Marina Silva, candidata ao Senado por São Paulo: em entrevista à EXAME, defende que clima é economia e critica o modelo paulista de privatização e pedágio. (Sergio Lima / AFP via Getty Images)
Editora ESG
Publicado em 7 de agosto de 2026 às 17h02.
Última atualização em 12 de agosto de 2026 às 15h30.
Na corrida ao Senado por São Paulo, Marina Silva faz da crítica ao governo estadual o centro da campanha. Ex-ministra do Meio Ambiente, ela lidera a disputa pulverizada pelas duas cadeiras paulistas, com 14% das intenções de voto na última pesquisa Genial/Quaest, em empate técnico com Simone Tebet (PSB), que soma 12%.
No mesmo levantamento, porém, é o nome mais rejeitado do estado: 49% dos eleitores dizem conhecê-la e não votariam nela. Com 21% de indecisos, 20% de brancos e nulos e mais da metade do eleitorado ainda em dúvida, a eleição segue em aberto.
Para Marina, o estado mais rico do país perdeu tração: "o Brasil cresce 2%, 3%, e São Paulo cresce meio por cento", afirmou à EXAME a saída do World Climate Summit São Paulo, no MASP, nesta quinta-feira, 6.
"Não se governa um estado que representa um terço da economia do país, com 44 milhões de habitantes e a maior base tecnológica e industrial, apenas com privatização e pedágio. Tem que ter visão estratégica", declarou.
Sem citar Tarcísio de Freitas pelo nome, ela criticou a gestão do governador e sua agenda de concessões. Relata conversas com prefeitos que se dizem abandonados, descreve uma saúde que "em muitos lugares não está funcionando" e uma segurança pública esticada ao limite.
"A Sabesp é um problema grave", afirmou sobre a privatização do saneamento. As linhas de trem 11, 12 e 13 são outro caso: "No primeiro dia que entrou em funcionamento já teve algo que fala por si mesmo", diz, lembrando que o poder público teve de retomar a operação por 90 dias.
"A lógica é a do lucro, não a de prestar um serviço de qualidade", afirma. Nos bairros periféricos, diz, a pressão da água caiu "porque a tecnologia permite fazer isso", enquanto o consumidor paga o dobro do que pagava antes.
A alternativa que Marina oferece a esse modelo é a agenda que a tornou conhecida, agora apresentada como motor econômico.
"O debate não é sobre meio ambiente apartado da economia. É sobre a economia", disse. Para a candidata, biocombustíveis, hidrogênio verde e a captação de investimentos sustentáveis são as oportunidades que São Paulo estaria desperdiçando. "Essa é a linguagem do mundo."
O argumento se apoia na trajetória da própria Marina. A ex-ministra lembrou ter sido a voz do Brasil sobre biocombustíveis em reuniões do G7, nas quais defendeu que é possível produzir energia limpa "sem destruir os biomas brasileiros".
Afirmou ainda que o governo Lula abriu 500 novos mercados para a agricultura brasileira e ajudou a fechar o acordo entre Mercosul e União Europeia.
Sobre o tarifaço de Donald Trump, que usou o desmatamento para taxar o Brasil, aponta que o índice citado pelo presidente americano, na realidade, reflete o pico de 2021, registrado sob o governo Bolsonaro, e não o atual.
O tema fala direto ao bolso do eleitor paulista: São Paulo é o maior exportador brasileiro para os Estados Unidos e, ao lado de Santa Catarina, concentra 52% do impacto da sobretaxa, segundo a ApexBrasil, em segmentos industriais que empregam no estado.
O recado final foi ao empresariado e remete à sua atuação à frente da pasta ambiental: quem apostar contra a agenda verde ficará sem parceiros.
"Se alguém quiser dizer que é outra coisa, não sei que tipo de parceria vai encontrar. Não será com a China, não será com a Europa. Vai ser com quem?", finalizou.
Se eleita, não será a primeira vez de Marina no Senado. Ela já ocupou uma cadeira pelo Acre entre os anos 1995 e 2011, e agora tenta voltar à Casa por São Paulo.
Deputada federal por São Paulo desde 2022, ela se licenciou para comandar o Ministério do Meio Ambiente e retomou o mandato ao deixar a pasta, no fim de março deste ano, para ficar apta a concorrer.
Como duas das três vagas paulistas estão em jogo em 2026, o eleitor pode votar em dois nomes, o que coloca as duas ex-ministras como aliadas na urna antes de rivais.
Questionada sobre a dificuldade de concorrer num ambiente polarizado e mais hostil às candidaturas femininas, Marina não fez do tema uma bandeira e levou a conversa de volta à gestão. "O desafio é esclarecer as pessoas sobre as coisas que não estão dando certo em São Paulo", resumiu.