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Por Renato Krausz*

Já repararam como nossa persistente desigualdade social é capaz de produzir um círculo vicioso que beira à crueldade, afeta em cheio a juventude e compromete o nosso futuro como nação? No Brasil, a população de jovens vem caindo. O desemprego entre ela, no entanto, vem crescendo – e isso fica mais grave toda vez que atravessamos crises. Sem emprego, esses jovens não conseguem cursar faculdade, porque não têm como pagar. E muitos terminam fadados a viver de bico, o que torna a desigualdade ainda mais nítida e perene.

Na semana passada conheci uma ONG que foi capaz de perceber rapidamente a ardileza dessas engrenagens e mudou totalmente seu foco de atuação para mexer na raiz do problema. O Instituto Empreeduca nasceu como um cursinho pré-vestibular para jovens em situação vulnerável e, em pouco mais de um ano, se reinventou com foco em empregabilidade.

Como o Instituto Empreeduca surgiu

Tudo começou em 2016, quando a paulistana Poly Giardino dava aulas de empreendedorismo como voluntária numa ONG do Jaguaré, em São Paulo, e lá conheceu três jovens mulheres que queriam fazer faculdade, mas não tinham condições. Poly não viu outra saída senão pagar do próprio bolso um cursinho pré-vestibular para as três. Assim o fez. As três foram aprovadas, em biomedicina, tecnologia e economia. Uma delas entrou em universidade pública. As outras duas cursaram particulares com financiamento estudantil, que passaram a pagar assim que começaram a estagiar. Hoje mudaram totalmente de vida e estão voando em suas carreiras.

Em 2019, ainda na faculdade, as três procuraram Poly para ver como poderiam ajudar mais gente na mesma situação. “Eu tinha acabado de voltar de Moçambique, onde trabalhei num projeto de empreendedorismo para mulheres, e vi que havia chegado a hora de mudar de vez para o terceiro setor”, conta.

Poly, que anteriormente havia sido gerente de marketing em grandes companhias e desde 2015 tinha sua própria empresa, vendeu sua parte para a sócia e começou a preparar a criação de um cursinho para jovens de periferia, o Empreeduca. O embrião foi em 2020, em plena pandemia. Para pagar seus próprios boletos, Poly manteve um trabalho de freelancer como consultora de inovação na Natura. Até que dois empresários, donos do Grupo Tecnoset, decidiram aportar dinheiro na iniciativa, e ela pôde se dedicar integralmente ao novo projeto.

Em 2021, já com estatuto e toda a governança de uma ONG, o Empreeduca teve 123 alunos matriculados, de várias regiões do Brasil, para aulas on-line. Contava com nove professores remunerados e 36 monitores. Trinta e três alunos foram aprovados em diversas faculdades, mas o número que mais chamou a atenção foi o da evasão: 70 deles largaram o curso durante o ano. O time da ONG foi atrás de um por um, para saber os motivos. E qual era o principal? A necessidade de dinheiro para ajudar no orçamento doméstico. Alguns, inclusive, haviam perdido para o coronavírus os familiares que sustentavam a casa.

Poly, então, percebeu que deveria mudar de objetivo. Começou a desenhar projetos de empregabilidade. Hoje o Empreeduca funciona como uma ponte entre jovens de periferia e empresas disposta a abrir vagas para as quais estes jovens historicamente teriam dificuldades de acesso. “Eles chamam de ‘vagas de escritório’”, diz Poly. “São vagas com maior potencial de desenvolvimento de carreira. Nós não trabalhamos com vagas operacionais”, completa.  

Como o Instituto Empreeduca funciona

O Empreeduca atua em recrutamento e seleção, sem dar bola para o que os jovens já sabem. “Focamos nas questões comportamentais e no alinhamento com as funções oferecidas pelas empresas parceiras”, explica Poly. Para encontrá-los, o Empreeduca trabalha com outras ONGs, faz marketing digital em regiões periféricas e boca a boca. Após conseguir uma vaga, o jovem é acompanhado pela ONG por seis meses, com mentorias regulares, que o ajudam a ter um desempenho melhor em seu novo emprego. Há ainda projetos especiais, sob demanda, em que o jovem é capacitado antes da contratação. “Já realizamos capacitações em programação, BI, outbound marketing e suporte técnico”, diz a fundadora.

Os resultados do primeiro ano foram animadores: 68 jovens empregados, com 94% de retenção, e altíssimo índice de satisfação dos gestores – NPS de 90. A moçada tem entre 16 e 26 anos, a maioria (60%) se declara preta e parda e quase metade (45%) veio do Norte ou Nordeste – parte de cidades que simplesmente não têm nenhum tipo de vaga em quase todas as áreas, por exemplo na de programação. A renda familiar per capita média é de R$ 587. Ao ser contratado, em geral, o jovem já passa a deter o maior salário da família. 

Cumprindo a missão de romper o ciclo da pobreza

Iniciativas semelhantes que apoiam contratações cobram da empresa um valor equivalente ao do primeiro salário do indicado para a vaga. O Empreeduca cobra menos. “Nenhum jovem ganha menos de R$ 1.500 por mês. Para empresas apoiadoras, cobramos R$ 650 mensais para a seleção de até seis jovens por ano ou R$ 1.075 mensais para até 12 indicados. “Já geramos mais de 1 milhão em renda para os jovens e suas famílias”, orgulha-se Poly. 

Ao contratar um jovem em situação vulnerável para uma vaga de início de carreira, a empresa contribui para reduzir a desigualdade social, aumenta a diversidade nos quadros, incentiva a inovação e desenvolve novos talentos. “O que fizemos foi um movimento contrário do planejado inicialmente com o cursinho. É importante que o jovem primeiro encontre um emprego digno e que depois possa pagar o cursinho e a faculdade. Um emprego digno rompe o ciclo da pobreza e vira a chave do futuro desses jovens. Isso é transformador.”

O Empreeduca já arregimentou cerca de 20 empresas parceiras e está em busca de outras. Conheci Poly desse modo, ao receber uma mensagem muito bacana dela pelo LinkedIn. Eu respondi que infelizmente não tinha vagas para oferecer, mas que poderia contar a incrível história do Empreeduca neste espaço. Bem, aí está. 

*Renato Krausz é sócio-diretor da Loures Comunicação

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