A conservação florestal na América Latina é estratégica para a agenda climática e o ESG global (Fejaga/Shutterstock)
Diretor-geral da Beon - Colunista Bússola
Publicado em 5 de agosto de 2026 às 15h00.
A agenda climática atravessa um momento de perigosa turbulência. No Norte Global, observa-se um movimento de recuos pontuais, mas significativos, impulsionado por pressões políticas internas, resistências regulatórias e pela ascensão do discurso anti-ESG.
Governos e corporações em economias desenvolvidas têm recalibrado suas metas ambientais, postergado compromissos de descarbonização e buscado proteger setores tradicionais em resposta a volatilidades econômicas e eleitorais.
O cenário abre uma oportunidade histórica e estratégica para que países da América Latina assumam de forma pragmática a liderança na ação climática mundial.
A base empírica e política para essa virada de protagonismo está detalhada no relatório Forests of Latin America, elaborado por organizações da sociedade civil da região e submetido à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC).
O documento evidencia que a região guarda a chave para a estabilidade do clima do planeta.
Afinal, 23% das florestas do mundo estão espalhadas por 47% de seu território, congregando ecossistemas vitais para a mitigação global de emissões, regulação do ciclo hídrico, conservação da biodiversidade e manutenção da meta do Acordo de Paris de limitar o aquecimento a 1,5 °C.
Apesar dessa incomparável riqueza de capital natural, o diagnóstico do relatório expõe uma vulnerabilidade que não pode ser ignorada.
A América do Sul lidera as taxas mundiais de perda líquida de florestas, com taxa anual de cerca de 4,1 milhões de hectares.
Mais alarmante ainda é a constatação de que aproximadamente 88% do desmatamento atrelado ao cultivo de commodities agrícolas na região ocorre em contexto de ilegalidade.
Sob a ótica da gestão de riscos corporativos e soberanos, esse é um risco sistêmico de grandes proporções.
Trata-se, afinal, de uma degradação da resiliência das cadeias de suprimento, de ameaças diretas à segurança alimentar e hídrica e de perda de atratividade para investimentos internacionais.
Transformar essa vulnerabilidade em vantagem competitiva exige que a América Latina posicione suas florestas no centro das estratégias globais de desenvolvimento sustentável.
O relatório da sociedade civil oferece um mapa deste processo, articulado em pilares que dialogam com as demandas modernas do mercado internacional.
O primeiro pilar consiste no fortalecimento dos direitos territoriais dos povos indígenas e comunidades tradicionais.
Dados consolidados demonstram que áreas sob gestão e posse dessas populações apresentam taxas de desmatamento substancialmente menores.
Proteger esses territórios e garantir a integridade física dos defensores é dever ético e social, mas também uma solução de conservação florestal custo-efetiva e juridicamente sólida.
O segundo pilar aborda a transformação das cadeias de valor agrícolas e florestais.
A implementação rigorosa de sistemas de rastreabilidade e o combate aos ilícitos ambientais são requisitos de acesso a mercados.
À medida que grandes blocos econômicos elevam as exigências contra o desmatamento importado, produtores e países latino-americanos que se anteciparem em certificar a integridade socioambiental de suas exportações garantirão uma posição de destaque no comércio global.
Por fim, o relatório destaca a urgência de alinhar os fluxos financeiros internacionais com a preservação.
Atualmente, o volume de investimentos e subsídios direcionados a atividades potencialmente destrutivas supera por margens colossais os recursos destinados à conservação e restauração florestal.
Ao estruturar mecanismos robustos de pagamento por serviços ambientais, incentivos ao blended finance e soluções bioeconômicas escaláveis, a América Latina poderá ganhar autoridade moral e econômica para cobrar do mercado financeiro internacional o redirecionamento efetivo do capital público e privado.
A liderança em sustentabilidade não se consolida em momentos de bonança, mas justamente quando os atores tradicionais recuam diante das dificuldades de percurso.
Diante dos vaivéns regulatórios e políticos do Norte, a América Latina possui os ativos para demonstrar que a conservação florestal e o desenvolvimento econômico são agendas indissociáveis.
Assumir o leme da transição climática global é, portanto, o caminho mais seguro para garantir a prosperidade socioambiental e a relevância geopolítica da região nas próximas décadas.