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Faria Lima: Olhar humano para os que habitam uma avenida em evolução

Que a Faria Lima tenha uma alma encantadora e que suas empresas e “gentes” olhem cada vez mais para o humano
Falta colocar esse olhar de quem passeia pelas ruas para descobrir o outro, para sentir e aprender com as diferenças (Germano Lüders/Exame)
Falta colocar esse olhar de quem passeia pelas ruas para descobrir o outro, para sentir e aprender com as diferenças (Germano Lüders/Exame)
Por BússolaPublicado em 17/05/2022 17:20 | Última atualização em 17/05/2022 15:34Tempo de Leitura: 5 min de leitura

Por Adriano Lima*

Como é que se humaniza uma rua? É uma pergunta difícil, uma vez que nela, a rua, existem vários tipos de humanos. Talvez, a questão não esteja na via pública em si, mas em quem nela transita. Muito além do que tornar uma avenida, rua, viela ou beco em algo humanizado, é mais interessante humanizar ainda mais os próprios humanos que interagem ou apenas passam por esses espaços.

É muita humanização em um só parágrafo, não? Sim e é proposital.

Nas minhas caminhadas ou pedaladas pela avenida Faria Lima, na capital paulista, aproveito para bancar o flâneur, aquele que observa sem amarras, que aproveita o passeio para descobrir, sem necessidade de atingir um único objetivo, a não ser o de descobrir o que vai se colocando em sua frente.

Eu, nascido no Rio de Janeiro, na Baixada Fluminense, ao vagar pelos quase cinco quilômetros dessa avenida, ou “condado”, como chamam, até pareço reviver os passeios e olhares de outro carioca, no início do século 20. Falo de João do Rio, que lançou, em 1908, o livro “A alma encantadora das ruas”, uma coleção de suas crônicas, publicada em jornais da cidade entre 1904 e 1907.

Mas que caminho o Waze do tempo me guia até esse outro tempo? Assim como a Faria Lima representa a mudança, o novo, o moderno, o livro de João do Rio representa em forma de texto a reforma levada a cabo pelo prefeito daquela cidade, Pereira Passos, a fim de construir uma nova capital. Apelidado de “bota abaixo”, Pereira Passos talvez tenha se inspirado no que havia sido feito em Paris, tendo o poeta Charles Baudelaire como espectador ou flâneur — tanto que alguns tratam João do Rio como o irmão “carioca” do autor francês.

E o que isso tem a ver com os negócios? Em um mundo BANI (do inglês para frágil, ansioso, não linear e incompreensível), flanar de vez em quando faz muito bem, pois é um bom caminho para estar aberto ao diferente (não necessariamente ao novo). E as ruas... ah! As ruas!

Com elas aprendemos a diversidade que existe. Na mesma Faria Lima das bicicletas, do pessoal de colete correndo para lá e para cá, ou daqueles que preferem ficar num happy hour regado a negroni, coabitam pessoas de hábitos mais simples, como degustar um bom churrasquinho ou tapioca perto da estação de metrô com uma cerveja bem gelada. É o povo executivo, jovem, bom de conta de um lado, e o pessoal que está na correria do dia a dia, que tem a criatividade e a flexibilidade como aliadas do outro, encantando a avenida com várias cores, formas, sonhos e desafios.

Bom de conta, bom de gente

Teve uma época, quando eu estava no Itaú Unibanco, que muitos dos trainees não conseguiam ser promovidos. Para uma empresa, para qualquer empresa, isso significa ter um investimento elevado sem o retorno desejado. Preocupado, fiz uma análise e cheguei a uma conclusão: era muita gente boa de conta, mas ruim de gente. E levei para o “doutor” Roberto Setúbal.

Talvez ele já tivesse dado uma flanada pelo banco ou pelas impressões que estavam no ar, o fato é que ele concordou comigo. A partir daí, trainee bom era quem soubesse fazer conta com a cabeça e com o coração. Em outras palavras, analítico e empático, voltado para negócios e pessoas.

Creio que é isso o que falta um pouco para a Faria Lima, naquela parte que responde por quase 5% da economia da cidade, como li em algum lugar. Nesse “condado”, falta colocar mais conhecimento de gente em quem é craque em conta.

Falta colocar esse olhar de quem passeia pelas ruas para descobrir o outro, para sentir e aprender com as diferenças. Não se trata de partir para uma missão de cunho antropológico.

É uma missão de (re)encontrar a humanidade comum, de exercitar a empatia, de conhecer o outro como ele é e não como nós queremos que seja ou pensamos em como ser. É se preparar para um futuro cada vez mais incerto, mas com uma certeza: o homem cada vez mais é o centro da estratégia, o foco para os números, o ponto de convergência. Esse é o futuro e as empresas e pessoas que não o compreenderem podem encontrar mais desafios pelo caminho.

Que a Faria Lima tenha uma alma encantadora e que suas empresas e “gentes” olhem cada vez mais para o humano. O primeiro passo é flanar: vá para a rua. E se encante!

*Adriano Lima é Global CHRO da Minerva Foods

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