Marcelo Crivella dribla polêmicas e é o novo prefeito do Rio

Com 99,96% das urnas apuradas, prefeito eleito do Rio de Janeiro conquistou 59,37% dos votos frente aos 40,63% de Freixo

Brasília – Após um segundo turno repleto de polêmicas, o senador Marcelo Crivella (PRB-RJ) conseguiu superá-las – ou pelo menos evitou que elas atrapalhassem sua campanha – e foi eleito prefeito do Rio de Janeiro neste domingo (30). Com 99,96% das urnas apuradas,  Crivella conquistou 59,37% dos votos frente aos 40,63% de seu adversário, Marcelo Freixo (PSOL-RJ).

Depois de conseguir vantagem de quase 10% em relação ao candidato do PSOL no primeiro turno, Crivella virou alvo de denúncias e polêmicas na segunda etapa da disputa pela prefeitura da capital fluminense. No primeiro turno, o senador foi poupado pelos adversários, que apareciam embolados nas pesquisas de intenção de voto e queriam uma vaga no segundo turno. No primeiro turno, Crivella teve 27,78% dos votos válidos contra 18,26% de Freixo.

“Peço a Deus que essa acidentada vida pública possa deixar para todos os cariocas esse exemplo de que sempre chega a nossa vez quando a gente não desiste”, afirmou durante discurso no Bangu Atlético Clube após a apuração dos votos na capital fluminense.

A fala do novo prefeito teve diversas referências a “Deus” e a “fé”. Crivella é evangélico, ex-bispo da Igreja Universal do Reino de Deus e seu partido tem fortes ligações com a cúpula da Universal.

“Peço a Deus que dê a mim e a cada um de vocês que me acompanharam que nesses quaro anos de governo nós possamos ter a esperança dos que sempre lutam e a fé dos que nunca desistem”, disse Crivella.

Ele afirmou ainda que sua candidatura sofreu uma “campanha de difamação” por seu posicionamento religioso. E agradeceu ao apoio de membros da Igreja Católica, integrantes de outras religiões, como o Espiritismo e a Umbanda, e também dos agnósticos.

Entre as polêmicas, o senador se deparou com a revelação de que ele teria sido preso durante uma tentativa de recuperar um terreno da Igreja Universal invadido, em 1990, segundo reportagem da revista VEJA. Além disso, ele foi citado como beneficiário de caixa dois na delação premiada de Renato Duque, ex-diretor de Serviços da Petrobras.

Nos últimos dias, o prefeito eleito do Rio de Janeiro adotou o silêncio e evitou dar entrevistas. A estratégia foi criticada por Freixo, fatos que, no entanto, não foi suficiente para impedir a vitória de Crivella no segundo turno.

No final do discurso, o candidato parabenizou Marcelo Freixo pela campanha e afirmou que o processo eleitoral acaba neste domingo. “Não podemos cair nas armadilhas da praga maldita da vingança. O processo eleitoral acaba aqui, a índole e a vocação da política que vai para frente. [Vamos] concentrar energias para realizar o projeto de cuidar das pessoas”, disse Crivella.

Reação de Freixo

Em discurso após a divulgação dos resultados, o candidato do PSOL, Marcelo Freixo, afirmou em evento para apuração de votos, na Cinelândia, que a derrota nas eleições municipais marcam o “começo de uma luta”. Segundo ele, seus eleitores mostram um exemplo “daqueles que não se renderam”.

“Essa campanha foi coletiva do início ao fim. O nosso sonho é coletivo, não é feito em uma sala fechada. Hoje começa uma luta. É só o começo de uma luta muito grande e muito bonita”, afirmou Freixo.

Segundo o candidato, as metas de sua campanha não se restringem apenas a uma eleição, mas refletem o compromisso com a cidade e com o país.

“A gente tem muito orgulho de estar aqui. A gente sabia que, independente do resultado, a gente estaria junto hoje e lutaria junto amanhã. O nosso compromisso com essa cidade, com o Brasil, não é determinado apenas por uma eleição”, disse Freixo. “Queríamos muito ganhar esta eleição, mas fizemos tudo dentro do limite ético. Tudo foi feito eticamente. Essa cidade é nossa, ela é maior do que a eleição”.

O candidato também fez críticas indiretas à campanha de Crivella. “A gente marcou [este encontro] na praça pública e  num clube e nenhum lugar fechado. O nosso sonho é coletivo, não é feito em sala fechada”, disse Freixo.

Biografia

Senador desde 2002, Crivella é formado em engenharia civil, foi professor universitário e já viveu por quase uma década na África, onde trabalhava como missionário pela Igreja Universal.

A sua trajetória na política começou há 14 anos, quando foi eleito senador pela primeira vez pelo PL, atual PR.

Em 2005, Crivella e o então vice-presidente da República, José Alencar, fundaram o PRB. Desde então, é o líder da legenda no Senado. Em 2010, foi reeleito no Rio de Janeiro para ocupar uma vaga no Senado federal por mais oito anos.

Durante o primeiro mandato da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), o senador assumiu o comando do Ministério da Pesca e Aquicultura. Nos dois anos em que esteve à frente da pasta, foram descobertos pagamentos ilegais superiores a R$ 19,5 milhões usando o seguro-defeso.

Uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU), divulgada em 2015, mostrou que o benefício dado aos pescadores artesanais durante o período em que a pesca de determinadas espécies é proibida foi direcionado a funcionários públicos. Em sua defesa, o senador do PRB afirma que não responde a procedimentos no tribunal.

O parlamentar do PRB também foi investigado por um suposto envolvimento em um esquema de lavagem de dinheiro que incluiu o repasse financeiro de duas offshore com sede nas Ilhas Cayman para a conta de bispos da Universal e de laranja. Em 2014, a denúncia foi arquivada pela Procuradoria-Geral da República.

Em 2014, ele chegou a disputar o governo do Rio de Janeiro, mas saiu derrotado nas urnas no segundo turno pelo atual governador Luiz Fernando Pezão (PMDB-RJ).

Um dos feitos da vida política de Crivella foi a idealização do programa Cimento Social, que ajuda a reformar casas em favelas. Ele também foi um dos criadores do projeto da fazenda Nova Canaã, na Bahia, onde são oferecidos cursos, opções de lazer e assistência médica a crianças pobres.

O parlamentar do PRB também foi investigado por um suposto envolvimento em um esquema de lavagem de dinheiro que incluiu o repasse financeiro de duas offshore com sede nas Ilhas Cayman para a conta de bispos da Universal e de laranja. Em 2014, a denúncia foi arquivada pela Procuradoria-Geral da República.

 

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