Geekonomy: Diversidade inofensiva para a todos agradar ainda funciona?

Indústria de entretenimento se mostra como aliada da diversidade e da inclusão sem perder a preocupação com o público conservador e o acionista sensível

Por Cauê Madeira *

Acabou junho. Com isso, cessaram as bandeiras de arco-íris na grande maioria das empresas e instituições. Para muitas, o mês da luta LGBTQIA+ é apenas mais uma data comercial em seu calendário de efemérides. Enquanto isso, na indústria de entretenimento, a representatividade desse público em filmes, séries e games parece ter alcançado um equilíbrio entre o easter-egg e a ofensa dos mais conservadores.

A fórmula é simples: dê a entender que um casal de coadjuvantes é parte da comunidade LGBTQIA+ (sem prejudicar a história principal), mantenha o beijo romântico heteronormativo da mocinha e do mocinho e mergulhe na piscina do pink money e do white conservative money simultaneamente (contém ironia).

É tipo o gato de Schrödinger aplicado à diversidade na cultura pop: ao mesmo tempo representativa e não-representativa, como o paradoxo mental proposto pelo físico austríaco, em que um hipotético gato encerrado em uma caixa não estaria apenas vivo ou morto, mas sim vivo e morto ao mesmo tempo.

A internet foi abaixo algumas semanas atrás quando (olha o spoiler!) Loki meio que se revelou bissexual em sua série homônima na Disney+. Ele não beijou um homem, não se apaixonou pelo Hulk, não saiu montada como uma drag babadeira. Ele simplesmente declarou, em uma frase de meio segundo, que é "um pouco dos dois" ao ser indagado se seria um príncipe ou uma princesa.

Há que se destacar, ainda, a confusão entre gênero e orientação sexual aqui. Os títulos caça-cliques adoraram dar o furo sobre a suposta bissexualidade do personagem quando, no máximo, indica uma potencial fluidez de gênero, ainda que de forma completamente superficial. Uma migalha de representatividade. Diversidade de Schrödinger em potência máxima. Até porque, embora seja todo desconstruidão, o interesse romântico do personagem na série é, afinal, uma mulher.

Ah, mas a Kate Herron – diretora da série – confirmou que ele realmente é bi. E daí? Isso me lembrou quando JK Rowling – a autora de Harry Potter que recentemente tem se destacado por suas opiniões transfóbicas – revelou que o personagem Dumbledore seria gay. Diversidade de Schrödinger de novo, porque não há qualquer indicativo disso na obra. Mas à época foi um bombardeio de palmas progressistas.

Já não é novidade para ninguém que a diversidade melhora os indicadores e a performance financeiras das empresas. Ainda assim, somos diariamente bombardeados pelo bordão "quem lacra, não lucra". Ano passado, aliás, a máxima virou uma bem bolada e irônica campanha do Burger King no Dia Mundial do Orgulho LGBTQIA+ 2020 (que realmente deixava de "lucrar" ao destinar 100% do lucro líquido de venda de seus lanches para associações de apoio à causa).

Representatividade é lucrativa, sim. Em uma análise mais simples, no mínimo você alcança mais e mais pessoas a cada vez que desenvolve personagens negros, idosos, com deficiência. É inclusivo, faz jus à realidade e é um reflexo da transformação do nosso tempo. Mas não adianta ser inclusivo da porta pra fora e excludente da porta pra dentro. É preciso que as equipes sejam compostas com a mesma preocupação representativa. E não apenas em quem bota a mão na massa de fato, mas entre os executivos, produtores e investidores também.

É claro que eu acho legal quando vejo um casal de mulheres lésbicas se beijando no fundo, no canto da tela, escondidas e meio borradas em uma cena de celebração após o fim da guerra no Episódio IX de Star Wars. Acho legal porque é um easter egg, ou seja, algo que foi escondido ali na obra para apenas os espectadores mais observadores notarem. Mas isso, de longe, não resolve a questão de representatividade e inclusão que sempre foi um problema na série de filmes, ainda que, pelo menos nessa nova trilogia, os protagonistas sejam um homem negro, um latino e uma mulher.

O cinema sempre foi um pouco mais conservador do que as HQs e as séries. Pudera, envolve mais dinheiro. É notório, também, que o excesso de pudor e ressalvas dos grandes executivos acabaram por levar ao público um sem número de obras sem graça, cinzas e sem o menor tempero. Vide a Liga da Justiça, que após uma série de decisões ruins, algumas tretas de bastidores e troca de diretor resultou em um filme morníssimo. Mais recentemente, lançaram a versão do Zack Snyder, que originalmente pensou a obra.

Enquanto isso, a representatividade nos desenhos animados cresceu consideravelmente na última década. Pela Netflix, no mais recente remake do desenho She-Ra, dos anos 80, duas princesas lésbicas se beijaram na tela. Enquanto isso, Steven Universo, título do Cartoon Network que já trazia a discussão de diversidade em suas tramas, contou com o casamento de duas personagens femininas, Rubi e Safira, em 2018. À época, a criadora e roteirista da obra Rebecca Sugar declarou: "Nós não podemos esperar até que uma criança cresça para dizer que ela existe e que a história dela é importante".

Nas HQs há uma penca de personagens LGBTQIA+. Uns 20 que eu lembro de cabeça, passando por alguns mais famosinhos como Homem de Gelo, Mística, Deadpool, Mulher Maravilha, Valquíria, Estrela Polar e Colossus.

Destaco também dois longas recentes que, de certa forma, abordaram a temática. No primeiro, A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas, também disponível na Netflix, a protagonista assume um relacionamento – um primeiro amor adolescente – com uma menina. A abordagem não é forçada nem panfletária. É feita com cuidado, carinho e cautela. Mas é representativo e respeitoso, não é só um easter-egg na tela – embora eles existam e sejam muito bem feitos. Aqui o Schrödinger passou longe, porque o gato sem sombra de dúvidas está todo pintado nas cores do arco-íris.

Outro é Luca, o último da Pixar. Embora não seja uma trama que fale sobre romances e relacionamentos amorosos (inclusive, o diretor declarou que a amizade dos protagonistas não se trata de um romance infantil), ela toca em temáticas muito pertinentes à vivência de crianças LGBTQIA+: contexto de intolerância, sentimento de não pertencer ao mundo marinho, de rejeitarem as expectativas da família e precisar esconder sua verdadeira natureza para ser aceito socialmente.

É uma história sobre representatividade. E ainda que o diretor tenha escolhido bem as palavras para fugir da polêmica, não tem como não se emocionar quando um dos personagens conclui a história com a fala de que “algumas pessoas nunca vão aceitá-lo, mas outras vão, e ele parece ser muito bom em encontrá-las”. Falem o que quiserem, mas esse gato de Schrödinger está coberto de purpurina.

*Cauê Madeira é sócio-diretor da Loures Consultoria

Este é um conteúdo da Bússola, parceria entre a FSB Comunicação e a Exame. O texto não reflete necessariamente a opinião da Exame.

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