Relembre os puxões de orelha que o Brasil já recebeu por causa dos aeroportos

Estudo do Ipea divulgado na semana passada apenas ratificou o que muitos já disseram sobre a falta de infraestrutura do setor aéreo

São Paulo – No dia 30 de outubro de 2007, o Brasil foi confirmado pelo Fifa como sede da Copa do Mundo de 2014. Sem concorrentes, o país foi eleito por unanimidade.

Na ocasião, o presidente da entidade, Joseph Blatter, elogiou a apresentação do Brasil, que, durante 40 minutos, destacou a preocupação ecológica dos projetos. Até o escritor Paulo Coelho foi “escalado” para defender a candidatura brasileira. Blatter ficou emocionado. "Não deveria, mas vou dizer. Estou impressionado com toda a preocupação ecológica e com o fato de terem trazido para cá Paulo Coelho. Ele tem um senso de humor específico. Isso é o futebol", afirmou Blatter.

A lua de mel entre a Fifa e as autoridades brasileiras durou até a Copa do Mundo da África do Sul, em 2010, pois a entidade estava totalmente focada naquele evento. Aqui no Brasil, no entanto, o cenário já era ruim há bastante tempo. O caos aéreo, cujo estopim foi o acidente entre um Boeing 737 da Gol e um Embraer Legacy em 26 de setembro de 2006, já demonstrava que havia muita coisa errada no setor aéreo.

Porém, foi apenas no ano passado que os holofotes voltaram-se definitivamente para o Brasil. EXAME.com fez um levantamento desse período e constatou que o governo já recebeu inúmeros puxões de orelha por causa da infraestrutura precária dos aeroportos. E, na maioria das vezes, a reação das autoridades foi de rebater ou desqualificar as críticas. O estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgado na semana passada apenas ratificou o que muitas pessoas já disseram sobre a falta de infraestrutura. O fato é que eventual vexame na Copa não terá sido por falta de avisos.

Relembre, em ordem cronológica, os alertas e as reações do governo brasileiro:

3 de maio de 2010: Durante evento realizado em Joanesburgo, na África do Sul, o secretário-geral da FIFA, Jérôme Valcke, criticou os atrasos no cronograma de obras nas capitais brasileiras. Inicialmente, reclamou dos estádios. “É incrível como o Brasil está atrasado, e não estou falando apenas do Morumbi ou Maracanã, mas de todos os estádios. Muitos dos prazos já expiraram, e nada aconteceu. O Brasil não está no caminho certo.” Em seguida, demonstrou preocupação com as obras de infraestrutura, como aeroportos, e apontou entraves, como eleições e carnaval, que podiam dificultar o andamento dos projetos. “Este ano há eleições, para tudo. Ano que vem, carnaval, para de novo. É preciso aproveitar o tempo disponível para fazer as coisas.”


20 de maio de 2010: A subcomissão de deputados federais que acompanha a organização da Copa de 2014 fez um debate sobre aeroportos. Alcidino Bittencourt Pereira, coordenador da Região Metropolitana de Curitiba (PR), disse que havia necessidade urgente de ampliar a capacidade do aeroporto de Curitiba. O presidente da Subcomissão, Sílvio Torres (PSDB-SP), afirmou que seria difícil que os prazos fossem cumpridos. “Alguns inclusive têm dificuldade de atender à demanda atual e correm o risco de passar vexame na época da Copa.”

31 de maio de 2010: O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgou um estudo mostrando que, em pelo menos dez importantes aeroportos brasileiros, a demanda por pousos e decolagens já superava a capacidade de oferta das infraestruturas existentes. Considerando-se o horário de pico, a situação já era particularmente grave nos aeroportos mais movimentados do País, como o Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, onde nos momentos de maior movimento eram feitos 65 pedidos de pousos e decolagens por hora para uma capacidade de 53 movimentações. Em Congonhas, também em São Paulo, os pedidos eram de 34 pousos e decolagens por hora para uma capacidade de apenas 24. Em Brasília, a capacidade horária era de 36 movimentações e, no horário de pico, a demanda chegava a 45. Na ocasião, o coordenador de infraestrutura econômica do Ipea, Carlos Campos, disse que esse era um dos principais desafios que o país teria de resolver para a Copa do Mundo de 2014.

2 de junho de 2010: Dois dias após o alerta do Ipea, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, criticou severamente o estudo. "O Ipea partiu de diversas falsas premissas e apresentou dados absolutamente errados, resultando em um trabalho totalmente desqualificado", afirmou o ministro, que rebateu praticamente todos os dados relativos aos slots (sistema de alocação de horários de chegadas e partidas de aeronaves). "O Ipea disse que em Brasília a capacidade era de operar 36 voos por hora. Errado! São 45 slots. Em Manaus disse que são nove. Errado também. São 12. Erraram também nos dados sobre os aeroportos de Guarulhos, da Pampulha e em outros".

8 de julho de 2010: Durante a apresentação do logotipo da Copa de 2014, o presidente da CBF e do Comitê Organizador do Mundial no Brasil, Ricardo Teixeira, afirmou que “os três grandes problemas que nós temos no Brasil para a Copa são, inegavelmente, aeroporto em primeiro, aeroporto em segundo e aeroporto em terceiro.”

9 de julho de 2010: No dia seguinte, o presidente Lula rebateu as críticas de Ricardo Teixeira. “Eu acho sinceramente descabido alguém estar preocupado com alguma coisa para a Copa do Mundo de 2014. O Brasil é um país que tem investimentos garantidos de US$ 624 bilhões. Hoje já me perguntaram: ‘será que vai fazer os aeroportos?’ (...) Se um país com 190 milhões de habitantes com o PIB que tem o Brasil (...) se esse país não tiver condições de preparar uma Copa do Mundo, eu teria que ir embora a nado da África do Sul até o Brasil.”


12 de julho de 2010: Três dias depois, Joseph Blatter foi questionado sobre a situação brasileira, mas não se posicionou. "Eu não sei se há problemas, eu procuro soluções." O secretário-executivo da Fifa, Jérôme Valcke, no entanto, disparou ironias. "Há alguns problemas. Mas estamos trabalhando neles. Os principais são que temos de construir estádios, temos de construir aeroportos, temos de construir estradas, temos de fazer funcionar um sistema de telecomunicações, temos de resolver as acomodações. Com exceção disso, trabalharemos para que tudo funcione".

13 de julho de 2010: No dia seguinte, o presidente Lula disparou contra Valcke. "Terminou a Copa da África do Sul agora e começam a dizer 'cadê os aeroportos brasileiros, os estádios brasileiros, os corredores de trem, os metrôs?', como se nós fossemos um bando de idiotas que não soubéssemos fazer as coisas e definir nossas prioridades."

29 de julho de 2010: Um estudo elaborado pelo HSBC e pela Economist Intelligence Unit apontou deficiências em infraestrutura como empecilho para negócios no Brasil. Embora o foco do trabalho não fosse a Copa do Mundo, o documento citou especificamente as fragilidades da infraestrutura de transporte e logística, a concentração (mais de 60%) das cargas em rodovias, a frota antiga de caminhões em circulação no país, a malha ferroviária insuficiente (25% da matriz de transportes) e subutilizada, o potencial hidroviário inexplorado, e os portos e os aeroportos congestionados, como parte de um “pesadelo logístico” que teria de ser resolvido antes da Copa de 2014 e da Olimpíada de 2016 no Brasil.

18 de novembro de 2010: O diretor-geral da Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata, na sigla em inglês), Giovanni Bisignani, disse que o Brasil precisava resolver logo os problemas de infraestrutura dos aeroportos. "O País é a maior economia da América Latina e a que mais cresce, mas a infraestrutura de transporte aéreo é um desastre de proporções crescentes. Para evitar um constrangimento nacional, o Brasil precisa de instalações melhores e maiores para a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016, mas não vejo progresso e o tempo está correndo. O tempo para debates acabou."

19 de novembro de 2010: No dia seguinte, o jornal britânico “Financial Times” publicou uma reportagem sugerindo que o Brasil privatizasse cerca de 50 aeroportos regionais, com a ressalva de que “a privatização resolveria apenas parte dos problemas”. O diário citou, ainda, a opinião de executivos da indústria segundo os quais a Infraero, empresa até então subordinada ao Ministério da Defesa, estava “dominada por sindicatos do setor público, o que a tornava autoritária, mais preocupada com empregos do que com resultados”.


18 de fevereiro de 2011: Pelé, garoto-propaganda do Mundial no Brasil, colocou lenha na fogueira do debate ao dizer que temia que o Mundial envergonhe o país. “Fiz uma reunião por telefone com o pessoal da Fifa, já que não pude ir para a Zurique (na Suíça), e realmente eles estão preocupados. Os estádios estão atrasados, São Paulo, que é uma das forças do futebol no Brasil, não começou as obras, temos problemas de aeroportos e alguns outros. O Brasil está correndo o risco de envergonhar a gente.” Em contato com o presidente da UEFA (associação europeia de futebol, na sigla em inglês), Michael Platini, Pelé contou que os europeus temem principalmente o deslocamento entre as cidades brasileiras.

3 de março de 2011: O diretor de comunicação da CBF, Rodrigo Paiva, disse que a Fifa tinha voltado a manifestar preocupação com as condições dos aeroportos brasileiros para a Copa do Mundo de 2014. Na ocasão, foi realizada uma reunião com o presidente da entidade, Joseph Blatter, e membros do comitê executivo. “Mais uma vez a preocupação com aeroportos foi manifestada. É uma preocupação sim, talvez a maior do comitê. O governo brasileiro tem sido claro com relação a isso e que também está atento e agindo para que isso não vire um problema. Hoje seria um problema”, disse Paiva. Naquela semana, o Ministro da Defesa, Nelson Jobim, tinha admitido que os aeroportos do país estavam operando no limite, mas garantiu que não havia motivo para alarde porque estavam sendo feitos investimentos necessários para garantir o bom funcionamento até o Mundial.

18 de março: A presidente Dilma Rousseff criou a Secretaria de Aviação Civil por meio de uma medida provisória publicada em edição extra do "Diário Oficial da União". De acordo com a MP, toda a estrutura da aviação civil ficará a cargo da nova secretaria. A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e a Empresa Brasileira de Infra-Estrutura Aeroportuária (Infraero), órgão que administra os principais aeroportos do país, até então sob comando do Ministério da Defesa, passaram a fazer parte da estrutura da nova secretaria. Ao Ministério da Defesa caberá apenas o controle do espaço aéreo. A Secretaria de Aviação Civil terá como atribuições "formular, coordenar e supervisionar as políticas para o desenvolvimento do setor de aviação civil e das infraestruturas aeroportuárias". O órgão também poderá transferir à iniciativa privada o direito de explorar os aeroportos. No começo de abril, o governo indicaria o diretor de infraestrutura do BNDES, Wagner Bittencourt de Oliveira, para assumir a secretaria.

14 de abril de 2011: O Ipea voltaria, um ano depois, a divulgar um estudo sobre o setor aéreo, com nova grave constatação. As obras de ampliação de nove dos 12 aeroportos nas cidades que sediarão os jogos da Copa do Mundo de Futebol de 2014 não deverão ser concluídas até o início do evento esportivo. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), fundação vinculada à Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, a situação é preocupante.

15 de abril de 2011: A ministra do Planejamento, Miriam Belchior, disse ter confiança que o país conseguirá concluir as obras antes da Copa do Mundo. "Tenho confiança que não vamos passar vergonha. Como sempre, o Brasil vai fazer bonito”

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