Lula: presidente evitou comentar diretamente a medida comercial e disse que aguardará uma declaração do presidente norte-americano ( Ricardo Stuckert/Divulgação)
Repórter
Publicado em 17 de julho de 2026 às 15h35.
Última atualização em 17 de julho de 2026 às 15h53.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) declarou nesta sexta-feira, 17, que só comentará a tarifa de 25% imposta pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros após uma manifestação do presidente norte-americano, Donald Trump.
A crítica do chefe de Estado ocorreu durante agenda na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro. O evento teve anúncios vinculados a pesquisas em saúde. Antes de se manifestar sobre o tarifaço, o presidente Lula havia afirmado que não falaria do tema. Mas, em seguida, comentou brevemente sobre a questão.
"Eu vou deixar para falar do tarifaço quando o Trump falar. Quando o Trump falar, eu falarei. Enquanto ele não falar, eu não falarei porque nós vamos mostrar que contra o Brasil ninguém ganha mentindo. Ou é mais verdadeiro que nós ou não vai enganar a sociedade brasileira", afirmou o presidente.
Após uma sequência de publicações nos últimos dias, Lula voltou a defender o Pix nesta sexta-feira em uma nova postagem nas redes sociais. A mensagem mantém a estratégia do Palácio do Planalto de associar o sistema de pagamentos à resposta brasileira às tarifas anunciadas pelos Estados Unidos, em meio às preocupações com os impactos da medida sobre a economia.
Enquanto o presidente se manifestou pelas redes, as declarações oficiais à imprensa ficaram a cargo do vice-presidente Geraldo Alckmin e do ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira.
Nossa soberania não se negocia.
Ninguém vai mudar o nosso PIX. pic.twitter.com/3swinMkYxg— Lula (@LulaOficial) July 17, 2026
Lula também declarou que o Brasil deve manter sua posição nas relações internacionais. Durante o discurso, o presidente citou o processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e afirmou que o país precisa manter a soberania em negociações com outros governos.
"Esse país precisa estar de cabeça erguida porque o país não aceita que nenhum outro país do mundo faça desafio para o Brasil. Nós queremos respeito da mesma forma que nós damos respeito a todo mundo", declarou o presidente.A agenda presidencial ocorreu na unidade móvel de saúde da mulher da Fiocruz, instalada em Manguinhos, na zona norte do Rio de Janeiro. A carreta oferece exames preventivos voltados ao atendimento da população.
O governo dos Estados Unidos confirmou, na quarta-feira, 15, a aplicação de uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. A medida havia sido proposta pelo USTR, United States Trade Representative, Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, e encerra a investigação comercial iniciada em julho do ano passado.
Segundo o governo norte-americano, as novas tarifas passam a valer na próxima quarta-feira, 22.Na manhã desta sexta-feira, 17, perfis oficiais de Lula nas redes sociais publicaram uma imagem com a frase: "Ninguém vai mudar nosso Pix. É público, é de graça e vai continuar assim". Na legenda da publicação, o governo acrescentou a mensagem: "Nossa soberania não se negocia".
O governo dos Estados Unidos anunciou, na noite desta quarta-feira, 15, a aplicação de novas tarifas de importação a produtos brasileiros. A nova taxa será de 25%, com uma série de exceções, que incluem café, carne, frutas e partes de aviões, entre outros.
A nova cobrança passará a ser feita em 22 de julho, com exceções para itens que estiverem em trânsito. A cobrança se soma a outras taxas já pagas pelos produtos.
A tarifa foi adotada após uma investigação feita contra o Brasil, por meio da Seção 301, iniciada em julho de 2025. No começo de junho, o USTR, um órgão do governo americano, concluiu que o Brasil age de forma não razoável no comércio bilateral, por práticas como o uso do Pix, a taxação do etanol americano e a falta de combate à corrupção e ao desmatamento.
O USTR avalia que essas práticas dão vantagens indevidas ao Brasil no comércio, e propôs uma nova tarifa para tentar reduzir a competitividade dos produtos brasileiros nos EUA. A decisão foi chancelada pelo presidente Donald Trump.
Além disso, em outro processo, o Brasil é acusado de se beneficiar de trabalhos forçados. A decisão deste processo ainda não foi divulgada, e poderá gerar uma outra tarifa de 12,5%.
Um alto funcionário ligado ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) afirmou, sob reserva, que apesar das cinco reuniões com a equipe negociadora do Brasil, chefiada pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), o lado americano não sentiu empenho para mitigar as motivações comerciais da tarifa.
Ao mesmo tempo, este funcionário afirma que ainda há espaço para novas negociações, embora não tenha detalhado em quanto tempo as conversas poderiam ser retomadas.
Relembre as várias etapas do tarifaço de Trump contra o BrasilDo lado brasileiro, integrantes do governo Lula afirmam que os americanos não se mostraram abertos ao diálogo e que desconsideraram os argumentos do Brasil. Segundo eles, os americanos insistiram em pedidos que estavam completamente fora de cogitação, como concessões acerca do Pix, que, segundo o USTR, representaria uma competição desleal com meios de pagamento americanos.
Horas antes do anúncio, um assessor do governo Lula disse, de forma reservada, que as autoridades brasileiras esperavam a definição do USTR para então definir qual seria a resposta brasileira, que pode incluir o uso da Lei de Reciprocidade, com medidas contrárias aos EUA.
Há, ainda, a expectativa de que os Estados Unidos só aceitem negociar depois das eleições presidenciais brasileiras, em outubro.
Na terça-feira, 14, o governo brasileiro teve a quinta reunião com Jamieson Greer, chefe do USTR, em que o Brasil reiterou o caráter injusto das tarifas.
"Como já demonstrado pelo governo brasileiro, nenhuma das razões apontadas na Seção 301 justificam a aplicação das tarifas recomendadas. Cumprindo a orientação do Presidente Lula, reiterou-se que a aplicação de qualquer sobretaxa se mostra injusta e não é o caminho para que possamos vir a formular um acordo bilateral mutuamente adequado", afirma nota divulgada pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.