ESG: A aceleração do “E” pós-Covid

Um dos fundadores da SK Tarpon analisa, em artigo especial para a Bússola, como a crescente preocupação ambiental tem transformado o mundo dos negócios

Algumas vezes, ao longo da história, experimentamos momentos em que a sociedade e as práticas empresariais e institucionais convergiram de forma a se retroalimentar positivamente, gerando potência e evolução nos âmbitos ambientais, sociais e de governança. Quando melhores formas de atuar são recompensadas pela sociedade de maneira pragmática, essa mágica acontece: conflitos se transformam em oportunidades.

Por exemplo, dentro do S (social, do ESG), 20 anos atrás, a Amazon adotou a linha de ser a empresa mais focada no cliente do mundo, abrindo mão da lucratividade. Os acionistas de longo prazo se beneficiaram dessa estratégia pouco óbvia à época e, então, uma das maiores histórias de criação de valor aconteceu. Muitas empresas seguiram o exemplo e hoje tentam colocar o cliente no centro. A sociedade se beneficiou com preços menores, mais escolhas e conveniência.

No Brasil, dentro do G (governança), o Novo Mercado gerou um incentivo concreto para empresas na bolsa de valores pela melhor precificação das ações ao alinhar interesses de acionistas controladores e minoritários, promovendo classe de ações única e criando regras de proteção adicionais. Novas emissões e boa parte das empresas migraram para esse segmento.

Atualmente, a aceleração que estamos vivendo está no “E”, o meio ambiente, em relação à forma como a sociedade começa a recompensar as contrapartidas entre a saúde do planeta e das empresas, bem como dos consumidores. Os desafios econômicos, sociais e de saúde física e mental derivados da pandemia aceleraram tendências pré-existentes na sociedade. Os temores sobre as limitações e a fragilidade da vida foram ainda mais intensificados, os incêndios florestais generalizados em 2020 reforçaram preocupações sobre as mudanças climáticas, e, principalmente, a tecnologia tornou-se mais poderosa e disseminada, criando possibilidades de integrar meio ambiente e crescimento, sustentabilidade e eficiência.

As energias renováveis (eólica e solar) já eram reconhecidas como a melhor fonte para o meio ambiente, mas só recentemente se tornaram mais baratas e eficientes, consequentemente, mais lucrativas. A inovação e a sociedade (consumidores) estão desempenhando um papel fundamental para gerenciar a natureza intermitente das energias renováveis, promovendo uma transição ampla da matriz energética dos países muito antes do esperado.

Criada por nós em 2008, a Omega – maior empresa brasileira de energia renovável – passou oito anos gerando retornos insuficientes quando comparados às alternativas à base de combustíveis fósseis. Isso aconteceu até meados de 2016, quando avanços tecnológicos, a demanda crescente e ganhos de escala permitiram a combinação entre maior retorno e fontes limpas e sustentáveis. Então, aceleramos nossa expansão, quadruplicando a capacidade de geração de energia nos últimos 3 anos, para 2 GW/h por ano.

Lógica semelhante utilizamos para adquirir a Agrivalle recentemente, empresa referência em controles biológicos – produtos alternativos (e complementares) no combate de pragas nas fazendas, reduzindo o uso de agrotóxicos. A utilização de microrganismo, como bactérias e fungos naturais, tem se mostrado não somente superior para a natureza e solo, mas com melhor custo-benefício (menos aplicações e resistência da praga) em um número crescente de culturas e doenças. Com produto melhor, mais fazendeiros adotam as soluções, mais capital é investido em pesquisa e inovação, a oferta se amplia, a venda maior gera mais lucro e o ciclo positivo acontece.

Além de energia renovável e agricultura sustentável, a ecologia está na fronteira de uma ruptura onde a sociedade em breve reconhecerá o valor de biomas, da “floresta em pé”, de forma superior às alternativas no desmatamento, como mineração, agropecuária, urbanização. Isso acontecerá através da aplicação de tecnologias já conhecidas em outros setores como blockchain, IOT e inteligência artificial e na agricultura, como satélites, drones, sensores e softwares de gestão.

Uma contabilidade ambiental confiável, que atribui maior valor ao carbono, biodiversidade, clima, água, solo, ar entre outros fatores, permitirá a empresas, pessoas, proprietários de terra, comunidades, instituições e governos desenvolverem incentivos e canalizarem recursos de uma forma efetiva, preservando a natureza e estimulando sua regeneração. Empresas como Apple, Amazon, Microsoft, Google, além de governos, consumidores e investidores do mundo todo, estão prontos para promover essa transformação, movendo recursos financeiros, tecnológicos e conhecimento para que essa mágica aconteça.

Toda esta aceleração pós covid-19 traz esperança e confiança de um ponto de inflexão para o planeta nos próximos anos. E o Brasil terá papel-chave e uma oportunidade histórica nas mãos.

 

* Zeca Magalhães é cofundador da SK Tarpon

 

Mais da Bússola:

3 perguntas sobre ESG para Stéphane Engelhard, do Carrefour

ESG nas pequenas e médias empresas

ESG: as três letras que estão mudando os investimentos e a comunicação

 

Espera! Tem um presente especial para você.

Uma oferta exclusiva válida apenas nesta Black Friday.

Libere o acesso completo agora mesmo com desconto:

exame digital

R$ 15,90/mês

R$ 6,36/mês

  • Acesse onde e quando quiser.

  • Acesso ilimitado a conteúdos exclusivos sobre macroeconomia, mercados, carreira, empreendedorismo, tecnologia e finanças.
Assine

exame digital + impressa

R$ 44,90/mês

R$ 40,41/mês

  • Acesse onde e quando quiser

  • Acesso ilimitado a conteúdos exclusivos sobre macroeconomia, mercados, carreira, empreendedorismo, tecnologia e finanças.

  • Edição impressa quinzenal.

  • Frete grátis
Assine

Já é assinante? Entre aqui.

Apoie a Exame, por favor desabilite seu Adblock.