises. A Finlândia ficou espremida entre o comunismo da URSS e nazismo de Hitler na segunda guerra mundial. Suas fronteiras foram invadidas em 1949 pelos soviéticos, com força mais equipada e quase cinco vezes mais homens. E o país venceu sozinho a primeira tentativa de invasão com o inverno ajudando a conter o exército de Stalin.

A falta de armamento levou à invenção do coquetel molotov, jogado nos tanques inimigos enquanto se atirava com fuzis e revólveres pelas frestas e pelos canos dos canhões para tentar eliminar os agressores. Essas forças de ataque aos veículos eram quase suicidas, cerca de 70% dos finlandeses que enfrentavam os blindados russos morriam. Era uma guerra para salvar o país, sem nenhum aliado que ajudasse de qualquer forma prática.

Por isso, a Finlândia acabou sendo um parceiro inusitado da Alemanha quando Hitler atacou os russos um ano depois, e a guerra contra Stalin foi retomada.

Mas na batalha de Leningrado, contudo, mantiveram-se distantes apesar da posição geoestratégica próxima ao conflito – já que poderiam atacar no outro flanco. Poderiam ter ajudado a derrotar a URSS. Só assistiram. Ao fazer um pacto com os aliados ocidentais contra o Eixo, Stalin pediu um sinal de fidelidade por meio de um bombardeio da Inglaterra à cidade finlandesa de Turku. Nunca a RAF teve pontaria tão ruim, todas as bombas acertaram o mar. Enquanto isso, Winston Churchill bebia um champanhe sem dor na consciência…

A guerra virou. Stalin anotou no seu caderno a imobilidade em relação a Leningrado (São Petersburgo) e fez um tratado com a pequena Finlândia, de onde tirou tudo que podia, mas preservou grande parte do território, e não invadiu o país, como fez com vários outros Estados vizinhos ao criar o que se chamou depois de Cortina de Ferro.

Durante anos, a Finlândia manteve bom relacionamento com a URSS, e com o Ocidente. Sem se associar ao comunismo de Moscou, nem ao ouro liberal do Tio Sam. Construiu um dos países com o melhor grau de desenvolvimento humano do mundo, tecnologia de ponta e justiça social de primeira.

Numa época em que o Brasil exorta oficialmente tempos de ferro, e Joe Biden mostra toda a capacidade de dar respostas estatais no país que iluminou os liberais durante décadas, a Finlândia é um exemplo de caminho do meio. Encontrou o equilíbrio pragmático, muitas vezes engolindo o orgulho para não ofender o vizinho poderoso, mas sabendo sempre que tinha que encontrar outros caminhos para fazer bons negócios pelo mundo.

No livro "Reviravolta, como indivíduos e nações bem-sucedidas se recuperam de crises”, Jared Diamond conta um pouco a história da Finlândia. É fascinante. E ele enumera uma série de itens para vencer crises nacionais.

Como o Brasil tornou crises o parâmetro da normalidade, é bom passar os olhos nas páginas para tentar encontrar alguma luz no fim do túnel. Um conselho claro é: é importante (para indivíduos e nações) aceitar a responsabilidade por fazer algo, em vez de se ver como vítima passiva e indefesa; delinear a crise; buscar por ajuda; e o aprender a partir de modelos.

Diamond lista 12 fatores relacionados aos resultados das crises nacionais. Aqui vão apenas alguns: consenso nacional de que a nação está em crise, aceitação da responsabilidade nacional de fazer algo, construção de uma cerca para delinear os problemas nacionais que precisam ser solucionados, adoção dos modelos de soluções de outras nações, honesta autoavaliação, flexibilidade nacional específica à situação.

Ora, se avaliarmos o quadro brasileiro, veremos que, depois de mais de um ano de pandemia e quase 325 mil mortos, começamos a admitir alguns problemas. Faltam vários da lista ainda. E, claro, temos uma usina de fabricação de outros, mas se começarmos por endereçar os parâmetros corretos, daqui a pouco poderemos aprimorar muito o modelo de Diamond.

A Finlândia até hoje honra os heróis que enfrentaram os soviéticos. Devemos começar a pensar em honrar as vítimas da covid-19. Talvez seja um começo para encontrar um caminho melhor para o futuro do Brasil. Se não pelos vivos, ao menos pelos mortos.

*Márcio de Freitas é analista Político da FSB Comunicação.

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