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Pragmáticos, governadores alinhados a Bolsonaro já acenam ao novo governo

As dificuldades para equilibrar as contas públicas fazem chefes do Executivo nos Estados recorrerem ao presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva em busca de acordos

O assunto é tratado como prioritário e emergencial (Horacio Villalobos/Getty Images)

O assunto é tratado como prioritário e emergencial (Horacio Villalobos/Getty Images)

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Estadão Conteúdo

29 de novembro de 2022, 18h16

Governadores aliados de Jair Bolsonaro já começaram a se aproximar do futuro governo. Enquanto o presidente não reconhece oficialmente a derrota nas urnas, aqueles que o apoiaram na campanha tratam o resultado da eleição como fato consumado.

As dificuldades para equilibrar as contas públicas fazem chefes do Executivo nos Estados recorrerem ao presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva em busca de acordos. Pragmáticos, eles também se posicionam contra manifestações que defendam intervenção militar.

Sob o argumento de que a relação com o Palácio do Planalto precisa ser mantida e passa pelas bancadas federais, governadores não escondem a preocupação com a redução do ICMS sobre os combustíveis, iniciativa que foi tomada por Bolsonaro durante o período eleitoral e atingiu o caixa dos Estados.

Agora, eles vão pedir ajuda a Lula. O assunto é tratado como prioritário e emergencial.

Na prática, quem esteve ao lado de Bolsonaro na disputa evita tanto incentivar o questionamento ao resultado das urnas como fazer críticas ao presidente. O objetivo é afastar qualquer ruído no momento em que a relação com Lula vem sendo construída.

Um dos mais influentes apoiadores de Bolsonaro na campanha, o governador reeleito de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), admitiu interesse em se reunir com Lula para levar a ele demandas do Estado. "Meu estilo não é o de jogar pedra e também não é o de ser um bajulador. Eu sou muito prático. O que for melhor para Minas, estaremos discutindo", afirmou Zema ao jornal O Estado de S. Paulo.

A 3.875 quilômetros dali, o governador reeleito do Amazonas, Wilson Lima (União Brasil), tem opinião semelhante. "Eu não preciso de alinhamento político, mas preciso de diálogo com o governo federal", afirmou Lima, outro aliado de Bolsonaro.

O amazonense disse ter interrompido o contato com o presidente após o segundo turno, na tentativa de reequilibrar as contas depois da redução do imposto sobre os combustíveis. "O Estado e o governo são estruturas que caminham automaticamente. As coisas não deixam de funcionar. Bolsonaro agora passa da situação para a oposição e isso é normal no processo democrático", disse.

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Farinha

Na Região Norte, cinco dos sete governadores eleitos apoiaram o presidente. Com novo mandato conquistado no Acre, Gladson Cameli (PP) também decidiu estabelecer contato com Lula. Cameli se encontrou com o presidente eleito na COP-27, no Egito.

"Em dois minutos de conversa, já pedi dinheiro e falei das BRs", afirmou o governador. "Ele me pediu a farinha de Cruzeiro do Sul e depois da posse já vou levar."

Cameli criticou os bloqueios de estradas feitos por apoiadores de Bolsonaro e pediu ao Ministério da Justiça que envie as Forças Armadas ao Estado para desobstruir os trechos interditados.

Foi assim que também agiu outro aliado do presidente: o governador de Mato Grosso, Mauro Mendes (União Brasil), reeleito em outubro.

Durante a COP-27, Mendes passou o cargo temporariamente para o vice, Otaviano Pivetta, que mandou um recado aos manifestantes radicais, após a Polícia Militar ser escalada para desobstruir as estradas. "Partiu para a baderna, a gente vai para cima com as nossas forças de segurança, como foi feito", declarou.

Coube ao governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), convocar uma reunião de seus colegas eleitos com Lula, em Brasília, no dia 7 de dezembro. O encontro, no entanto, foi adiado.

Ibaneis não informou os motivos do cancelamento, mas uma nova data deve ser marcada antes da posse, em 1.º de janeiro.

Reeleito com o apoio de Bolsonaro, o governador do Rio, Cláudio Castro (PL), já conversou com Lula e o cumprimentou após o resultado da eleição.

Em São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que venceu a disputa para o Palácio dos Bandeirantes após ser apadrinhado por Bolsonaro — de quem foi ministro da Infraestrutura —, classificou o resultado das urnas como "soberano".

"Vamos olhar o interesse para o Estado de São Paulo", avisou o governador eleito, logo após o segundo turno, no último dia 30. "Observem que, para que a gente possa trazer políticas públicas, é fundamental o alinhamento com o governo federal."

'Preparado'

Um dia depois da eleição, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil) - que conquistou o segundo mandato e é visto como bolsonarista de carteirinha -, disse estar "preparado" para Lula.

No Sul, os dois governadores eleitos com apoio de Bolsonaro durante a campanha — Ratinho Júnior (PSD), no Paraná, e Jorginho Mello (PL), em Santa Catarina — também já manifestaram disposição para o diálogo com Lula.

Em Florianópolis, aliados veem a situação de Jorginho como delicada, uma vez que a maioria do eleitorado critica o petista e apoia os atos de Bolsonaro. O senador e governador eleito sinalizou, porém, que pretende participar da reunião com Lula, sem demonstrar adesão nem amizade, mas ouvindo e evitando destruir pontes.

Na prática, os governadores devem pedir ao futuro presidente que se comprometa com um novo pacto federativo. Trata-se de uma pauta antiga, sempre posta à mesa nas trocas de governo.

A reforma tributária é prioridade para os Estados, mas a medida só será apoiada se envolver maior divisão do dinheiro arrecadado com impostos entre governadores e prefeitos.

Recursos para abastecer os Estados com vacinas e medicamentos contra a covid-19, além de uma compensação financeira por perdas com a redução de impostos sobre a gasolina e o diesel, também compõem a lista de pedidos a ser encaminhada por apoiadores de Bolsonaro a Lula.

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