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Muito além do Bumba meu boi, São João movimenta R$ 415 milhões no Maranhão

Com 70 dias de programação, mais de 700 atrações e alta de 19% no fluxo aéreo, a festa popular transforma tradição em um dos principais motores do turismo e da economia do estado

 (Divulgação / Governo do Maranhão )

(Divulgação / Governo do Maranhão )

Publicado em 8 de julho de 2026 às 06h20.

Última atualização em 8 de julho de 2026 às 09h56.

*De São Luís, Maranhão 

Pouco antes de a bola rolar para Brasil e Escócia pela Copa do Mundo, o Largo de Santo Antônio, no Centro Histórico de São Luís, já estava lotado.

Camisas verde e amarelas da seleção se misturavam aos vestidos coloridos, aos chapéus de fita, às barracas de comida, bandeirinhas e ao vai e vem de turistas, locais e famílias que atravessavam a noite do festejo junino na capital maranhense.

No telão montado no arraial, centenas de pessoas acompanharam a partida. Mas, naquela noite de 24 de junho, dia de São João, o futebol era só a primeira atração, e o melhor vinha depois.

São João do Maranhão

Pela primeira vez, São João do Maranhão teve como pano de fundo a Copa do Mundo (Sofia Schuck)

Depois da vitória brasileira, a multidão permaneceu ali por horas, esperando o Boi da Maioba, um dos grupos mais tradicionais do Bumba meu boi maranhense e maior símbolo do sotaque de matraca.

O boi só chegou de madrugada e quando as primeiras matracas começaram a ecoar pelas ruas de pedra da Cidade Velha, o arraial virou um espetáculo de sons e cores bastante diverso.

A cena é um retrato do porquê o São João do Maranhão se tornou um dos principais motores do turismo e da economia do estado.

A celebração mobiliza milhões e faz coincidir dois dos maiores patrimônios do Maranhão: o Bumba Meu Boi, que toma conta das ruas, e os Lençóis Maranhenses, que estão no auge da temporada de junho a agosto, com as lagoas cheias e cristalinas após o período de chuvas. 

Neste ano, a programação oficial reúne 70 dias de festa, mais de 700 atrações e 25 arraiais pela capital.

A expectativa do governo é superar o resultado do ano passado e movimentar mais de R$ 415 milhões na economia.

O impacto econômico aparece em toda a cadeia do turismo: hotéis, bares, restaurantes e aeroportos operam em ritmo intenso, enquanto pequenos empreendedores aproveitam o período para aumentar a renda com a venda de artesanato e produtos que representam a identidade cultural local. 

São João do Maranhão

A capital do Maranhão, São Luís, fica toda decorada para o festejo junino (Sofia Schuck)

A edição deste ano também incorporou a Copa do Mundo ao festejo. Com o tema “O São João do Maranhão te abraça”, os arraiais oficiais uniram dois elementos tipicamente brasileiros: futebol e cultura popular. 

Mesmo após o Brasil adiar seu sonho do Hexa e ser eliminado pela Noruega na noite de domingo, 6, a alegria maranhense continuou em torno do seu maior símbolo: o Bumba meu boi. 

O boi nasce, brinca e morre

Conhecido como Bumba meu boi, o maior símbolo das festas juninas do Maranhão tem origem no século XVIII. O primeiro registro da manifestação no estado data de 1829. Desde então, ela se espalhou pelo território maranhense e se consolidou como expressão de identidade, devoção e resistência cultural.

A tradição é organizada em ciclos. Primeiro vêm os ensaios, quando os grupos preparam toadas, roupas, personagens e instrumentos. Depois, na véspera de São João, entre os dias 23 e 24 de junho, ocorre o batismo. O boi recebe água benta para ganhar proteção divina antes de "brincar a temporada junina".

Em seguida vêm as apresentações, que ocupam arraiais, ruas, praças e comunidades. Dias depois, em 29 de junho, os bois seguem para a Festa de São Pedro, na catedral histórica em São Luís, em agradecimento pelo sucesso das apresentações e pela saúde dos brincantes.

São João do Maranhão

Capela São Pedro recebe os bois na festa do dia 29 de junho (Divulgação / Governo do Maranhão )

No dia 30, São Marçal reúne milhares em uma explosão sonora que costuma atravessar o dia e avançar pela madrugada. Ao fim do ciclo, vem a morte do boi, encerramento simbólico da temporada.

Para quem participa, o boi não é apenas uma alegoria. Ele tem vida, corpo, ritmo e destino.

Dentro da armação do animal, há uma pessoa. É o chamado miolo. É ele quem faz o boi correr, dançar, baixar a cabeça, provocar o público e ganhar movimento diante da multidão.

Midan Gedeon, de 53 anos, acompanha o Bumba meu boi desde a infância. Para ele, quem vê a apresentação de fora nem sempre imagina o esforço e todo significado por trás da tradição. 

“Um boi tem um miolo. Muitas vezes essa pessoa não dorme. É muita bebida, muito festejo, conhaque. São 70 dias de temporada junina sem parar”, diz à EXAME.

O boi como símbolo de morte e ressurreição

No centro da celebração está uma narrativa conhecida como "auto do boi". A história conta que Catirina, grávida, sente desejo de comer a língua do boi mais valioso da fazenda. Para satisfazê-la, seu marido, Pai Francisco, mata o animal.

Descoberto pelo fazendeiro, o casal tenta reparar o dano, e diferentes personagens, curandeiros, pajés, rezadeiras ou doutores, dependendo da tradição, são chamados para devolver a vida ao boi. Quando ele ressuscita, todos celebram em uma grande festa.

Mais do que um enredo popular, essa narrativa ganhou, ao longo do tempo, um significado espiritual para as comunidades. A morte seguida da ressurreição representa renovação, esperança, perdão e a vitória da vida sobre a morte, símbolos que dialogam diretamente com a tradição cristã.

Nas apresentações, essa história aparece em personagens como amos, indígenas, rajados, vaqueiros, palhaços, Pai Francisco, Catirina e o próprio boi. A cada grupo, a narrativa ganha variações, sotaques, roupas e ritmos próprios.

As formas de brincar o Bumba meu boi são chamadas de sotaques. Elas se expressam nos instrumentos, na dança, nas vestimentas, na cadência das toadas e nos personagens. Os cinco principais são: matraca, zabumba, orquestra, baixada e costa de mão.

O sotaque de matraca, típico de São Luís e presente nos municípios da Grande Ilha, é marcado pelo som estridente de dois pedaços retangulares de madeira batidos um contra o outro.

São João do Maranhão

Em São Luís, o sotaque de Matraca é um símbolo presente nos municípios da Grande Ilha (Divulgação / Governo do Maranhão )

Em conjunto com pandeirões, maracás e tambor-onça, as matracas dão ritmo aos grupos e arrastam multidões por avenidas, ruas e arraiais. É o sotaque do Boi da Maioba, do Boi de Maracanã, do Boi de Ribamar e do Boi da Madre Deus.

O Boi da Maioba é um dos mais tradicionais e sua presença costuma mobilizar milhares de pessoas e prolongar a noite nos arraiais. O grupo também protagoniza um dos grandes clássicos culturais do Maranhão com o Boi de Maracanã, outro gigante da matraca.

A disputa poética entre as toadas dos dois grupos é acompanhada todos os anos por brincantes e apaixonados pela cultura popular maranhense.

Cada sotaque expressa a identidade de um território. Juntos, fazem do Bumba meu boi uma das manifestações culturais mais ricas do país.

Em 2019, o Complexo Cultural do Bumba meu boi do Maranhão foi reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.

A madrugada de São Pedro

Se nos arraiais o boi se apresenta sob luzes, palcos e multidões, na Capela de São Pedro a festa ganha outro ritmo. Na madrugada de 28 para 29 de junho, grupos de boi seguem até a pequena capela em São Luís para agradecer ao santo.

Enquanto o som adentra a noite, alguns sobem a escadaria e outros chegam em cortejo, vindos de pontos de encontro espalhados pela cidade como a Casa de Minas.

Kaiana Barata, coordenadora da Capela de São Pedro, conta que a celebração nasceu da relação entre os bois e os pescadores.

“Aqui era uma praia e um porto. Os bois chegavam, desembarcavam, se apresentavam para São Pedro e, na hora de ir embora, agradeciam. Aí começou essa grande manifestação cultural, que vem crescendo, e a gente vem trabalhando todos os anos para manter e não deixar morrer", diz à EXAME.

São João do Maranhão

A virada de São Pedro reúne todos os anos mais de 100 mil pessoas e é um dos momentos de maior devoção do calendário junino maranhense.

A atmosfera é diferente da explosão dos arraiais: é uma mistura de música, agradecimento, fé e a sensação de que a cidade inteira caminha para o mesmo lugar.

“É uma festa única. Toda a população de São Luís e até de outros locais do Brasil vem para cá. É emocionante", complementa Kaiana.

São João do Maranhão

No dia seguinte, São Marçal muda novamente o ritmo da festa. Diferentemente da procissão e oração de São Pedro, o 30 de junho é marcado pela força das matracas. Milhares de pessoas se reúnem para bater madeira, cantar toadas e acompanhar os bois durante o dia inteiro.

Cultura que movimenta a economia

A força econômica do São João vem da capacidade de ocupar a cidade por semanas. A festa movimenta o turismo, mas também uma cadeia produtiva que começa muito antes da primeira apresentação.

Há quem costure, borde e prepare indumentárias, assim como quem fabrica instrumentos, monta barracas e está à frente do comércio local. Durante o período junino, a cultura popular se transforma em demanda para pequenos negócios e renda para milhares de trabalhadores.

O megaevento também exige uma grande operação pública. Neste ano, o circuito oficial contou com 3.782 agentes de segurança mobilizados, mais de 600 viaturas, cinco aeronaves e sistema de reconhecimento facial.

São João do Maranhão

A sustentabilidade entrou no circuito por meio do Recicla MA, projeto que apoia cooperativas de catadores na coleta e destinação correta dos resíduos, visando impulsionar a economia circular e garantir a remuneração justa da cadeia de reciclagem.

De 2023 a 2025, o governo investiu mais de R$ 1,7 milhão na iniciativa. Durante eventos como São João, Carnaval, feiras agropecuárias e festivais, são instaladas ilhas ecológicas em pontos estratégicos para incentivar o descarte correto e manter os espaços limpos.

No Maranhão, o São João não termina no palco. Ele começa nos ensaios, nos ateliês, nas casas de quem borda, nos grupos que atravessam gerações, nos pescadores que deram origem à festa de São Pedro, nos miolos que passam noites dentro do boi e nos matraqueiros que fazem a cidade vibrar. 

Por que o Bumba Meu Boi é uma manifestação de fé

Quem vê apenas o espetáculo das matracas, dos bordados e das toadas perde a dimensão mais profunda da tradição. Para milhares de maranhenses, o Bumba Meu Boi não é apenas folclore:[grifar] é uma expressão de fé.

No estado, o ciclo do boi está profundamente ligado ao calendário católico e à devoção aos santos juninos, especialmente São João Batista, considerado o grande protetor dos grupos de boi.

A festa une elementos do catolicismo popular, das tradições indígenas e das religiões de matriz africana em uma manifestação que atravessa séculos e permanece viva como símbolo da identidade maranhense.

Em diversos grupos, principalmente os mais tradicionais, existem rituais de proteção espiritual, rezas e obrigações ligadas ao Tambor de Mina e a outras manifestações religiosas presentes no estado.

O resultado é um exemplo marcante do sincretismo religioso brasileiro, em que santos católicos convivem com encantados, voduns e práticas ancestrais.

Esse encontro de diferentes matrizes religiosas ajudou a moldar uma das manifestações culturais mais complexas do país, reunindo música, teatro, dança, artesanato, oralidade e espiritualidade.

Uma promessa para São João

No Maranhão, muitos grupos afirmam que "o boi nasce para São João". Não é apenas uma forma de dizer.

Antes das apresentações públicas, acontece um dos momentos mais importantes do calendário: o batismo do boi. A cerimônia costuma ocorrer diante de uma igreja ou em uma celebração religiosa, quando o couro bordado recebe bênçãos e o grupo entrega oficialmente sua temporada ao santo.

É comum que donos de bois, brincantes e famílias façam promessas a São João em troca de graças alcançadas, como recuperação da saúde, proteção, emprego ou boas colheitas. Muitos mantêm a tradição por gerações, participando da brincadeira como forma de pagar uma promessa feita pelos pais ou avós.

O santo que "não dorme"

Uma das crenças mais conhecidas entre os maranhenses é que São João não dorme na noite de sua festa, celebrada em 24 de junho. Segundo a tradição popular, o santo permanece acordado para receber todas as homenagens feitas pelos grupos de boi.

Por isso, as apresentações se estendem durante toda a madrugada. Para muitos brincantes, dançar diante de São João é uma demonstração de gratidão e devoção, muito mais do que entretenimento.

Essa relação ajuda a explicar por que, no Maranhão, o São João tem características diferentes das festas realizadas em outras regiões do Brasil.

Enquanto em muitos estados predominam quadrilhas e shows, no Maranhão o Bumba Meu Boi ocupa o centro das celebrações religiosas e culturais.

Patrimônio da humanidade

O reconhecimento internacional como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, porém, não mudou a forma como muitos maranhenses enxergam a tradição. Para eles, o boi continua sendo, antes de tudo, uma forma de agradecer, cumprir promessas e renovar a fé.

No Maranhão, o espetáculo começa quando os tambores tocam. Mas, para quem participa da brincadeira, sua origem está muito antes: na devoção a São João e na crença de que, assim como o boi da lenda, a esperança sempre pode renascer.

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