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Glaucia Guarcello: a criatividade é superestimada na inovação

O que diferencia invenções de inovações é a materialização do resultado econômico

A inovação precisa ser praticável (baramee2554/Thinkstock)

A inovação precisa ser praticável (baramee2554/Thinkstock)

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Glaucia Guarcello*

17 de outubro de 2022, 16h53

A criatividade é parte do processo de inovação. Ela representa a nossa capacidade de criar, imaginar e presumir novas soluções. Sabemos que a forma como somos criados e educados ao longo dos anos acaba diminuindo a nossa capacidade criativa. De fato, crianças são muito mais criativas que adultos.

Diferentemente do que muitos creem, criatividade não é um dom ou uma capacidade restrita a poucas pessoas. Ela é uma característica humana inata e é passível de desenvolvimento. Todos somos criativos e as metodologias de ideação são ótimas ferramentas no fomento à expressão da criatividade.

Porém, o que diferencia invenções de inovações é justamente a materialização do resultado econômico. Não existe inovação sem valor criado para o usuário. Em inovação, a menor e a mais simples parte do trabalho é ter boas ideias, que são praticamente commodities, espalhadas em todos os seres humanos. Já a parte difícil consiste em desenvolver e implementar estas ideias em um mercado endereçado e disposto a pagar por elas. Em outras palavras, a inovação é a criatividade que emite nota fiscal, como diria Murilo Gun.

O sweet spot ou ponto ideal da inovação é quando encontramos, ao mesmo tempo, três componentes em uma dada ideia: ela precisa ser praticável (possuir tecnologias e recursos existentes ou próximos de existirem para serem exequíveis), desejável (possuir mercado foco com demanda real ou potencial relevante) e viável (existir um modelo de negócios que pare a ideia de pé).

Se a criatividade é apenas uma pequena parte do processo inovativo, por que a valorizamos tanto?

Sugiro algumas causas baseadas nos meus anos liderando e apoiando programas corporativos de inovação: porque existe um prazer e glamour maior nas geração de ideias do que na implementação disciplinada, pois tudo é possível no mundo das ideias e, principalmente, porque não lidamos com as restrições e resistências à inovação ainda nos estágios de ideação. Por consequência, muitos programas e processos de inovação corporativa enchem o pipeline de possibilidades e poucos demonstram com sucesso a criação de novos produtos, serviços, negócios e retorno ao investimento consistente e alavancador da estratégia empresarial.

O maior risco desta supervalorização das ideias é a crença de que elas são mais relevantes que a implementação. Acabamos desenvolvendo programas corporativos que buscam ideias, hackathons, brainstormings e, na melhor das hipóteses, pilotos ou mínimos produtos viáveis. Mas ainda pecamos muito no foco da escala, que é onde a inovação se torna um fato e a viabilidade é comprovada. Devemos desenhar mais programas que buscam escala do que os que visam apenas ideias.

Criou-se a crença de que inovação não deve ser medida e gerida com processos disciplinados, simplesmente porque uma etapa do processo inovativo consiste em criar e que a utilização de processos de gestão poderia minar a criatividade.

Inovação de fato, esta que cria resultados em escala, é sempre complexa e de difícil execução. Sem uma gestão clara e estruturada de criação e captura de valor, o ponto ideal da inovação (praticável, desejável e viável) pode nunca ser alcançado, o que potencialmente pode ser uma das razões de insucesso e, consequente, de descontinuidade dos programas corporativos de inovação.

Criatividade é parte deste processo, mas está longe de ser a parte mais relevante!

*Glaucia Guarcello é professora do Núcleo de Inovação e Empreendedorismo da FDC e sócia-líder de Inovação da Deloitte

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