Flávio Bolsonaro: rejeição é desafio para senador do PL (Antonio Lacerda/EFE)
Repórter de Brasil e Economia
Publicado em 22 de agosto de 2026 às 09h00.
A rejeição ao bolsonarismo é hoje um dos principais fatores que impedem o senador Flávio Bolsonaro (PL) de ampliar seu percentual de votos entre eleitores insatisfeitos com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), segundo análise de Marcelo Tokarski, CEO da Nexus.
Em entrevista ao programa Eleições em Pauta, da EXAME, o executivo analisou a última pesquisa BTG/Nexus, divulgada na segunda-feira, 17, e afirmou que a disputa presidencial segue marcada por um cenário de polarização entre Lula e Flávio. Segundo ele, o eleitor que desaprova o atual governo não necessariamente encontra no senador uma alternativa de voto.
O ponto central da análise está em um cruzamento interno dos dados da pesquisa. Segundo Tokarski, há um grupo de eleitores que rejeita a gestão Lula, mas também não aceita votar no candidato apoiado pelo bolsonarismo.
“Existem hoje, de acordo com a nossa última pesquisa, 6% de eleitores que desaprovam Lula, mas que rejeitam o Flávio Bolsonaro”, afirmou Tokarski durante a entrevista.Nesse grupo, segundo o CEO da Nexus, apenas uma parcela pequena migra para o presidente no cenário de segundo turno entre Lula e Flávio. A maior parte declara intenção de não votar em nenhum dos dois nomes em outubro.
“Esse 6%, no segundo turno entre Lula e Flávio, hoje vai um ponto para o Lula, mesmo desaprovando seu governo, e cinco pontos vão para o que a gente chama de não voto, branco e nulo”, disse.
Para Tokarski, esse comportamento ajuda a explicar por que a desaprovação ao governo federal não se transforma automaticamente em crescimento da candidatura de oposição.
Na última pesquisa, a desaprovação de Lula é de 48%, enquanto a aprovação é de 47%. No histórico dos últimos meses, o cenário aponta uma estabilidade da popularidade.
O eleitor pode estar insatisfeito com a administração atual, mas manter resistência ao campo político adversário.
“[O que está impedindo] o Flávio de crescer entre esse eleitorado que desaprova o governo, que está insatisfeito com o governo e que poderia querer trocar esse governo, é justamente a rejeição ao bolsonarismo”, afirmou.
A análise da Nexus aponta que a disputa de 2026 mantém uma característica observada na eleição anterior: o peso da rejeição dos candidatos. Para Tokarski, o voto continua sendo influenciado menos por uma adesão integral ao candidato e mais pela rejeição ao adversário.
Segundo ele, cerca de um em cada quatro eleitores dos dois principais candidatos afirma votar no nome escolhido não pela preferência pelo candidato, mas pelo desejo de impedir a vitória do adversário.
“A gente está vivendo um déjà vu de 2022. Só troca o Jair pelo Flávio, o sobrenome é o mesmo, do lado do presidente é o Lula”, afirmou Tokarski.O executivo avalia que, apesar das diferenças entre os cenários, há semelhanças na distribuição do eleitorado por segmentos como renda, religião, sexo e região. Na avaliação dele, o ambiente eleitoral permanece dividido entre dois polos, enquanto candidatos alternativos enfrentam dificuldade para ocupar espaço.
A Nexus acompanha a corrida presidencial desde março e, segundo Tokarski, as dez rodadas realizadas até agora indicam estabilidade na intenção de voto. O CEO afirma que Lula se mantém em um patamar próximo de 40% no primeiro turno, enquanto Flávio Bolsonaro iniciou a disputa em torno de 36% e passou por oscilações pontuais.
Para o analista, episódios negativos envolvendo os dois campos políticos tiveram impacto limitado até agora porque a disputa está concentrada em eleitores já alinhados.
“Quando o eleitor coloca o óculos ou a camiseta de cada um dos seus candidatos, ele ouve as coisas de maneira diferente”, disse.
A avaliação de Tokarski indica que o desafio da candidatura de Flávio Bolsonaro está em ampliar seu alcance para além do eleitorado identificado com o bolsonarismo. A estratégia de endurecimento do discurso, segundo ele, busca consolidar esse núcleo.
Ao mesmo tempo, o senador precisa disputar um eleitorado que desaprova Lula, mas que não necessariamente aceita uma candidatura associada ao legado de Jair Bolsonaro.
“Parece pouco, mas 5% do eleitorado é mais do que a diferença que o Lula tem hoje de três pontos no segundo turno”, afirmou o CEO da Nexus.Na última rodada mencionada na entrevista, Tokarski afirmou que Lula aparecia com 48% de rejeição e Flávio Bolsonaro com 50%. Para ele, os números mostram uma eleição em que os dois principais nomes enfrentam resistência de uma parcela significativa do eleitorado.
Segundo o executivo, a diferença em relação a eleições anteriores é que rejeições próximas da metade do eleitorado deixaram de ser impeditivas em um ambiente altamente polarizado.
“Se fosse há 20 anos, se você chegasse para um marqueteiro político com um candidato com 48% de rejeição, ele mandaria o candidato para casa. Hoje, os dois líderes nas pesquisas têm rejeições até um pouco mais altas”, afirmou.
A entrevista foi realizada no programa Eleições em Pauta, da EXAME, após a divulgação da pesquisa BTG/Nexus. A análise de Tokarski considera os dados do levantamento e os cruzamentos internos feitos pelo instituto para entender o comportamento dos diferentes grupos de eleitores.