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Danilo Maeda: E fora do LinkedIn, tá tudo bem?

Apesar da animação com o Metaverso, o mundo físico (no qual as pessoas sentem coisas como calor e fome) ainda é fundamental
Tempo é curto e o mundo precisa de resultados e mudanças reais (Edward Smith/Getty Images/Getty Images)
Tempo é curto e o mundo precisa de resultados e mudanças reais (Edward Smith/Getty Images/Getty Images)
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BússolaPublicado em 30/11/2021 às 15:29.

Por Danilo Maeda*

Final de ano é tipicamente um período de planejamento e projeções para o próximo ciclo. E apesar da animação com o Metaverso, o mundo físico (no qual as pessoas sentem coisas como calor e fome) ainda é fundamental. Pensando nisso, disponibilizo abaixo um guia prático para quem deseja projetar uma imagem engajada e positiva, mas tem preguiça de pensar em aspectos técnicos — também conhecidos como realidade. Se sua organização está refletida em algum dos cenários a seguir, é recomendável refletir sobre a estratégia e incluir compromissos que vão além do discurso. O tempo é curto e o mundo precisa de resultados e mudanças reais.

1-Nas redes sociais: Seremos net zero em emissões de gases do efeito estufa até 2050 (ou 2040); Na realidade: Não há qualquer ideia de como chegar lá. Enquanto não existe um plano específico, as coisas ficam como estavam, sem metas intermediárias e com melhorias apenas pontuais.

2-Nas redes sociais: Posts sobre diversidade e equidade em datas especiais para a luta de populações minorizadas.

Na realidade: Liderança com perfil homogêneo e cultura permissiva com preconceito recreativo. Casos de assédio são escondidos e não geram investigações ou mudanças estruturais.

3-Nas redes sociais: Somos líderes na promoção de uma cadeia de valor sustentável, com exigência de boas práticas ESG para nossos fornecedores.

Na realidade: Pagamento aos prestadores de serviços é feito com prazos de no mínimo quatro meses após a prestação de serviços. Mas às vezes leva-se até seis ou mais meses, sem juros ou correções.

4-Nas redes sociais: Queremos participar da construção de um futuro mais sustentável para a empresa, para o planeta e para a sociedade.

Na realidade: Organização cuida dos impactos diretos e investe em projetos pontuais, mas não participa do desenvolvimento de políticas públicas baseadas em evidências que melhorem a vida da população de forma abrangente.

5-Nas redes sociais: Só diversidade e inclusão não bastam. É preciso promover a equidade. Esses são valores fundamentais para nossa empresa. Queremos que as pessoas sejam reconhecidas por seu potencial, não pelos seus privilégios.

Na realidade: Mapeamento de riscos do negócio não inclui temas como desigualdade social, miséria e crises humanitárias.

6-Nas redes sociais: ESG está no nosso DNA!

Na realidade: Não realiza avaliação de materialidade para mapear os seus principais impactos, riscos e oportunidades socioambientais.

7-Nas redes sociais: Acreditamos que a transparência é fundamental para estabelecer confiança e construir relações sólidas.

Na realidade: Relatórios só apresentam dados que mostram desempenho satisfatório e não são divulgadas metas específicas.

8-Nas redes sociais: Nosso compromisso com a sustentabilidade é profundo e verdadeiro.

Na realidade: Metas ESG não fazem parte do sistema de remuneração das lideranças.

9-Nas redes sociais: Viemos para ficar e temos visão de futuro para as próximas décadas.

Na realidade: Remuneração variável atrelada apenas a desempenho financeiro de curto prazo.

A lista poderia continuar, mas você já captou a ideia. Mais do que a visão crítica de um colunista, os exemplos são ilustrativos do nível de exigência que investidores, clientes, colaboradores e sociedade civil impõem em relação às empresas. A barra está subindo e há cada vez menos espaço para discursos vazios. O que é ótimo para quem faz a lição de casa. E aqui vão duas notícias: é plenamente possível desenvolver estratégias que entreguem resultado econômico, social e ambiental de forma simultânea. Mas dá trabalho.

Para apontar um caminho, faço uma retrospectiva de final de ano com artigos já veiculados nesta coluna. Tudo começa com engajamento de stakeholders, mas passa por identificar os principais impactos, riscos e oportunidades (materialidade), desenvolver uma agenda estratégica, reconhecer o tamanho do problema e seus pontos de melhoria. Depois, é preciso estabelecer planos de ação com metas claras, gerenciar as externalidades e comunicar avanços com transparência e honestidade. Em todos os momentos, deve-se buscar consistência, antídoto infalível para um mal tão grave quanto o aquecimento global: o papo furado.

*Danilo Maeda é head da Beon, consultoria de ESG do Grupo FSB

Este é um conteúdo da Bússola, parceria entre a FSB Comunicação e a Exame. O texto não reflete necessariamente a opinião da Exame.

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