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Violência contra a mulher cresce 28,9% em dias de jogos de futebol, aponta estudo

Estudo do Fórum Brasileiro de Segurança aponta que ingestão de bebida e comportamentos de risco em dias de jogos aumentam ocorrências de ameaças e lesões corporais dolosas

Violência contra a mulher: levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta para alta da violência entre mulheres jovens durante partidas de futebol

Violência contra a mulher: levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta para alta da violência entre mulheres jovens durante partidas de futebol

Letícia Ozório
Letícia Ozório

Repórter de ESG

Publicado em 11 de agosto de 2026 às 17h56.

Última atualização em 11 de agosto de 2026 às 18h12.

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Os casos de violência contra as mulheres chegam a subir até 28,9% em dias de jogos de futebol, enquanto as ocorrências de ameaças registram alta de 27,4% na comparação com dias sem partidas. A informação é da segunda edição da pesquisa "Futebol e violência contra a mulher", divulgada nesta terça-feira, 11, pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

O material identificou uma relação entre os registros de ocorrências de lesões corporais dolosas e ameaças e as partidas pelo Campeonato Brasileiro, a Libertadores da América e a Copa Sul-Americana em cinco cidades: São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizonte e Porto Alegre. O estudo utilizou dados de 2023 a 2025.

"Esses casos acontecem depois dos jogos, muitas vezes após o homem ingerir bebidas alcoólicas, em uma violência crescente e com um agravante: as vítimas agora são em sua maioria jovens, que sofrem a agressão dentro da própria casa", explica Juliana Brandão, coordenadora de Gênero e Raça do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Entre mulheres de 15 a 29 anos, os casos de ameaças e lesões corporais subiram 44% nos dias de jogos, sendo o principal grupo de vítimas.

O aumento nos registros superou o observado entre 2015 e 2018, na primeira edição do estudo. Na época, os dias de jogos marcavam 23,7% de alta em ameaças (3,7 pontos percentuais abaixo da média desta edição) e de 20,8% em lesões corporais intencionais (8 pontos percentuais menor).

"O futebol não gera a violência, mas ele catalisa uma situação iminente. O ambiente de futebol é, ainda hoje, de naturalização da masculinidade tóxica. O estudo mostra que após o apito final as engrenagens da violência são disparadas pelas ameaças, agressões e imposições de homens contra mulheres", diz Brandão.

Mulheres brancas denunciam mais, mas raça preocupa

A pesquisa ainda identificou uma diferença racial dentro dos casos reportados de agressão e ameaça.

Enquanto mulheres brancas registram 30,9% de alta em lesão corporal nos dias de jogos, as negras registram 23,2% — 7,7 pontos percentuais abaixo. Já nos relatos de ameaça, as mulheres brancas sofrem 36,2% mais casos de ameaças durante as partidas, enquanto as negras registram 14,6% — 21,6 pontos percentuais abaixo.

Os pesquisadores montaram duas hipóteses sobre os motivos para essa diferença entre raças.

A primeira considera a maior jornada de trabalho das mulheres negras no Brasil, o que Brandão descreve como a "materialização do racismo". "Assistir às partidas de futebol é um momento de socialização, então uma das explicações é que as diferenças econômicas pesem nisso: as mulheres negras podem sofrer menos essas violências porque ainda estão trabalhando durante as partidas, seja em casa ou fora", afirma.

Outra razão seria a naturalização da violência contra as mulheres negras, que são hoje as principais violentadas: de acordo com o Anuário Brasileira de Segurança Pública, as negras são 65,1% das vítimas de feminicídio e as principais expostas a agressões físicas, psicológicas e letais. "Se já é rotina, não tem por que relatar quando isso acontece durante um jogo de futebol, assim, a segunda hipótese é a subnotificação da violência contra mulheres negras", diz Brandão.

Futebol e violência contra a mulher

Em três anos, a pesquisa analisou 219 mil casos de ameaça e 88 mil ocorrências de lesão corporal dolosa das cinco capitais analisadas. Daniel Cerqueira, economista e conselheiro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, explica que a pesquisa precisou traçar outros indicadores para se certificar de que a principal causa para a violência é o futebol.

"Usamos até informações de precipitação, já que dias de chuvas costumam aumentar os casos de agressão e ameaça, já que elas ficam mais em casa e, consequentemente, com os parceiros violentos", explica.

O consumo de bebidas alcoólicas e de drogas não pôde ser refletido no estudo, já que não são relatados nos dados oficiais, mas os pesquisadores avaliam que a intersecção com os jogos de futebol também costuma ter um grande reflexo nos casos de violência contra a mulher.

Luiza Helena Trajano, diretora do conselho de administração do Magazine Luiza: "Violência contra mulher é tema comum a todos os países onde operamos"

Ana Luiza Herzog, diretora de sustentabilidade e reputação do Magazine Luiza, responsável pelo financiamento da pesquisa, explica que as ações de combate à violência contra a mulher não passam só pela conscientização dos homens e a da atuação do poder público, mas também pelas empresas. "No aplicativo do Magalu constam dois mecanismos de ajuda: o Ligue 180, canal de denúncias, e o Justiceiras, que dá apoio para além da denúncia", explica.

A história da varejista com o tema começou em 2017, quando uma gerente de loja foi morta a golpes de canivete pelo seu parceiro, em Campinas, no interior de São Paulo. "Achava que todos esses números estavam muito distantes. Quando vi uma gerente com 17 anos de empresa ser assassinada, sem que ninguém percebesse essa escalada na violência, decidimos agir", diz Luiza Helena Trajano, presidente do conselho de administração do Magazine Luiza.

O ex-jogador Raí, que fez parte da seleção que ganhou o tetracampeonato brasileiro em 1994, também esteve presente durante o lançamento do estudo e contou sobre como a cultura do futebol colabora para a manutenção de algumas violências. " O futebol é reflexo da sociedade. Reflete racismo, violências, preconceitos. No gênero, é a sociedade piorada. E não digo sobre as futuras atletas e meninas que querem jogar, nem da violência nos estádios, que são extremamente hostis para as mulheres", diz.

Raí, ex-jogador de futebol e campeão do tetra: "Futebol também deve ser um espaço seguro para as mulheres"

Segundo o atleta, que fez história no São Paulo e no Paris Saint-Germain, esses números alarmantes geram uma revolta, e os homens, especialmente os atletas, precisam se manifestar. "Até 1969, as mulheres eram proibidas por lei de jogar futebol. Quanto mais esse espaço ainda tão masculino e com tantas masculinidades negativas, como a violência, o orgulho e a virilidade, for ocupado por mulheres, mais se torna um espaço que deve ser também delas", explica.

Soluções para o cenário de violência

Os pesquisadores apresentaram ao final do estudo uma série de recomendações — envolvendo ações para a sociedade civil, empresas e instituições esportivas — que trabalhem a redução dos casos de violência contra a mulher com relação aos jogos de futebol.

Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os estádios de futebol devem contar com centros de denúncia e acolhimento de mulheres. A torcida também representa um papel importante nas ações: os pesquisadores veem os torcedores como atores desse processo de aprendizado e apoiam ações de cultura e conscientização dentro das torcidas.

Além disso, iniciativas de desenvolvimento socioemocional, formação de atletas e de educação sobre masculinidade são também recomendadas, processo que busca educar os jogadores e população sobre os prejuízos para a sociedade com a violência contra a mulher. Um estudo da Universidade Federal do Ceará aponta que o prejuízo com a violência contra a mulher pode chegar a R$ 975 milhões por ano no Brasil.

Do lado do governo, as recomendações abordam ações de monitoramento da violência doméstica e prevenção ao abuso de álcool e apostas esportivas (as bets), que colaboram para "explosões" e o aumento das agressões.

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