Como saber a hora de desistir de uma startup?

Quando o lifestyle business se sobressai ao crescimento e à evolução do negócio, pode ser a hora de a startup virar uma empresa normal

Desistir de uma startup, independentemente de você vestir o chapéu de investidor ou de empreendedor, nunca é uma decisão fácil. Mas, às vezes, é a saída mais acertada — ou até mesmo necessária —, dependendo do contexto.

No geral, no mundo das startups, desistir está atrelado a algumas condicionantes que se relacionam com o sucesso e a evolução do negócio: crescimento da base de clientes, faturamento etc. Bom, até aqui, nenhuma surpresa, afinal, qualquer empresa vive e se sustenta no longo prazo em razão de seus resultados.

O ponto que eu gostaria de chamar a atenção é um pouco diferente: é quando o negócio está prosperando, e o empreendedor se perde no caminho e acaba (de forma consciente ou não) usando sua startup para se promover ou promover seu estilo de vida, e deixa de lado o que deveria ser seu foco único e exclusivo, que é a gestão de seu negócio.

Quando isso acontece, a empresa se torna seu lifestyle business e, em vez de desenvolver suas habilidades empreendedoras, ocupa sua mente e sua agenda com coisas que garantem seu padrão ou em atividades extras, não focadas no crescimento do negócio e na mentalidade de equity.

Quer ver na prática como você deve conhecer empreendedores assim? Sabe aquele CEO que vira “estrelinha”? Que passa a participar de todos os eventos, vive dando entrevistas, se promove o tempo todo e, quando fala da empresa, fala com o foco no marketing e não como negócio em crescimento?

Não me interprete mal, é claro que os empreendedores têm todo o direito de aparecer quando lhes convier, e, se estruturada de forma estratégica, essa visibilidade pode ser boa para o negócio.

Mas a questão que levanto é mais complexa e está atrelada ao título deste artigo. Quando a lifestyle business se sobressai ao crescimento e à evolução do negócio, é hora de a startup virar uma empresa normal que distribui dividendos e paga altos pró-labores.

Perceba que toda e qualquer startup já nasce para ser escalável, para ganhar cada vez mais mercado e crescer em um ritmo acelerado que é muito acima do de uma empresa tradicional.

Quando seu líder começa a se satisfazer com um salário fixo ou a segurança de alguns contratos e para de crescer e não busca fazer fund raising, isso indica que tem algo muito errado e sintomático.

Talvez seja a hora de essa pessoa seguir novos rumos e deixar outras pessoas tocarem o negócio, mesmo que a ideia original tenha sido sua.

E para complementar este raciocínio, vale dizer ainda que esse é o caminho ideal, porque uma startup, assim como qualquer empresa, não tem um tempo de vida predeterminado. Mas sim um ciclo ou jornada de dez anos, e, nesse período ela sai do zero rumo ao IPO, passando por vários estágios de investimentos (anjo, pré-seed, seed, séries A, B, C, D...).

Como exemplo, startups como o Zoom (ferramenta de videoconferência) e o Uber (aplicativo de transporte) só chegaram ao IPO (oferta pública) oito anos depois de sua fundação. Da mesma forma, a startup brasileira Méliuz abriu sua oferta pública na B3 depois de nove anos de vida.

Para mim, uma startup deixa de ser caracterizada como tal quando: não reinveste tudo o que ganha, distribui lucros ou dividendos antes da hora, não busca aumentar seu valuation no longo prazo, não organiza seu captable para fundraising, vira meio de vida (lifestyle business) e abre oferta pública (IPO).

Reconheço que os pontos acima são extraídos de uma visão pessoal e baseados em experiência prática. Não vejo esses pontos também como limitantes, mas como um ciclo natural na jornada empreendedora de uma startup.

Portanto, a hora de desistir de uma startup é quando ela não tem mais mentalidade de startup e vira uma empresa normal. Nesse caso, ou o investidor entra de sócio ou vende sua participação para os empreendedores fundadores ou para algum interessado estratégico.

* João Kepler é CEO da Bossa Nova Investimentos

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