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O que espera o Brasil: a reabertura econômica dos países mais vacinados

Ainda devemos conviver com uso de máscara, testagem em massa, restrição de capacidade e quarentena em caso de detecção positiva

Pessoas comendo em restaurante na Avenida Paulista. Máscara é obrigatória ao sair do estabelecimento.

Pessoas comendo em restaurante na Avenida Paulista. Máscara é obrigatória ao sair do estabelecimento. (Jonne Roriz/Bloomberg/Getty Images)

Na avaliação do sanitarista Gonzalo Vecina, o mundo só deve voltar a uma normalidade de circulação de pessoas a níveis iguais à pré-pandemia de covid-19 no ano de 2024. Até lá, devemos viver aos trancos e barrancos com uma série de medidas de restrição, que serão retiradas ou recolocadas, conforme a vacinação avança.

O surgimento de novas variantes e a reabertura gradual da economia devem nos levar a conviver com a covid-19. Há uma expectativa, no meio científico, de que no fim do ano a Organização Mundial da Saúde (OMS) reclassifique a doença de pandemia para endemia, quando está espalhada em vários surtos pelo mundo, mas controlada globalmente.

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Mesmo que a vacinação ultrapasse níveis de 80% da população - número que os especialistas dizem não ser mágico -, o uso de máscara, testagem em massa, restrição de capacidade e quarentena em caso de detecção positiva são medidas necessárias até que seja possível atestar o baixo risco de transmissão do coronavírus, e o controle das cepas. E não há uma data para que isso ocorra.

Desde o começo de agosto, a variante Delta, mais transmissível, se tornou a predominante no Brasil. Apesar disso, o número de casos e de mortes vem caindo, e atingiram um platô. Há uma semana, a média de óbitos está entre 600 e 500, segundo dados do Ministério da Saúde.

“Devemos ver uma redução da mortalidade no Brasil para abaixo de 300 por dia, na média, no fim do ano. Considerando que deste total, a maior parte vai estar concentrada nos grandes centros, não vamos ter tantas mortes no interior”, avalia Olavo Munhoz, coordenador de infectologia da Faculdade de Medicina do ABC

A diminuição é resultado do amplo acesso a vacinas. O Brasil já imunizou, com pelo menos a primeira dose, mais de 142 milhões de pessoas, o que corresponde a 66% da população, ultrapassando os Estados Unidos (com 63%). Olhando para as pessoas totalmente vacinadas, o Brasil está bem atrás (35% ante 54%). Segundo especialistas em saúde pública, essa diferença deve ser alcançada até o fim deste ano.

Variante Delta

Os especialistas ainda analisam os efeitos da variante Delta no país. Há a previsão de que os casos subam a partir da próxima semana, mas não necessariamente as mortes. Maria Luiza do Nascimento Moura, coordenadora do serviço de infectologia do Hospital Vila Nova Star, da Rede D’Or, em São Paulo, explica que a vacinação reduz justamente a gravidade, mas não impede a contaminação.

“Houve uma diminuição no número de hospitalizações, mas um leve aumento no número de casos, mas não na velocidade da primeira onda. Nossa sensação é de que os casos estão menos graves, sem a necessidade de ventilação mecânica”, explica.

Outra hipótese é de que a variante Gamma - também conhecida como amazônica - freou por um tempo o avanço da Delta no país, dando tempo para que mais pessoas fossem vacinadas.

“Ainda não sabemos se quem teve a covid-19 com a variante Gamma tem mais proteção contra a Delta. No Rio de Janeiro, ela conseguiu forçar bem a barra e os casos estão começando a subir. Eu prefiro colocar as minhas barbas de molho e ver o que vai acontecer”, alerta Gonzalo Vecina.

Passaporte de vacinação

Assim como no começo da infecção, o Brasil pode olhar com um distanciamento temporal o que outros países do mundo fizeram para controlar a doença. Em nações da Europa, como a França, que tem 63% das pessoas totalmente vacinadas, desde agosto é obrigatório apresentar um certificado de vacinação para entrar em restaurantes, cafés, bares e shoppings.

Nos Estados Unidos, algumas cidades, como Nova York, também adotam a medida - inclusive o presidente Jair Bolsonaro, que não está vacinado, precisou almoçar na parte externa de um restaurante quando esteve na cidade para a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, no começo desta semana.

Cidades brasileiras, como São Paulo, tentaram restringir o acesso a bares, restaurantes e shoppings a pessoas vacinadas, mas encontram resistências do setor. O prefeito da maior cidade do país, Ricardo Nunes (MDB), chegou a anunciar o passaporte da vacinação, mas voltou atrás e estabeleceu o controle apenas para eventos, como congressos, feiras de negócios e jogos de futebol.

Eventos para vacinados e testados

Na Inglaterra - com 65% da população totalmente vacinada -, o acesso de torcedores aos estádios já é permitido, mas seguindo protocolos. Antes de entrar, as pessoas precisam apresentar teste negativo de covid-19 feito em até 48 horas antes da partida. Para torcedores oriundos do País de Gales ou da Escócia, é necessária a vacinação completa, feita até 14 dias antes do jogo.

Na semana passada, o Rio de Janeiro fez um jogo-teste no Maracanã, entre Flamengo e Grêmio. Aproximadamente 6 mil torcedores assistiram ao jogo, mas antes precisam apresentar o comprovante de vacinação, resultado de teste negativo de covid-19 feito 48 horas antes da partida. O uso de máscara foi obrigatório.

O médico sanitarista Gonzalo Vecina defende a não realização do carnaval no próximo ano. Segundo ele, não há como controlar aglomerações, uso de máscara e garantir a participação somente de pessoas totalmente vacinadas. Apesar disso, ele pondera que os desfiles de escolas de samba no Rio de Janeiro e em São Paulo podem ser feitos sob protocolos de segurança.

“Carnaval é algo que você não controla, um evento de massa muito solto. Não vejo a possibilidade de ter carnaval em 2022. O São João, no meio do ano, é possível, mas difícil. Teremos espaço para jogos de futebol com torcida, teatro, eventos em que há controle”, diz Vecina, que é uma das maiores autoridades em saúde pública no país e foi presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) entre 1999 e 2003.

Uso de máscara

Um dos primeiros países a desobrigar o uso de máscara em locais fechados, os Estados Unidos voltaram atrás na decisão após um aumento de 13 mil para mais de 93 mil casos diários de covid-19. O festival de música Lollapalooza, realizado em Chicago, alterou o protocolo sanitário após dois dias de evento e determinou o uso de máscaras em ambientes fechados.

No Brasil, o Ministério da Saúde já informou que trabalha com estudos para que a proteção seja dispensada. O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), afirmou que a obrigação será somente até o dia 31 de dezembro.

Os especialistas dizem que ainda é muito cedo para determinar o fim do uso de máscara. Em boa parte dos países da Europa, o item é obrigatório em situações de aglomeração, como transporte público e grandes eventos.

Com 72% da população totalmente vacinada - uma das mais altas do mundo - o Chile ainda mantém a máscara como obrigatória nas ruas, transporte público, espaços fechados e eventos. Na vizinha Argentina - com 43% das pessoas imunizadas - a partir do dia 1º de outubro não será mais necessária proteção facial em espaços ao ar livre.

Imunização de crianças

A OMS orienta que os países só comecem a vacinação de crianças e adolescentes contra a covid-19 após a imunização completa de adultos, acima de 18 anos. A preocupação é que haja uma distribuição desigual no mundo, como vem ocorrendo, de nações aplicando uma dose de reforço, enquanto outros nem administraram uma dose.

A diretora-geral assistente para Medicamentos e Vacinação da OMS, Mariângela Simão, diz que apesar de ter imunizantes aprovados para aplicação em adolescentes a partir de 12 anos, ainda faltam mais estudos para validar a imunização.

“Qualquer estudo clínico para colocar um medicamento ou uma vacina no mercado, em geral, são feitos com adultos. Tem que levar com cuidado, principalmente por questão de segurança. A relação de benefício em aplicar a vacina nas crianças ainda não está comprovada. Então você precisa ter mais dados, precisa ter mais estudos sobre a segurança dessas vacinas na faixa etária menor”, diz.

Há um mês, a Anvisa vetou a aplicação da Coronavac, do Instituto Butantan/Sinovac, em crianças e adolescentes entre 3 e 17 anos.  De acordo com a agência, os estudos não garantiram a eficácia e segurança. Por outro lado, o Chile já aplica a mesma vacina em crianças entre 6 e 12 anos. Os Estados Unidos usam a Pfizer para adolescentes entre 12 e 17 anos.

“Quando a OMS fala em vacinar jovens só depois dos adultos, é do contexto global, não da realidade do Brasil. Muitos países estão adotando a regra de aplicar apenas uma dose ao invés de duas em crianças. É uma medida inteligente”, avalia Gonzalo Vecina.

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