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Gestão Sustentável: A janela histórica para a liderança climática latino-americana

Apesar dos recuos no Norte Global, a região tem os recursos naturais necessários para comandar a transição ecológica e atrair investimentos verdes

A conservação florestal na América Latina é estratégica para a agenda climática e o ESG global (Fejaga/Shutterstock)

A conservação florestal na América Latina é estratégica para a agenda climática e o ESG global (Fejaga/Shutterstock)

Danilo Maeda
Danilo Maeda

Diretor-geral da Beon - Colunista Bússola

Publicado em 5 de agosto de 2026 às 15h00.

A agenda climática atravessa um momento de perigosa turbulência. No Norte Global, observa-se um movimento de recuos pontuais, mas significativos, impulsionado por pressões políticas internas, resistências regulatórias e pela ascensão do discurso anti-ESG.

Governos e corporações em economias desenvolvidas têm recalibrado suas metas ambientais, postergado compromissos de descarbonização e buscado proteger setores tradicionais em resposta a volatilidades econômicas e eleitorais.

Oportunidade histórica para a América Latina

O cenário abre uma oportunidade histórica e estratégica para que países da América Latina assumam de forma pragmática a liderança na ação climática mundial.

A base empírica e política para essa virada de protagonismo está detalhada no relatório Forests of Latin America, elaborado por organizações da sociedade civil da região e submetido à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC).

O documento evidencia que a região guarda a chave para a estabilidade do clima do planeta.

Afinal, 23% das florestas do mundo estão espalhadas por 47% de seu território, congregando ecossistemas vitais para a mitigação global de emissões, regulação do ciclo hídrico, conservação da biodiversidade e manutenção da meta do Acordo de Paris de limitar o aquecimento a 1,5 °C.

O risco sistêmico do desmatamento ilegal

Apesar dessa incomparável riqueza de capital natural, o diagnóstico do relatório expõe uma vulnerabilidade que não pode ser ignorada.

A América do Sul lidera as taxas mundiais de perda líquida de florestas, com taxa anual de cerca de 4,1 milhões de hectares.

Mais alarmante ainda é a constatação de que aproximadamente 88% do desmatamento atrelado ao cultivo de commodities agrícolas na região ocorre em contexto de ilegalidade.

Sob a ótica da gestão de riscos corporativos e soberanos, esse é um risco sistêmico de grandes proporções.

Trata-se, afinal, de uma degradação da resiliência das cadeias de suprimento, de ameaças diretas à segurança alimentar e hídrica e de perda de atratividade para investimentos internacionais.

Pilares para o desenvolvimento sustentável

Transformar essa vulnerabilidade em vantagem competitiva exige que a América Latina posicione suas florestas no centro das estratégias globais de desenvolvimento sustentável.

O relatório da sociedade civil oferece um mapa deste processo, articulado em pilares que dialogam com as demandas modernas do mercado internacional.

O primeiro pilar consiste no fortalecimento dos direitos territoriais dos povos indígenas e comunidades tradicionais.

Dados consolidados demonstram que áreas sob gestão e posse dessas populações apresentam taxas de desmatamento substancialmente menores.

Proteger esses territórios e garantir a integridade física dos defensores é dever ético e social, mas também uma solução de conservação florestal custo-efetiva e juridicamente sólida.

Exigências e novos mercados internacionais

O segundo pilar aborda a transformação das cadeias de valor agrícolas e florestais.

A implementação rigorosa de sistemas de rastreabilidade e o combate aos ilícitos ambientais são requisitos de acesso a mercados.

À medida que grandes blocos econômicos elevam as exigências contra o desmatamento importado, produtores e países latino-americanos que se anteciparem em certificar a integridade socioambiental de suas exportações garantirão uma posição de destaque no comércio global.

Financiamento e conservação andam juntos

Por fim, o relatório destaca a urgência de alinhar os fluxos financeiros internacionais com a preservação.

Atualmente, o volume de investimentos e subsídios direcionados a atividades potencialmente destrutivas supera por margens colossais os recursos destinados à conservação e restauração florestal.

Ao estruturar mecanismos robustos de pagamento por serviços ambientais, incentivos ao blended finance e soluções bioeconômicas escaláveis, a América Latina poderá ganhar autoridade moral e econômica para cobrar do mercado financeiro internacional o redirecionamento efetivo do capital público e privado.

A consolidação da liderança verde

A liderança em sustentabilidade não se consolida em momentos de bonança, mas justamente quando os atores tradicionais recuam diante das dificuldades de percurso.

Diante dos vaivéns regulatórios e políticos do Norte, a América Latina possui os ativos para demonstrar que a conservação florestal e o desenvolvimento econômico são agendas indissociáveis.

Assumir o leme da transição climática global é, portanto, o caminho mais seguro para garantir a prosperidade socioambiental e a relevância geopolítica da região nas próximas décadas.

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