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Receita mira grupo financeiro que movimentou R$ 11,6 bi e investiga compra de distribuidora

Apuração da Receita Federal e do Gaeco é desdobramento da Operação Carbono Oculto e aponta indícios de uso de estruturas financeiras para ocultação patrimonial e dissimulação da origem de recursos

 (Receita Federal/Divulgação)

(Receita Federal/Divulgação)

André Martins
André Martins

Repórter de Brasil e Economia

Publicado em 24 de setembro de 2026 às 08h39.

Última atualização em 24 de setembro de 2026 às 11h59.

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A Receita Federal, o Gaeco e órgãos estaduais deflagraram a Operação Crédito Oculto, desdobramento da Operação Carbono Oculto, para investigar estruturas financeiras relacionadas à aquisição de uma distribuidora de combustíveis. A ação cumpriu 32 mandados de busca e apreensão em sete estados contra 13 pessoas físicas e 19 pessoas jurídicas. Segundo os investigadores, uma empresa financeira envolvida nas operações movimentou cerca de R$ 11,6 bilhões entre 2021 e 2025.


A Receita Federal, o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e órgãos estaduais deflagraram nesta quinta-feira, 24, a Operação Crédito Oculto, desdobramento da Operação Carbono Oculto, para investigar estruturas financeiras relacionadas à aquisição de uma das maiores distribuidoras de combustíveis do país, a Terrana.

Segundo os investigadores, uma empresa financeira ligada às operações movimentou cerca de R$ 11,6 bilhões entre 2021 e 2025.

A ação cumpriu 32 mandados de busca e apreensão contra 13 pessoas físicas e 19 pessoas jurídicas em sete estados: São Paulo, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Santa Catarina. São Paulo concentrou 26 dos alvos da operação, com 11 pessoas físicas e 15 empresas investigadas.

No estado de São Paulo, os mandados foram cumpridos nas cidades de São Paulo (18 alvos), Barueri (4), Cotia (1), Guarulhos (1), Paulínia (1) e São José dos Campos (1). Nos demais estados, houve buscas em Vila Velha (ES), Senador Canedo (GO), Várzea Grande (MT), Betim (MG), Rio de Janeiro (RJ) e Itajaí (SC).

Segundo a Receita Federal, a investigação busca identificar a utilização de estruturas consideradas complexas para lavagem de capitais, ocultação patrimonial e dissimulação da origem de recursos usados em operações envolvendo uma empresa sucroalcooleira e a aquisição de uma distribuidora de combustíveis.

Entre os alvos das buscas estão Humberto Arthur Tupinambá Neto, ex-executivo do Banco Genial, seus irmãos, André e Bruno Tupinambá, além do empresário Antonio Carlos Freixo Junior, dono da Entre Investimentos. Freixo Junior fechou uma delação relacionada ao caso do Banco Master e ao financiamento do filme Dark Horse, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Em nota, o Banco Genial afirmou que Humberto Tupinambá não integra a Diretoria e não é sócio da instituição desde maio de 2026, quando ocorreu sua destituição. A instituição diz que todas as informações relacionadas às operações envolvendo o Fundo Radford, inclusive aquelas relacionadas às empresas Berna e Branson Holdings, que estavam em poder da instituição, foram fornecidas pela própria Genial ao GAECO-SP.

"A partir do conhecimento dos fatos, a instituição adotou medidas adicionais de governança e controle, incluindo a instauração de processo de Inspetoria interna, a revisão da governança das operações de crédito, o afastamento do então diretor dos respectivos processos decisórios e sua posterior destituição. A Genial também contou com o apoio de especialistas externos para a revisão e o aprimoramento de seus processos e controles. Após a deflagração da Operação Carbono Oculto, a Genial renunciou à administração do Fundo Radford e manteve sua postura de colaboração com as autoridades, fornecendo as informações e os documentos solicitados. A instituição permanece à disposição das autoridades competentes para colaborar com as investigações e prestar todos os esclarecimentos que se façam necessários", diz o comunicado.

Investigação aponta duas etapas de ocultação societária

Segundo os investigadores, a primeira etapa envolveu a tentativa de ocultar os reais proprietários de uma usina sucroalcooleira no interior de São Paulo. A Receita afirma que a titularidade formal da empresa estava distribuída entre fundos de investimento e outras companhias, mas que os elementos reunidos indicariam uma estrutura destinada a preservar o controle econômico da empresa sem revelar os beneficiários finais.

A apuração também identificou uma operação de aproximadamente R$ 370 milhões envolvendo direitos creditórios da usina. Segundo a Receita, uma empresa ligada a uma sociedade de investimentos adquiriu esses créditos por meio da transferência de cotas de um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC).

De acordo com o órgão, a análise financeira apontou que parte relevante dos recursos usados na aquisição das cotas teria origem em fundos de investimento controlados pelo mesmo grupo investigado. A Receita afirma que a estrutura teria criado um fluxo financeiro circular, com aparência de legitimidade, dificultando a identificação dos beneficiários.

Estrutura financeira teria sido usada na aquisição de distribuidora

A segunda etapa investigada envolve a aquisição de uma distribuidora de combustíveis. Segundo a Receita Federal, a operação teria utilizado uma estrutura composta por banco, fundos de investimento, escritório de advocacia, holdings, empresas patrimoniais e empresas de fachada.

Conforme a investigação, a usina sucroalcooleira teria recebido R$ 100 milhões enviados pela organização criminosa para financiar a aquisição. A Receita afirma que os valores passaram por múltiplas contas de empresas do grupo até chegar à conta da usina.

Segundo os investigadores, os R$ 100 milhões foram posteriormente aportados em um fundo de investimento criado para o negócio envolvendo a distribuidora de combustíveis.

A Receita afirma ainda que a operação envolveu um certificado de depósito bancário vinculado (CDBV), por meio do qual o fundo teria adquirido um CDB de um banco tradicional. Segundo a apuração, o banco utilizou os recursos em uma operação associada à emissão de duas cédulas de crédito bancário para empresas apontadas como de fachada pelos investigadores.

Papel de fintechs, fundos e empresas-veículo

Segundo a Receita Federal, diferentes estruturas teriam funções complementares dentro da investigação. A fintech, empresa que oferece serviços financeiros com uso intensivo de tecnologia, teria permitido a circulação e fragmentação de recursos. Já fundos de investimento, holdings e empresas-veículo teriam sido utilizados para separar a origem dos valores e os beneficiários econômicos dos ativos.

A investigação também aponta o uso de fundos imobiliários para concentrar imóveis relacionados aos investigados. Segundo a Receita, esses veículos permitiriam manter bens fora da titularidade direta dos investigados, dificultando a identificação do patrimônio controlado pelo grupo.

A Receita Federal afirma que o volume movimentado pela empresa financeira investigada, de cerca de R$ 11,6 bilhões entre 2021 e 2025, foi analisado em conjunto com outros elementos reunidos na apuração.
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