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Queiroga está na corda bamba, diz senador sobre depoimento à CPI da Covid

Ao EXAME Política, Tasso Jereissati afirmou que audiência da comissão com o ministro da Saúde mostrou que ele tenta equilibrar seus conhecimentos como médico com convicções do presidente

O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, evitou responder perguntas sobre afirmações do presidente Jair Bolsonaro (Jefferson Rudy/Agência Senado)

O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, evitou responder perguntas sobre afirmações do presidente Jair Bolsonaro (Jefferson Rudy/Agência Senado)

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Roberta Vassallo

Publicado em 10 de maio de 2021, 06h00.

Última atualização em 10 de maio de 2021, 13h37.

Em depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19 na última quinta-feira, 6, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, disse que tem autonomia na Pasta, porém deu a entender aos senadores que a decisão final na Saúde é sempre de Bolsonaro. A fala do ministro, que pode ser convocado novamente à comissão, mostrou um titular que está "na corda bamba", segundo o senador que integra a CPI Tasso Jereissati (PSDB-CE).

Durante o depoimento, o atual chefe da Pasta também foi evasivo sobre a sua posição em relação ao uso da cloroquina como tratamento para o coronavírus e evitou mais de uma vez responder perguntas relacionadas ao tema.

"É um médico respeitado, mas parece que é um pouco da linha 'ele manda e eu obedeço'. Ele está querendo equilibrar o seu conhecimento como médico com as convicções do grupo palaciano e as atitudes do presidente da República", disse Jereissati sobre a audiência com o ministro no último episódio do podcast EXAME Política, disponível todas as sextas-feiras (ouça abaixo na íntegra).

O senador apontou como fator crítico à gestão a contradição entre o discurso de Queiroga, que tem defendido o isolamento social e uso de máscara, e do presidente Jair Bolsonaro, que no mesmo dia do depoimento do ministro voltou a criticar e afirmou estar preparando um decreto para proibir medidas restritivas.

Questionado na CPI se concordava com a declaração do presidente, o ministro evitou dar uma resposta direta. Ele afirmou que o presidente pensa em preservar a liberdade das pessoas e com isso concordava, mas reconheceu que não foi consultado a respeito da medida.

"Se ele realmente vai conseguir fazer com que a coisa funcione até agora temos dúvida, porque enquanto o ministro defendia determinadas coisas, vimos o presidente desancar a dizer uma porção de coisas diferentes da orientação do Ministério da Saúde", avalia Jereissati.

Também médicos, os ex-ministros da Saúde Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, que depuseram à CPI na semana passada, encontraram obstáculos na atuação acerca de assuntos em que havia discordância com Bolsonaro. Nos depoimentos à comissão, o senador considera que os ex-titulares "colocaram claramente" a dificuldade.

Jereissati aponta, no entanto, que o esforço do atual ministro pela compra de vacinas é um ponto positivo de sua gestão até agora.

O senador, porém, fez uma ressalva para a atitude do presidente, que pode prejudicar o calendário de imunização em sua concepção. Ele lembra a declaração de Bolsonaro na semana passada quando o presidente sugeriu que a China faz "guerra biológica e bacteriológica" com a covid-19. No dia seguinte, o diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, anunciou que o instituto pode não ter mais doses da coronavac a partir do dia 14 por atrasos no envio de insumos pela China e atribuiu o ocorrido à falta de diplomacia do governo federal.

Abin na CPI e a 'guerra bacteriológica'

Após a acusação do presidente, o senador apresentou um requerimento na CPI para convocar o diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Alexandre Ramagem, para dar esclarecimentos sobre a afirmação de Bolsonaro. Jereissati afirmou que deve alterar o pedido de convocação para uma solicitação de eventuais informações da agência que fundamentem as acusações.

"O presidente da República dizer isso é uma afronta à China, é quase uma declaração de ruptura", disse no podcast. "A Abin é o serviço nacional de inteligência. Que viesse a expor para nós que risco é esse, que informações ou indícios concretos eles teriam a ponto de o presidente da República falar isso."

O podcast EXAME Política vai ao ar todas as sextas-feiras. Clique aqui para seguir no Spotify, ou ouça em sua plataforma de áudio preferida, e não deixe de acompanhar os próximos programas.

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