Lei Maria da Penha: norma passa a valer para qualquer tipo de violência de gênero (Marcello Casal Jr/Agência Brasil)
Repórter
Publicado em 19 de agosto de 2026 às 20h13.
Última atualização em 19 de agosto de 2026 às 20h39.
O STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu nesta quarta-feira, 19, ampliar o alcance da Lei Maria da Penha.
Criada em 2006, a legislação até então só era aplicada em casos envolvendo violência doméstica, familiar ou relações de afeto. Agora, os juízes passam a aplicar a normal contra qualquer tipo de violência de gênero contra mulheres, mesmo fora desses contextos.
A decisão tem efeito prático imediato. A lei passa a valer também para as eleições de outubro, a fim de proteger candidatas da violência política.
Na prática, isso significa que a Justiça Eleitoral pode conceder medidas de proteção, como afastamento do agressor, proibição de aproximação, tornozeleira eletrônica ou até prisão preventiva em casos ligados à disputa eleitoral.
A votação foi unânime e partiu de um caso em Minas Gerais. A Justiça mineira havia negado medidas protetivas a uma mulher ameaçada pelo próprio vizinho, sob o argumento de que não havia relação íntima de afeto entre os dois, um dos requisitos previstos originalmente na lei.
Segundo o processo, o vizinho acreditava manter um relacionamento amoroso com a mulher e passou a ameaçá-la depois que ela não correspondeu.
Em um dos episódios, chegou a dizer que a mataria caso ela não ficasse com ele. O assédio constante fez a vítima desenvolver crises de ansiedade e pânico.
O STF derrubou a decisão de primeira instância e, com isso, redefiniu o alcance da lei.
O voto que prevaleceu foi o do presidente da Corte, Edson Fachin, para quem a violência contra a mulher precisa ser tratada como um problema estrutural, fruto de uma desigualdade histórica entre homens e mulheres, e não apenas como algo restrito a relações afetivas.
Segundo ele, a proteção da lei alcança qualquer situação em que a violência tenha origem no gênero da vítima.
O ministro Flávio Dino defendeu, durante o julgamento, que a proteção se estendesse também às eleições. Ele apontou que candidatas frequentemente enfrentam o dilema entre garantir a segurança da própria família e seguir na vida pública.
Votaram também os ministros Cristiano Zanin, Alexandre de Moraes, André Mendonça, Nunes Marques, Luiz Fux, Dias Toffoli, Cármen Lúcia e Gilmar Mendes.
Única mulher na Corte, a ministra Cármen Lúcia reforçou que a lei nasceu para proteger mulheres em qualquer contexto e associou o debate ao feminicídio como expressão de uma disputa de poder.
"Quem ama não mata. O feminicídio é praticado; o assassinato de mulheres é praticado por uma questão de poder. O homem acha que tem o poder de vida e morte contra nós", disse.
(Com informações da Agência Brasil)