Avenida Brasil, no Rio de Janeiro: estado liderou os prejuízos com roubo de cargas no 1º semestre, segundo levantamento (José Lucena/Estadão Conteúdo)
Editor de Macroeconomia
Publicado em 8 de setembro de 2026 às 11h52.
O Rio de Janeiro superou São Paulo e passou a concentrar a maior parcela dos prejuízos com roubo de cargas no Brasil no primeiro semestre de 2026 na relação com o mesmo período do ano passado. O estado respondeu por 36,6% do valor perdido nas operações analisadas, ante 16,1% em 2025, segundo o relatório mais recente da empresa de software nstech, que monitora esse tipo de ocorrência trimestralmente.
São Paulo, que liderava o levantamento, recuou de 34,2% para 30,9% no valor de perdas. Foi a primeira vez no histórico dos relatórios semestrais da nstech que o estado deixou a primeira posição. O estudo utilizou informações das gerenciadoras de risco BRK, Buonny e Opentech, integradas à rede logística da nstech.
O levantamento considera apenas as operações monitoradas pelas três empresas. Além disso, os percentuais representam a participação de cada estado, região, horário ou tipo de mercadoria no valor financeiro dos prejuízos — e não a quantidade de ocorrências registradas no país.
“O estudo demonstra que a criminalidade logística no Brasil tem operado de forma dinâmica, com quadrilhas especializadas alternando de forma ágil as mercadorias visadas, os horários de ataque e as regiões de atuação. No período, também percebemos que o risco muda rapidamente e exige monitoramento contínuo", diz Cristiano Tanganelli, VP de Inteligência de Mercado da nstech.
O avanço fluminense foi acompanhado por uma forte concentração metropolitana. A cidade do Rio de Janeiro respondeu por 20,1% dos prejuízos nacionais, seguida por Duque de Caxias, com 6%, São Gonçalo, com 3%, e Nova Iguaçu, com 1,9%. Somados, os quatro municípios concentraram 31% do valor perdido no país. Considerando apenas as operações no estado, os trechos urbanos responderam por 62% dos prejuízos.
São Paulo apresentou um perfil diferente. Mais da metade das perdas no estado, 57%, ocorreu na rota interna, formada por deslocamentos com origem e destino no próprio território paulista.
No ranking nacional de rotas, SP–SP ficou em primeiro lugar, com 17,6% dos prejuízos, seguida por RJ–RJ, com 11,2%. Juntas, concentraram 28,8% das perdas monitoradas.
O movimento contribuiu para ampliar a participação do Sudeste, que passou de 60,5% para 77,2% dos prejuízos nacionais. Minas Gerais ficou na terceira posição entre os estados, com 9,3% do valor de prejuízo.
Na direção contrária, o Norte caiu de 16,7% para 2,3%. A redução foi puxada pelo Pará, cuja participação recuou de 12,8% para 2,4%.
Ozempic: medicamentos passaram da sexta para a terceira posição entre itens mais roubados (Florian Gaertner/Photothek /Getty Images)
A principal mudança entre os tipos de mercadoria alvo de roubos ocorreu no transporte de medicamentos. A participação do segmento nos prejuízos saltou de 2,8% para 19%, avanço de 16,2 pontos percentuais. Com isso, os medicamentos passaram da sexta para a terceira posição nacional entre itens mais roubados, atrás apenas das cargas diversas ou fracionadas, com 36,6%, e dos alimentos, com 24,6%.
O crescimento foi especialmente concentrado em São Paulo. No estado, os medicamentos responderam por 37,7% dos prejuízos e lideraram o ranking de mercadorias. Em Minas Gerais, a participação foi de 2,8%; no Rio, de 2,5%.
O relatório avalia que a mudança pode estar relacionada ao alto valor agregado e à possibilidade de revenda dos produtos no mercado clandestino. Os dados, porém, não identificam o destino das mercadorias roubadas.
Enquanto os medicamentos ganharam espaço, os cigarros recuaram de 26,4% para 6,3% das perdas nacionais. Os eletrônicos caíram de 7,9% para 1,5%.
Os trechos urbanos praticamente dobraram sua participação nos prejuízos, de 20,4% para 39,6%. Entre as rodovias, a BR-101 liderou, com 17,1%, ante 10,8% em 2025. A BR-116 ficou em segundo lugar, com 8,2%.
Também houve uma mudança nos horários de maior risco. A madrugada passou de 14,4% para 32,9% dos prejuízos e assumiu a liderança. A noite recuou de 38,6% para 24,5%. Juntos, os dois períodos concentraram 57,4% das perdas. A manhã respondeu por 26,7%, e a tarde, por 15,9%.
A quinta-feira permaneceu como o dia com maior participação nos prejuízos, com 22%. O relatório, no entanto, aponta forte oscilação mensal entre estados, horários, cargas e rotas, o que dificulta estabelecer um padrão permanente para as ocorrências.