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E se novembro resolver se aposentar, o que será da Consciência Negra?

A conscientização da população em relação à população negra não deve se limitar apenas ao um mês do ano

O racismo ainda é uma questão importante no Brasil (Sean_Warren/Getty Images)

O racismo ainda é uma questão importante no Brasil (Sean_Warren/Getty Images)

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Jaime Almeida

29 de novembro de 2022, 13h30

Que bacana esse espaço todo que temos para os temas étnico-raciais no mês de novembro. Todo ano a pauta se renova, são muitos eventos, empresas promovendo a data do dia 20, a semana ou mesmo o mês da Consciência Negra. Viva novembro! E este espaço é de uma importância histórica, pois nunca tivemos tantas oportunidades para tentar abordar temas tão sensíveis que impactam as pessoas negras.

Então passamos o ano inteiro esperando novembro chegar para mais uma vez viver essa riqueza de reflexões sobre as injustiças sociais e raciais que atravessam os 56% de pessoas negras no país. Sim, todas elas, pois, em um extremo está a maioria – dentro do total de 33 milhões de brasileiros que passam fome no país.

Lá no outro extremo, está uma pequena minoria de profissionais negros que conseguiu furar a bolha e chegar no caminho próximo ao topo das empresas, mas chegaram sozinhas, sem outras pessoas negras por perto, amargando o gosto da solidão da negritude nas corporações. E não se pode deixar de reconhecer que há um grupo de empresas – ainda muito pequeno, que faz um trabalho de inclusão incrível, que servem de modelo para as outras empresas que queiram percorrer um caminho parecido.

Seria devaneio querer mais espaço ao longo do ano para as temáticas sobre falta de empregos, salários menores, preconceitos, racismo de diferentes tipos, discriminação no dia a dia, falhas no acesso e na qualidade da educação, violência verbal, física, por vezes de forma letal?

É utópico esperar que pessoas negras estejam em processos de recrutamento e seleção não como tokens, mas sim como profissionais que receberão a oportunidade de desenvolver uma carreira onde exista equidade, igualdade e inclusão?? Em novembro tudo isso parece possível, as matérias na televisão, páginas na web e posts nas redes sociais nos fazem acreditar que tudo pode finalmente rolar.

Mas aí vem o medo e o cansaço. E antes que o leitor fique em dúvida e se pergunte se seria o cansaço da população negra e das pessoas aliadas em seguir lutando por justiça, já esclareço que não. No lugar do cansaço de todas essas pessoas que seguem e seguirão firmes, o medo na verdade é de que Novembro se canse. Se canse por ter em suas costas o peso de concentrar tantas demandas represadas pela ausência de consciência em todos os outros meses.

O medo é de que novembro se canse, pois, por mais que se esforce, não consegue oferecer mais do que 30 dias para resolver essa pendência histórica resultante de agressões e crimes que ocorreram quando? Somente em Novembro? Não, claro que não! Ocorreram em novembro também, e Zumbi dos Palmares que o diga. Mas que aconteceram e ainda acontecem repetidamente em todos os demais meses do ano. Por isso fica um apelo ao mês de Novembro: sabemos de seu cansaço, mas não se aposente, pelo menos não ainda, nós precisamos muito de você!

Ao mesmo tempo, não dá para querer segurar essa aposentadoria pela eternidade, sobretudo de alguém que já trabalhou tanto e que, cansado, já acumula tempo mais que o necessário para requerer o benefício lá no INSS do calendário gregoriano, que teve início em 1.582.

Bem, se a aposentadoria de novembro acontecer, poderíamos tentar engajar os outros 11 meses, vamos fazer um plano? Em dezembro, comemoração da Declaração Universal dos Direitos Humanos, e abrimos opções para os “Black Noéis”, que não chegam de rena e nem entram pelas chaminés, mas chamam pela porta da frente e terão de presente um abraço nas pessoas das casas, pessoas de todas as etnias.

Em Janeiro, começamos o ano novo com a publicação de muitas vagas afirmativas, em todos os níveis hierárquicos. Para sempre isso? É claro que não, será apenas até o momento que tenhamos representatividade nas empresas equiparável aos números da demografia do país. Daí para frente não precisaremos mais de vagas afirmativas.

Em Fevereiro, tem carnaval, que legal. Mas esse será lembrado como o mês em que as escolas de samba apresentaram em seus sambas-enredo dados de progressão da população negra no mercado de trabalho, da não violência contra uma pessoa simplesmente pela cor de sua pele e aí por diante.

Em março, celebramos o mês da Mulher e celebramos quem antes estavam esquecidas, as mulheres negras, que já passam a ocupar posições importantes nas corporações. Não será surpresa para ninguém que também em março, no dia 21, se celebre o dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial. Quando começar abril, já no dia 1º, será cravado na mídia em geral que é mentira histórica a desinformação de que uma raça seja superior a outra. A ciência já fez sua parte provando a igualdade entre seres humanos, já passou a hora de cessar com essa mentira tosca.

Em maio vamos comemorar o mês do trabalho, do trabalho de todas as pessoas, inclusive das pessoas negras. Mas não vamos celebrar o dia 13 porque a “tal abolição” não está concluída até hoje. E quando junho chegar seguiremos com o grande feriado cristão, mas também comemoraremos a liberdade para todas as religiões incluindo as de matrizes africanas.

Bom, em julho teremos as férias escolares e todas as crianças poderão se reunir para o lazer e diversão. Famílias negras terão condições dignas de sair com suas crianças para viajar, para ir ao cinema. No dia 25, o dia delas: celebraremos o dia da Mulher Afro-Latina-americana e Caribenha.

No dia 3 de agosto, abrimos o mês festejando o dia da Capoeira e vinte dias depois trazemos à memória o Dia Internacional de Lembrança do Tráfico de Pessoas Escravizadas e da sua Abolição. E quando setembro, chegar vamos refletir seriamente sobre o que fazer no dia 7, porque comemorar independência do país que manteve o regime da escravidão por tantos anos, não vai colar.

Finalmente receberemos Outubro para comemorar o Dia das Crianças. E que alegria será ver cada uma delas, seja ela branca, negra, indígena ou amarela, com um sorriso no rosto e expectativa de vida decente. No dia 15, vamos comemorar, olhando para salas de aulas com mais professores negros, que aprenderam em suas jornadas e agora desfrutam o momento de compartilhar.

Com esse novo equilíbrio ao longo do ano, talvez novembro nem queira mais se aposentar, talvez comece a trabalhar meio período ou queira até seguir em tempo integral, mas em modelo híbrido e com short Friday.

*Jaime Almeida é sócio e diretor de Diversidade e Inclusão da Fesa Group

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