Beatriz Leite: Mulheres empreendedoras. Solitárias, mas solidárias

Mulheres e negros começam a empreender sozinhos, mas constroem negócios baseados na coletividade e com resultados sociais

Por Beatriz Leite*

Quando eu comecei a atuar com empreendedorismo feminino, para mim e muitas outras pessoas com as quais conversei, empreender era sinônimo de esforço pessoal, de iniciativa individual, de sonhos e metas de heróis (geralmente, no masculino), com histórias de sucesso que envolviam como maior recompensa a geração de fortunas milionárias, a criação de unicórnios inovadores e IPOs bombásticas.

De fato, empreender envolve batalhas solitárias, principalmente quando falamos do empreendedorismo feminino. Pesquisas da Rede Mulher Empreendedora revelam que 40% das mulheres iniciam o negócio sem capital, 57% dos negócios delas não tem funcionários e 52% delas têm filhos para cuidar. Com os empreendedores negros não é diferente: 51% tem o negócio como única fonte de renda e 83% dos negócios não tem funcionários ou parceiros (PretaHub, 2019). A base da pirâmide luta sozinha, sem investidor-anjo ou “paitrocínio”.

Apesar de todas essas dificuldades, para mulheres e pessoas negras empreender vai além de gerar fortunas. A solidariedade que vimos ser fortalecida na pandemia, está na essência da empreendedora brasileira.

Tive o privilégio de conhecer de perto alguns exemplos práticos no Programa Elas Prosperam do Instituto RME, no qual negócios de empreendedoras negras foram acelerados. Entre os dez negócios do programa, nove deles geravam diretamente algum benefício para a sociedade, seja com o modelo de negócio, com doações, com modelo societário coletivo ou mesmo pelo propósito inspiracional e empoderador. Desde os modelos mais cooperativos, como a recicladora de aparas Armazém Fantasma da Ana Caroline, que beneficia catadoras da periferia da zona leste de São Paulo, ou o BANS-Bambuzeiras Negras, que reúne produtoras de biojóias, ambos negócios coletivos e sustentáveis. Até a curadoria cultural Pretaação da Andrea, que empodera e dá espaço aos artistas negros e de minorias. Ou Jaqueline, que divide o tempo entre sua boleria saudável no Amazonas e o voluntariado em comunidades indígenas.

Do norte ao sul do país, elas não são uma exceção: 30% dos empreendedores negros trabalham em rede com parceiros e priorizam outros negros, dados do estudo da PretaHub de 2019. E os negócios liderados por mulheres empregam mais mulheres, sendo que 83% daquelas que conseguem contratar têm ao menos metade do quadro de funcionários composto por mulheres (contra 63% dos negócios dos homens).

Esse empreendedorismo das ruas brasileiras, mesmo com poucos ou nenhum funcionário, recursos escassos e sem investidores, vai envolver em alguma dimensão, seja no propósito, no modelo, no produto ou na estrutura, um olhar que se volta à família, às pessoas próximas, à comunidade, mesmo antes de falar de lucratividade, valuation, reports e tendências de mercado.

Ainda assim, criar e desenvolver um negócio vai envolver muita luta, sonho e noites perdidas individualmente. O que faz com que a urgência da temática e a necessidade de se entender o empreendedorismo por essa perspectiva seja ainda maior quando se fala em futuro econômico. O nosso jeito de empreender, da brasileira, da mulher, dos negros, já é por si só coletivo e social. Só nos resta admitir isso e nos juntarmos a eles.

*Beatriz Leite é gestora de projetos, formada em Gestão Ambiental pela USP e pós-graduada em Gestão de Projetos pelo Senac. Atua há quase 10 anos em negócios e organizações sociais, nas áreas de longevidade, desenvolvimento local, cultura e empoderamento feminino

 Este é um conteúdo da Bússola, parceria entre a FSB Comunicação e a Exame. O texto não reflete necessariamente a opinião da Exame.

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